Lançada à área, a bola bateu na trave e foi cortada na boca do gol antes de chegar ao fundo das redes graças a um chute de Basílio. A descrição é até irrelevante porque aquele é um dos gols mais lembrados da história do Corinthians. A vitória sobre a Ponte Preta em 1977 garantiu o fim de uma fila de 23 anos e durante décadas ocupou o coração alvinegro como o título mais importante da história do clube. Para muitos, continua sendo.

Era um Campeonato Paulista.

A imagem de Evair com a boca aberta, os braços abertos, as palmas da mão também abertas, a expressão entre a alegria e o choque, é eterna. Virou quadro em muitas paredes alviverdes. O Palmeiras, financiado pela Parmalat, derrotou o Corinthians na final em 1993 graças ao pênalti que ele converteu e comemorou daquela maneira. Ainda hoje, você encontra palmeirenses que colocam aquele título acima de qualquer outro, mesmo das três Libertadores, em importância. Foi, afinal, o fim de um jejum de 19 anos sem grito de campeão.

E foi, também, um Campeonato Paulista.

Mas Luan bateu da entrada da área e contou com um desvio no meio do caminho para vencer Weverton e, no segundo tempo, Luciano apareceu na entrada da pequena área para desviar o cruzamento. No Estádio do Morumbi, o São Paulo fez 2 a 0 sobre o então campeão sul-americano, o rival Palmeiras, e conquistou o seu primeiro título em nove anos. Acontece que a fila não era tão grande assim, os resultados no Campeonato Brasileiro começaram ruins, continuaram ruins, e o técnico campeão, Hernán Crespo, foi demitido em menos de cinco meses. A briga pelo rebaixamento durou até a penúltima rodada e nenhum são-paulino se lembrará desta temporada com muito carinho. 

Porque foi apenas um Campeonato Paulista.

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A importância de um título depende de muitos fatores, a nossa equipe de apostas esportivas sabe disso. História e tradição do campeonato, por exemplo. O adversário e as circunstâncias, como uma arrancada improvável nas rodadas finais ou um gol chorado aos 48 minutos do segundo tempo. O contexto: há quanto tempo foi o último? São quantos em sequência? Tudo isso pode aumentar ou diminuir o tamanho do feito. Existe um componente econômico. A premiação de alguns torneios é maior que a de outros e pode ser transformadora em um futebol brasileiro com tantos clubes em crise.

E existe o significado do título em si. Ser campeão do Brasil inteiro é legal. Ser campeão da América do Sul ou do Mundo é mais legal ainda. E é por aqui que os campeonatos estaduais mais perderam força. Em determinados contextos, ser campeão do seu estado ainda é muito importante. Em outros, não é mais, porque as ambições estão voltadas para objetivos maiores.

Celso Unzelte é professor de jornalismo na Faculdade Cásper Líbero, comentarista dos Canais Disney e historiador. “Acho que o que mudou foi o mundo”, afirma com exclusividade à Betway. “Em 1977, quando o Corinthians ganhou o Campeonato Paulista, o sentimento era de campeão do mundo porque o nosso mundo era aquilo. O mundo passou a ser outra coisa”.

Entre as principais potências do futebol mundial, o Brasil é uma “jabuticaba”, como descreve Unzelte, porque é a única delas que tem dimensões continentais. Outros países em que o esporte é muito forte, como Inglaterra ou Itália, puderam se organizar nacionalmente desde o começo do século passado porque seus territórios cabem em Minas Gerais. Por aqui, precisávamos de uma lógica muito mais regionalizada.

“A origem do futebol só podia ser local”, diz Unzelte. “Quando digo local, até mais do que estadual. Se você retroceder um pouquinho, descobre que o Santos valorizava os títulos da cidade de Santos, o Juventude, certos títulos de Caxias, Ponte Preta e Guarani, da cidade de Campinas. Quando o Santos monta aquele time do Pelé, continua jogando o Campeonato Santista com times amadores, sub-20. Os primeiros jogos do Pelé pelo Santos foram por esse Campeonato Santista. Ele inclusive perdeu um pênalti contra o Jabaquara e quis ir embora”.

