Após sucesso de Jorge Jesus e Abel Ferreira, Brasileirão viveu uma profusão de técnicos de futebol portugueses à beira do gramado
No futebol brasileiro, é comum que os clubes sigam tendências na hora de escolher um treinador. Em um determinado período, várias equipes optaram por contratar técnicos jovens, renovados, com ideias diferentes. Em outra ocasião, a maior parte escolheu profissionais renomados, os famosos medalhões, com títulos na carreira e já consagrados.
O momento atual, porém, é de treinadores estrangeiros. O de 2022 começou com um número recorde de gringos à beira do gramado. Das 20 equipes, nove tinham estrangeiros no comando.
Os vizinhos sul-americanos eram representados por três argentinos (Turco Mohamed, no Atlético-MG; Fabián Bustos, no Santos; e Juan Pablo Vojvoda, no Fortaleza), um uruguaio (Alexander Medina, no Internacional) e um paraguaio (Gustavo Morínigo, no Coritiba).
A maioria dos estrangeiros, porém, vinha do outro lado do Oceano Atlântico, da Europa, mais especificamente de Portugal. Eram quatro treinadores portugueses: Abel Ferreira (Palmeiras), Luís Castro (Botafogo), Vítor Pereira (Corinthians) e Paulo Sousa (Flamengo). Apenas Sousa não segue no Brasil, demitido pelo Rubro-Negro. No começo de junho, o Cuiabá também anunciou António Oliveira.
Ao longo da história, houve a presença de poucos técnicos de futebol portugueses por aqui, como Ernesto Santos, Jorge Joreca, Luís Miguel Gouveia, Paulo Morgado e Sérgio Vieira.
A ‘mania’ de portugueses nos clubes brasileiros começou mesmo depois do sucesso de Jorge Jesus, pelo Flamengo, em 2019, e de Abel Ferreira, pelo Palmeiras, até hoje no comando da equipe. Antes deles, em 2016, o Cruzeiro teve uma experiência malsucedida com Paulo Bento, ex-técnico da seleção de Portugal. Ele ficou somente 17 jogos na Raposa.
Para aguçar a curiosidade:
Jorge Jesus foi o primeiro a brilhar
Em junho de 2019, o Flamengo fechou acordo com Jorge Jesus, até então desconhecido da maioria dos torcedores brasileiros. Ele tinha passagens por Braga, Sporting e Benfica, onde venceu três Campeonatos Portugueses. Foi bem recebido pela torcida rubro-negra, e logo virou ídolo. Não demorou para encaixar o time e fazer história em solo nacional.
Sob o comando de Jesus, o Mengão foi campeão brasileiro e da Libertadores – título que não conquistava havia 38 anos – em 2019. Em 2020, ganhou a Recopa Sul-Americana, a Supercopa do Brasil e o Campeonato Carioca. Ele deixou o clube na metade do ano, aceitando uma proposta do Benfica.
O futebol bonito e ofensivo do português no time flamenguista fez brilhar os olhos dos torcedores e encantou até mesmo rivais e imprensa. Em um ano, conseguiu fazer história e marcar o nome no Brasil. Há quem diga que ele revolucionou o jogo por aqui. Nos anos seguintes, uma volta foi especulada, mas não chegou a se concretizar.
Abel Ferreira veio e ficou
Três meses depois da saída de Jesus do Flamengo, o Palmeiras anunciou a contratação de outro técnico português. Também desconhecido e ainda mais novo, com 41 anos (Jesus tinha 64 quando chegou), Abel Ferreira assumiu o Verdão, substituindo o ídolo Vanderlei Luxemburgo.
Abel veio do PAOK, da Grécia. Antes, havia passado por Braga, Braga B e Sporting B. Foi no Palmeiras que começou a construir uma carreira vitoriosa. Muitas vezes criticado por ser ‘retranqueiro’, o treinador, com o passar dos anos, mostrou repertório e provou que consegue vencer de acordo com o adversário, mudando inclusive a forma de jogar.
Exatamente três meses depois do dia do anúncio da contratação, ergueu a taça da Libertadores pelo Alviverde, vencendo o Santos, na final disputada no Maracanã, no Rio de Janeiro. Pouco depois, . No fim de 2021, dessa vez participando da campanha inteira, conquistou outra Libertadores, a terceira da história do clube.
Em 2022, Abel já foi campeão da Recopa Sul-Americana, que pagou 1,6 milhão de dólares, e do Paulistão. Ao todo, já foram nove finais e cinco títulos. Na primeira fase da Libertadores deste ano, o time fez a melhor campanha da história. Ele também está na briga pelo Campeonato Brasileiro.
O técnico de futebol português, por conta do estilo explosivo e intenso, desperta diferentes sentimentos nos torcedores: é amado e idolatrado pelos palmeirenses, mas muitas vezes ‘odiado’ – além de admirado – pelos adversários. Além dos resultados, ele também fica marcado pelas frases de efeito e entrevistas sinceras.
Abel ‘cunhou’ a expressão ‘cabeça fria, coração quente’, que virou lema do seu elenco para enfrentar as adversidades. A frase virou um livro, com este nome, sobre a trajetória das conquistas do profissional e sua comissão técnica no Brasil.
Outros nomes vieram ‘a reboque’
Na esteira do sucesso de Jorge Jesus e Abel Ferreira, outros clubes brasileiros passaram a buscar profissionais portugueses no mercado. Foram muitas contratações nos últimos anos, especialmente a partir de 2020.
O Vasco teve Ricardo Sá Pinto. O Santos foi buscar Jesualdo Ferreira. Augusto Inácio trabalhou no Avaí. Paulo Sousa ficou pouco tempo no Flamengo. Todos sem sucesso. António Oliveira, hoje no Cuiabá, trabalhou no Athletico-PR e saiu da equipe antes do título da Sul-Americana do ano passado.
Atualmente, além de Abel, quem faz mais sucesso é Vítor Pereira, que, após um pouco de instabilidade, tem conquistado a torcida corintiana. Luís Castro, no Botafogo, chegou a empolgar, mas também ficou na corda bamba após resultados ruins. O mercado de técnicos de futebol portugueses segue a todo vapor.


















