A rivalidade entre Flamengo e Fluminense é histórica e uma das maiores do país; conheça mais sobre o clássico que virou patrimônio imaterial do Rio
O clássico entre Flamengo e Fluminense, chamado carinhosamente de Fla-Flu, teve a primeira partida disputada em 1912, há 110 anos. A rivalidade ganhou diversos contornos ao longo dos anos. A importância é tanta que, em 2012, o “clássico mais charmoso do Brasil” foi reconhecido como patrimônio imaterial do Rio de Janeiro.
Um dos motivos que fazem o duelo entre Flamengo e Fluminense ser tão especial é a história que os entrelaça. O Clube de Regatas do Flamengo era, há anos, focado no remo, esporte bastante comum na época. O Fluminense Football Club, que surgiu em 1902, passou por um desentendimento interno em 1911. Foi então que um dos jogadores, Alberto Borgerth, que era jogador do Flu e remador no Flamengo, teve a ideia de criar uma seção de futebol no Rubro-negro.
O escritor e jornalista Nelson Rodrigues, certa vez, usou o romance ‘Os irmãos Karamázov’, de Fiódor Dostoiévski, para descrever o Fla-Flu. No livro, os irmãos são diferentes entre si e possuem visões de mundo opostas. “Há um parentesco óbvio entre o Fluminense e o Flamengo. E como este se gerou no ressentimento, eu diria que os dois são os irmãos Karamázov do futebol brasileiro”, concluiu.
Também foi Nelson Rodrigues que fez a definição mais poética e até hoje relembrada por torcedores sobre o clássico: “O Fla-Flu surgiu quarenta minutos antes do nada”. No mundo real, porém, o primeiro encontro aconteceu em 7 de julho de 1912, nas Laranjeiras, e teve vitória tricolor por 3 a 2.
“Vejam como, histórica e psicologicamente, esse primeiro resultado seria decisivo. Se o Flamengo tivesse ganho, a rivalidade morreria, ali, de estalo. Mas a vitória tricolor gravou-se na carne e na alma flamengas. E sempre que os dois se encontram é como se o fizessem pela primeira vez”, descreveu Nelson Rodrigues. O primeiro gol da história da rivalidade, marcado naquela partida, foi de Edward Calvert, do Flu.
‘Irmãos’ já dividiram título
Em 1940, no torneio regional Rio-São Paulo, Flamengo e Fluminense lideravam a competição quando os times paulistas, depois de oito rodadas, abandonaram a disputa por conta de imbróglios financeiros.
O Fla tinha seis vitórias, um empate e uma derrota; o Flu, cinco vitórias e três empates. Cada vitória valia dois pontos, enquanto os empates valiam um. Com isso, os dois rivais possuíam os mesmos 13 pontos.
Com a interrupção do torneio, Flamengo e Fluminense foram declarados campeões – o que não chegou a ser homologado pela CBD, antigo nome da CBF (Confederação Brasileira de Futebol), mas ficou marcado na memória de quem acompanhou.
Discordâncias históricas
Flamengo e Fluminense possuem divergências sobre alguns dados históricos. Apenas em 2021 os clubes chegaram a um acordo e consenso sobre o número de clássicos disputados, que passa de 430.
Ainda há, porém, conflito sobre o números de títulos que já foram conquistados diante do rival. Para o Flamengo, a ‘disputa’ das taças está em seis a cinco, com vantagem rubro-negra. Para o Fluminense, a vantagem é tricolor e é de oito a seis.
O motivo de discordância são os Campeonatos Cariocas de 1919, 1969 e 1983, conquistados pelo Fluminense. Os dois primeiros foram disputados em sistema de pontos corridos, e os títulos foram para as Laranjeiras após um Fla-Flu. O último aconteceu em um triangular que também envolvia o Bangu.
Curiosidades numéricas
Zico, ídolo flamenguista, é o maior artilheiro da história do Fla-Flu, com 19 gols marcados. Ao lado de Pirillo, pelo Flamengo, e Simões, pelo Fluminense, o Galinho está entre os jogadores que mais balançaram a rede em um só jogo: quatro vezes.
Os jogadores que mais atuaram no duelo, tendo a oportunidade de sentir o que é o clássico mais charmoso do Brasil, são Jarbas e Junior, ambos do Mengão, com 48 duelos. O árbitro Mario Vianna foi quem mais apitou: 24 partidas.
Pelo lado do Fluminense, a maior goleada foi na vitória por 7 a 0, pelo Torneio Municipal, em 1945. Pelos lados da Gávea, a maior diferença foi 5 a 1, em 1943, pelo Torneio Relâmpago. O maior público da história foi em um Fla-Flu de 1963, na decisão do Campeonato Carioca, quando 194.603 torcedores viram o título rubro-negro no Maracanã.
As duas equipes já se enfrentaram até mesmo fora do Brasil. Em 1978, pela Taça Teresa Herrera, Flamengo e Fluminense jogaram em La Coruña, na Espanha. O menor público registrado, porém, foi em solo brasileiro: nas Laranjeiras, em 1993, apenas 336 pagantes assistiram ao clássico.
Patrimônio imaterial
Por conta de toda importância e história, o Fla-Flu foi declarado, em 2012, patrimônio imaterial do Rio de Janeiro — uma lista que inclui, por exemplo, a Orquestra Sinfônica Brasileira, a Banda de Ipanema e a obra musical de Pixinguinha.
Ao longo dos anos, o termo Fla-Flu virou sinônimo de disputa, rixa e polarizações. A expressão foi incorporada ao vocabulário social e político para representar lados opostos. Dentro de campo, porém, o clássico continua como o mais charmoso do país.


