O primeiro campeonato com caráter nacional foi realizado em 1959 - e mais para solucionar um problema. O Brasil precisava enviar um representante à recém-fundada Copa Libertadores e criou a Taça Brasil para fazê-lo com critérios técnicos. O Torneio Roberto Gomes Pedrosa surgiu em 1967 como uma expansão do Torneio Rio-São Paulo, incluindo outros estados. A CBF reconheceu os vencedores desses embriões como legítimos campeões brasileiros, uma decisão envolta em política que até hoje causa discussão, mas o Campeonato Brasileiro como o conhecemos atualmente começou a ser disputado apenas em 1971.

Demorou algumas décadas para a chavinha virar. “Outro dia eu estava vendo uma revista Placar, acho que de 1970 mesmo, ou de 1971, que tinha essa discussão: ‘os Estaduais devem acabar?’. Mas era muito à luz daquele primeiro campeonato considerado Brasileiro. Ainda pareceu uma discussão de gabinete. Eles sobreviveram”, diz Unzelte. “Acho que é na virada dos anos noventa. O título (paulista) do Palmeiras de 1993 foi claramente mais comemorado, até porque era o desabafo, do que o Brasileiro daquele ano. Acho que na segunda metade dos anos noventa vai se diluindo. Acontece uma consolidação dos campeonatos nacionais, uma consolidação das disputas internacionais”.

Existem “estaduais e estaduais”, mas no começo do século 21, mesmo em regiões mais poderosas economicamente ainda havia espaço para grandes histórias. Aquele gol de falta de Petkovic pelo Flamengo contra o Vasco da Gama foi em uma final de Campeonato Carioca. “Certos títulos são uma saga, tem uma história por trás daquilo, e o futebol permite isso”, afirma Unzelte. “O futebol passa muito por sentimento, não podemos nos esquecer disso”.

Também não podemos nos esquecer de que não há nada no futebol brasileiro que um bom conselho arbitral não consiga destruir. O Campeonato Carioca ficou famoso por ser o mais “charmoso” do Brasil. Em parte porque era transmitido em rede nacional pela Globo. Outros estados conseguiam vê-lo pela televisão. Mas também porque tinha uma fórmula de disputa consagrada, simples e interessante: o campeão da Taça Guanabara enfrentava o campeão da Taça Rio pelo título carioca. Hoje? Hoje ninguém mais sabe como que é.

“Os próprios torcedores não conseguem entender o que é disputado. Isso afeta diretamente os interesses dos torcedores brasileiros. Esse desinteresse influencia diretamente nos negócios e quanto grupos de streaming e redes de televisão pagam por ele”, afirma Pedro Menezes, Senior Business Consulting da consultoria Ernst & Young, em entrevista à Betway. “Antes era um formato muito bom. (Agora) aconteceu muito, até em conversas sobre futebol com vários amigos, de a gente torcer por um jogo e não saber o que está valendo. Às vezes não valia nada”.

No caso específico do Campeonato Carioca, há uma questão de competitividade. O Flamengo passou a faturar muitas vezes mais do que os seus principais oponentes. O Fluminense conseguiu emendar temporadas consecutivas na Libertadores, mas ainda está longe, e Botafogo e Vasco passaram o último ano na segunda divisão, afundados em dívidas impagáveis. “Também vemos que times que antigamente tinham um desempenho que conseguia chegar nas finais, como Americano, Bangu, Madureira, América, todos tiveram queda de rendimento. Se olharmos as Séries A, B e C, os paulistas têm uns 12 (nota do editor: o Oeste foi rebaixado da terceira divisão) times nesses campeonatos. O Carioca tem quatro grandes e o Volta Redonda na Série C”, afirma Menezes.

O futebol europeu tentou criar uma Superliga no começo deste ano. O bolo cresceu exponencialmente, mas a distribuição concentrou as forças em um punhado de clubes. A desigualdade ficou gigante, a competitividade diminuiu. Os preços foram inflacionados e exigem cada vez mais receitas. O diagnóstico de alguns dirigentes daquele continente foi suplantar os campeonatos nacionais por um super torneio europeu que concentrasse as principais marcas. Não foi em frente, por resistência de ligas nacionais, governos e grupos de torcedores, mas a ideia dificilmente morrerá.

São situações diferentes, mas é a mesma força motriz por trás da diminuição da importância dos estaduais. No fim das contas, é tudo uma disputa por atenção. “Os Estaduais estão em um contexto de globalização, até de disputa da atenção do futebol nacional com o do exterior. Hoje, eu tenho a impressão que o cara torce pelo Vasco e pelo Arsenal como antes torcia pelo Moto Club (Maranhão) e pelo Vasco”, diz Unzelte.

E por que ainda existem? 

O público não parece muito mais interessado nos estaduais. Nenhum dos principais do país conseguiu superar média de 10.000 pagantes nos quatro a cinco anos anteriores às arquibancadas serem esvaziadas por questões sanitárias, como mostra o infográfico produzido pela equipe da Betway. Alguns tiveram números bem baixos. O Paulista é o que chegou mais próximo, com cerca de 9.000 pessoas por partida entre 2017 e 2019. O último Brasileirão antes da pandemia, ainda longe do seu potencial, teve 21.320.

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Acima de tudo, o que causa incômodo é o tamanho dos torneios. Eles ocupam os cinco primeiros meses do ano, o que causa uma série de efeitos colaterais. Os clubes são obrigados por questões trabalhistas a dar um mês de férias aos jogadores, e há muito pouco tempo para a pré-temporada, período em que os preparadores físicos trabalham para deixar os atletas na ponta dos cascos e os técnicos desenvolvem suas ideias táticas. Pelo menos é o que deveria acontecer.

O Brasileirão acaba sendo prensado entre maio e começo de dezembro, frequentemente com dois jogos por semana. Quando as seleções entram em campo, os times jogam desfalcados pelos convocados porque não há espaço no calendário para paralisar o campeonato. Como além de tudo a preparação física não foi ideal, o acúmulo de partidas aumenta o número de lesões e prejudica o alto rendimento. O produto sofre, e isso não é bom para ninguém. Com uma notória exceção.

Porque, se tudo isso é verdade, por que os campeonatos estaduais ainda existem e por que eles continuam tão grandes? Existe um fator preponderante: política. As federações regionais (Federação Paulista, Federação Carioca, Federação Baiana) são responsáveis por organizá-los e ao mesmo tempo compõem parte relevante do colégio eleitoral que elege o presidente da Confederação Brasileira de Futebol, a CBF. Na última eleição, elas tiveram direito a 81 dos 141 votos do pleito que escolheu Rogério Caboclo, após uma mudança de regimento que deu aos votos dos 27 órgãos regionais peso três, enquanto clubes da Série A tiveram peso dois e os da Série B peso um.

No último mês de julho, aproveitando que Caboclo estava enfraquecido e afastado, a Justiça do Rio de Janeiro anulou aquela eleição porque considerou que a assembleia geral que sancionou essa alteração foi irregular por não contar com a presença dos clubes. De qualquer maneira, não há indicativos de que as federações deixarão de ser politicamente relevantes em um futuro próximo. Como os clubes ainda não se organizam para realizar o Brasileirão sem depender da CBF, o status quo acaba sendo mantido.

 “O respeito pela história (dos estaduais) está em último lugar”, afirma Celso Unzelte. “Acho que a questão financeira, principalmente em São Paulo, pesa muito e a maneira política como são feitas as federações. Isso pesa mais que tudo. A questão política está presente em todos os estados. A financeira, em alguns. Alguns estaduais deveriam valer muito mais do que pagam por ele, como o Pernambucano, que é um lugar onde os torcedores realmente gostam dos times locais. Agora, cada um vai buscando soluções. O Nordeste encontrou uma solução interessante com a Copa do Nordeste. É melhor o Sport jogar com Fortaleza, Ceará, Bahia e Vitória do que contra o Íbis, contra os times menores de Pernambuco”.

Com públicos tão baixos, ninguém, com raras exceções, pode contar com arrecadação de bilheteria para tornar os estaduais rentáveis. As fases finais e grandes clássicos às vezes salvam a lavoura. A fonte de renda mais confiável são os direitos de televisão, quanto as emissoras pagam para poderem transmitir os jogos. No caso do Pernambucano, por exemplo, esse valor é baixo: R$ 4 milhões para todo o campeonato, R$ 1 milhão para cada um dos três grandes (Sport, Náutico e Santa Cruz).

Na Bahia, os dois principais clubes do estado, Bahia e Vitória, receberam R$ 854 mil cada um pela cota de TV do estadual — algo que não paga nem a folha salarial dos clubes nesse período. Até por isso, os dois jogam o estadual com um time de jovens e jogadores menos aproveitados do elenco, enquanto o time principal joga a Copa do Nordeste.

Na Copa do Nordeste, a cota de TV chegou a R$ 34,6 milhões em 2020, quando o torneio teve seu contrato mais vantajoso até agora. Em 2021, o valor caiu um pouco e ficou em R$ 26,9 milhões. Nos dois casos, o dinheiro é distribuído de acordo com o ranking dos clubes e a fase que cada um chega no torneio. Ainda assim, está muito longe do que faturavam os dois principais centros do país.

Com todos os problemas, o Campeonato Paulista ainda gera renda relevante aos clubes grandes. O último ano do contrato com a Globo rendeu cotas de R$ 30 milhões, além da premiação em caso de título. O valor foi sendo ajustado e cresceu gradativamente desde que o acordo foi assinado em 2016. Chegou a representar quase 15% das receitas do Santos em uma temporada, 6,4% do faturamento do Corinthians e 7,4% do São Paulo. O Palmeiras está em outro patamar financeiro, mas mesmo ele se aproximou de 5% em determinado ano apenas com os direitos de televisão. O infográfico abaixo ilustra que pode não ser grande coisa, mas é alguma coisa. 

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No Rio de Janeiro, os valores eram menores. Ainda assim, os R$ 18 milhões recebidos da Globo em 2020 representaram cerca de 10% dos faturamentos de Fluminense, Botafogo e Vasco. O Flamengo tem uma superioridade financeira ainda maior em relação aos seus concorrentes mais próximos e não por acaso foi quem deu início a um movimento que pode causar abalos sísmicos às estruturas dos campeonatos estaduais: a transmissão dos jogos sem o envolvimento da Globo.

O Flamengo foi o primeiro a fazer esse teste. Não vendeu os seus direitos do Campeonato Carioca de 2020 para a emissora e usou uma medida provisória do governo federal para veicular os seus jogos como mandante. A regra, até então, exigia que os dois clubes dessem permissão às transmissões. A Globo considerou que isso desrespeitava contratos vigentes e rompeu com todo mundo. Este ano, os jogos do Estadual do Rio de Janeiro passaram na Record, em TV aberta, e em serviços próprios de pay-per-view dos clubes.

“A Globo inflacionou bastante o mercado do Carioca nos últimos anos. A gente via que os campeonatos não eram mais atrativos ao torcedor, e a Globo pagava muito por eles. Foi até um movimento recente da Globo de começar a se desfazer dessas competições um pouco menores para focar nas grandes”, afirma Pedro Menezes, da Ernst & Young. O Campeonato Paulista segue um caminho parecido. Em 2022, será transmitido pela Record na TV aberta, com jogos também na plataforma de streaming HBO Max e no YouTube. Não haverá transmissão em TV fechada. Esse também é um movimento citado por Menezes: a separação dos torneios em pacotes, de plataformas ou de dias, negociados com empresas diferentes.

“Agora temos o SBT que veio forte, investindo em transmissões, a Record, a própria HBO Max, YouTube, que também fechou com o Paulista. A Disney agora tem um grande orçamento de investimentos para transmissões ao vivo. É bem provável que em um futuro próximo comece a ser uma concorrente nas propostas. Também vimos a Conmebol com essa alteração, dividindo por dia de jogo. Começaram a observar que, repartindo, você acaba tendo um ganho de escala, cria mais valor para o seu produto”, avalia.

É importante sublinhar que a amostragem ainda é muito pequena, mas a primeira experiência do Campeonato Carioca não foi promissora. Os valores caíram drasticamente, para menos de R$ 20 milhões líquidos para serem divididos entre todo o campeonato. Praticamente a mesma cota que Botafogo, Vasco e Fluminense receberam individualmente no último ano do contrato que valia até 2024 e foi rescindido em meio à disputa judicial pela Medida Provisória da Lei do Mandante – aquela que permitiu ao Flamengo transmitir seus jogos em casa sem a anuência do clube visitante.

Menezes acredita que as circunstâncias em que o Campeonato Carioca fez a transição não permite tirar conclusões muito sólidas. “O Carioca começou a negociar os direitos de transmissão em novembro e dezembro, quando todos os grupos de mídia já haviam fechado seus orçamentos para o próximo ano. Fica complicado encaixar uma verba relativamente alta fora do orçamento. Nós vimos o Carioca tentando andar com as próprias pernas. Construiu streaming próprio, negociou com canais de TV fechada. A Federação Paulista vem com esse planejamento há algum tempo. Fatiaram o campeonato, comercializaram, conseguiram agregar maior valor ao produto”, disse.

O especialista parece otimista com as perspectivas do Campeonato Paulista. Mas dois aspectos são muito claros: qualquer mudança relevante no futebol brasileiro provavelmente será liderada pelos clubes de São Paulo e Rio de Janeiro; e eles acabaram de deixar para trás a estabilidade de uma parceria com a Rede Globo para entrarem em um terreno mais incerto. Se até as verbas de transmissão evaporarem, o que acontecerá com os campeonatos estaduais? E se eles acabarem, ou forem drasticamente reduzidos, o que acontecerá com o futebol brasileiro? 

Ok, mas o que colocamos no lugar? 

Maria José Vieira dá risada quando ouve a pergunta: o Campeonato Cearense é rentável? O jogador Ari, com passagem por clubes como Spartak Moscou e Krasnodar em uma década dedicada ao futebol russo, arrendou o antigo Uniclic em 2017 e convidou Vieira para assumir o comando. Ela não tinha experiência no futebol. É pedagoga, especialista em saúde comunitária, com curso técnico em agropecuária e estudava gestão ambiental. No ano seguinte, houve a mudança de nome para Atlético Cearense. Com uma presidente outsider, o clube fez uma boa campanha no Estadual logo de cara, chegando à semifinal. Este ano, conseguiu vaga para a Série C por meio da quarta divisão, importante para garantir um calendário nacional durante o ano inteiro.

“Com todo respeito, você acha que vai ter bilheteria em Atlético Cearense x Crato?”, diz Vieira à reportagem da Betway. “Temos uma história relativamente nova. E não tivemos ainda a oportunidade nesses campeonatos, na forma como são feitos, de ter resultados bem expressivos, apesar de sempre chegarmos na parte de cima da tabela. Infelizmente, ainda não tivemos bilheterias expressivas, a não ser quando jogamos contra Fortaleza e Ceará com torcida. Aí paga a conta do campeonato”. Por isso, ela está bastante irritada com a nova fórmula do Cearense, pela qual Ceará e Fortaleza entram direto nas quartas de final

Porque por mais que não seja rentável, o Estadual oferece duas oportunidades a um time como o Atlético Cearense. A primeira, como citado, é a bilheteria dos jogos contra os grandes. Se eles disputam apenas o mata-mata, essa oportunidade desaparece. Infelizmente, não funciona assim em todo lugar.  “Varia muito de região para região”, diz Menezes. 

“Aqui no Sudeste e no Sul, jogos do Grêmio contra um time menor não tem público. No Rio de Janeiro, temos jogos do Fluminense contra o Madureira com 500 pessoas no estádio. Não é rentável”, acrescenta. Unzelte lembra-se de quando o Linense vendeu o mando de campo para o São Paulo no Paulistão de 2017 e outros episódios do tipo.

“Essa história também é meio falácia. Está contando mais com a torcida dos outros do que com a comunidade. Antes, era a chance para Jaú ver os grandes. Se você restringir os estaduais, vai ter esse efeito colateral. Seria interessante cada um transitar dentro do seu escaninho, todo mundo tendo chance, podendo chegar. O que acontece hoje é uma coisa predatória. Tem Campeonato Paulista aí que confundo todos os times. Essa identidade antiga, em que um jogo do XV de Jaú tem importância de um jogo de Libertadores, nós nunca mais vamos resgatar. O mundo está andando em outra direção, mas pelo menos o suficiente (é possível), para quando esses times chegarem ter essa relevância”, afirma.

Existe uma segunda oportunidade também: usar essas partidas com mais atrativo como vitrine para exibir os seus jogadores. Na última semifinal, o Atlético Cearense levou 6 a 0 do Fortaleza. Não foi ideal, mas Vieira prefere que seja assim. “Não estamos jogando futebol apenas por uma renda. Estamos jogando porque estamos produzindo jogadores. Nosso produto é o futebol. É muito mais fácil o meu atleta ser visto por você, mesmo meu time perdendo por 6 a 0, do que se eu estiver jogando com um time que não está na Série B, na Série A, não tem divisão. É muito mais difícil mostrar esse atleta”, diz. Caso, por exemplo, do meia Olávio, artilheiro do Campeonato Cearense com 14 gols, emprestado ao Volta Redonda para a disputa da terceira divisão. Marcou apenas dois gols e retornou, mas era mais uma chance de ele estourar em um centro com mais visibilidade, como o Rio de Janeiro, mesmo em um clube menor.

“Eu não acho que o deficitário é o campeonato, mas como ele é organizado. Quando você tira as duas principais torcidas do estado, você está dizendo que haverá um esvaziamento. Até na fala da torcida existe uma desvalorização do Estadual. Eu, como administradora de um clube, faço um esforço, os investimentos que estamos fazendo, e não existe uma valorização para aquele trabalho. Quer dizer que o Estadual é só para dar uma vaga para quem vai para a Copa do Brasil e já sabemos quem vai ganhar? Este ano fiquei muito irritada porque fizeram uma publicação, da própria federação, colocando o campeonato como manjadinho”, reclama.

O Brasil é o principal exportador de jogador do mundo. Um relatório da Fifa analisou o mercado entre 2011 e 2020 e identificou que a brasileira foi a nacionalidade responsável pelo maior número de transferências no período, com 15.128 atletas vendidos, mais do que o dobro da segunda colocada, a argentina, com 7.444. As dimensões continentais funcionam como uma faca de dois gumes. Ao mesmo tempo em que aumentam a oferta, também dificultam a captação de talentos. E sabe quem acaba fazendo isso? Os campeonatos estaduais.

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É como se fosse um processo em etapas. Uma promessa no interior do Ceará é identificada pelos olheiros do Atlético Cearense, come a bola nos jogos do Estadual, chama a atenção do Fortaleza, que contrata o jogador para disputar o Campeonato Brasileiro e quem sabe ele não acaba indo jogar no Corinthians e depois é vendido para a Europa? Seria muito mais caro se esses clubes compradores tivessem que armar uma rede de observação que abrange cada canto dos 8,5 milhões de quilômetros quadrados do território brasileiro. Sem falar que os jovens precisam de tempo de jogo para se desenvolverem. Com todos os seus defeitos, os estaduais oferecem milhões de minutos de competitividade a atletas que precisam de experiência.

“A valorização dos campeonatos estaduais deveria ser repensada, até mesmo pela CBF, para qualificarmos os atletas porque sem esse nível de competição e minutagem de jogo, o atleta vai ficando cada vez mais escasso no mercado”, afirma Vieira. “Temos que pensar no futebol como uma cadeia produtiva. Uma cadeia econômica. Se você não tem motivação para alimentar aquela cadeia produtiva, ela não vai funcionar. O que queremos é fomentar o mercado. Não apenas a renda do clube, mas o mercado do futebol em si”.

E daí emerge a primeira pergunta crucial: se não houver campeonatos estaduais, como esses jogadores serão captados? “A principal questão é a sobrevivência dos clubes menores”, diz Pedro Menezes. “Para muitos desses clubes, o estadual é a única competição que eles jogam. Se reduzirem muito o tamanho dos estaduais, e os pequenos ficarem sem datas, corre o risco de deixarmos de ser esse celeiro de atletas. Esses clubes menores são os grandes responsáveis pela captação e formação de jogadores. Diversos atletas são revelados em campeonatos estaduais. Mas se matarmos esses campeonatos, vamos perder essa rede de captação que hoje em dia é natural. Temos mais de 800 clubes profissionais dentro do Brasil”.

O Brasil tem apenas quatro divisões nacionais. A quarta é acessada por meio dos campeonatos estaduais que acabam servindo como torneios classificatórios. Não é um formato ideal porque, a menos que o clube chegue à terceira divisão, como fez o Atlético Cearense, ele não tem garantia de calendário para o ano inteiro. As federações estaduais organizam torneios regionais que muitas vezes concedem vagas à Copa do Brasil, como a Copa Paulista em São Paulo ou a Copa Fares Lopes no Ceará, mas elas também não são um sucesso de público e crítica.

“Não há profissional sem garantia de emprego o ano inteiro”, afirma Unzelte. “É preciso ter um calendário de um ano inteiro. Precisaria fazer uma reestruturação do futebol brasileiro, mas a CBF pensa no futebol brasileiro mais como seleção do que com clubes. Nem todo mundo precisaria ser profissional. Poderíamos ter ligas como, por exemplo, na Inglaterra (onde da quinta divisão para baixo os campeonatos são semiamadores ou amadores). Na Alemanha também tem ligas amadoras. Nem tudo precisa ser profissional”.

Menezes sugere um formato que provavelmente faria a presidente do Atlético Cearense suar frio. “Acredito que os estaduais sejam alongados para esses clubes pequenos e médios, tendo os grandes entrando nas fases mais eliminatórias. Até para ter calendário para esses clubes e não matar os clubes pequenos, para que a fase final traga grande atratividade para os torcedores”, explica. Vieira acredita que esse tipo de modelo é segregacionista. Ela quer a presença dos grandes e topa até que eles façam como o Athletico Paranaense, que desde 2013 usa um time de aspirantes no Campeonato Paranaense.

“É segregação. É segregar o direito das pessoas pertencerem. Já pensou se eu pego um time como o Fortaleza que hoje está indo para a Libertadores e só porque passou oito anos na Série C ele fica segregado a campeonatos menores? Eu não acho justo. Você é pequeno, você joga em um campeonato, você é grande, você joga em outro. Acho que não tem que ficar escolhendo o campeonato que o grande tem que jogar. Se ele é grande, ele tem que estruturar um time para jogar os campeonatos menores. Os campeonatos devem ser fomentados, estruturados, a ponto de os clubes poderem produzir suas torcidas, vender seus materiais, produzir uma torcida apaixonada”, explica.

Uma ideia muito citada é trocar os campeonatos estaduais por mais divisões inferiores, que comecem regionalizadas antes de uma disputa mais nacional, tudo dentro da pirâmide do Campeonato Brasileiro. E aí, lá vêm as tais dimensões continentais novamente. “Até pode existir, mas o mais complicado nisso é que a Série C e a Série D custam mais de R$ 80 milhões para a CBF em logística. Pelo tamanho do Brasil, é complicado ter uma Série E, uma Série F. Imagina um time do Acre jogando contra um time do Rio Grande do Sul. A não ser que sejam criados campeonatos regionais que, no quadrangular, sejam nacionais”, diz.

O principal problema é conciliar interesses. Existe um modelo que atenda às necessidades do Atlético Cearense e do Flamengo? E se houver uma queda de braço definitiva, todos sabem para que lado a corda estourará.

“Pode ser que o Atlético não sobreviva a isso. Tenho certeza que haverá outros campeonatos. O futebol não vai perecer. Possivelmente clubes como o Atlético não sobreviveriam porque os investimentos seriam muito baixos. Se acontecer de acabar ou diminuir os estaduais, isso não vai acontecer de uma forma positiva. Acho que as pessoas têm um imediatismo tão grande de chegar a uma competição como a Libertadores que elas não valorizam mais o que está lá embaixo. Os estaduais aproximam o futebol das pessoas que torcem por aquele futebol, que ajudaram um time a crescer. Apesar dos poucos recursos que cabem aos clubes, e às vezes isso é muito difícil, o Estadual é de fundamental importância, é o berço de cada clube, o berço do futebol brasileiro”, diz.

“Eu sou do mato, eu gosto de trazer minhas raízes. Quando você toma um caminho, chega a um lugar e encontra uma cerca, por mais inútil que ela pareça, não tire do lugar antes de saber o que ela está cercando, o que ela está protegendo. Às vezes a gente vai mexer na estética e solta uma boiada inteira. Nós temos que saber por que a cerca está ali”, encerra.