Ele surpreendeu o mundo quando se aposentou semanas antes do início da temporada atual. Mas será que ele faria tanta diferença assim no ano dos Colts?
O rosto de uma franquia, ainda mais quando ele é o quarterback, tem um peso muito maior do que aquele que vemos no campo.
Um “franchise QB” carrega consigo todo os prós e contras de ser praticamente quem manda no time. Ele é protegido e seguido por seus companheiros toda semana, e do mesmo jeito que os louros da vitória sempre irão para ele, mesmo que ele não seja o maior responsável por ela, o peso da derrota sempre cairá sobre suas costas, ainda que ele não seja o maior culpado.
Os Colts encontraram em Andrew Luck um quarterback genial. A grande estrela do time foi draftada em 2012, para substituir o então titular absoluto, o lendário Peyton Manning.
O veterano voltava de uma série lesão na coluna, que o forçou a fazer uma série de cirurgias, o que deixavam sua capacidade de jogar em alto nível em xeque. Por isso, Manning foi liberado de seu contrato apenas dias antes de uma cláusula ser ativada, obrigando o time de Indianápolis a pagar uma quantia de 28 milhões de dólares a Manning.
Para seu lugar, o nome era indiscutível. Andrew Luck mostrava na Faculdade de Stanford que estava pronto para o jogo profissional, já que ele jogava em um sistema bastante próximo do que é visto na NFL, algo que poucas equipes do college football faziam na época.
A temporada horrorosa dos Colts no ano anterior era tudo que os Colts queriam. Com Manning afastado de toda a temporada, os Colts sacrificaram a temporada inteira jogando com quarterbacks como Curtis Painter e outros nomes que os torcedores têm calafrios só de lembrar que eles já jogaram pelos Colts em temporadas regulares. E isso era tudo que os Colts queriam porque eles teriam a primeira escolha do Draft do ano seguinte, justamente quando Luck subiria para os profissionais.
Tudo caminhou conforme o planejado. Os Colts tiveram uma temporada com um 14-2 desastroso, mas que os torcedores receberam com um sorriso no rosto, sabendo que Luck era o protótipo de quarterback que vence campeonatos.
Durante sua carreira, Luck se destacou por realmente atender as expectativas criadas em torno dele. Seu braço era fenomenal, com uma força e precisão raros. Outro fator que pesava em seu favor era seu jogo de pés. Luck é grande, mas nem por isso, lento. Ele conseguia conquistar jardas e touchdowns terrestres com frequência, o que faziam dele um QB de ameaça dupla, algo que a maior parte das defesas têm dificuldade para lidar.
Entre 2012 e 2018, Luck venceu 60,8% de seus jogos com os Colts, terminando sua carreira com 23.671 jardas aéreas, 171 passes para touchdown, 83 interceptações e um passer rating de 89,5. Luck também era conhecido com um “QB clutch”, que são aqueles que conseguem aparecer nos momentos decisivos e ganhar partidas difíceis nos momentos finais. Luck teve 16 viradas de jogo no último quarto das partidas, conseguindo 16 vezes o feito entre 2012 e 2018. Apenas Russell Wilson, Matthew Stafford e Andy Dalton conseguiram mais neste período.
Isso são números para lá de sólidos para um quarterback de elite, ainda mais com a ajuda que ele teve na maior parte dos anos: quase nenhuma.
O talento em volta de Luck foi pequeno durante a maior parte de sua carreira. Ele sempre teve em T.Y. Hilton seu melhor wide receiver, mas por anos isso foi o máximo que ele conseguiu. A linha ofensiva foi porosa demais durante anos, os outros recebedores, principalmente após a aposentadoria de Reggie Wayne, nunca foram grande coisa e a defesa dos Colts simplesmente não segurava o rojão em jogos mais difíceis.
O corpo técnico tem grande parcela de culpa nessa parte. Chuck Pagano foi o treinador durante a maior parte do tempo, e durou muito mais do que os torcedores gostariam, dada sua incapacidade de fazer a equipe evoluir e fazer coisas diferentes. O time era, portanto, totalmente dependente do talento de Luck, e isso custou caro.
Luck começou a sofrer com lesões em 2016. Após anos sofrendo com pancadas violentas dos adversários, Luck teve de passar por uma séria operação no ombro direito, que estava bem danificado. Grande parte dessas pancadas sofridas foram por conta de uma linha ofensiva que não protegia o principal ativo do time. O sistema de jogo dos Colts foi todod desenhado para dar a Luck a oportunidade de ser um dos grandes QBs da história da liga, mas sua linha ofensiva não compareceu na maior parte de suas temporadas.
Após ficar durante toda a temporada de 2017 fora de combate para se recuperar da lesão, Luck voltou em 2018. Porém, ainda havia dúvidas sobre o estado de seu ombro principal. Rumores durante todo ano de 2017 davam conta de que ele sequer conseguiria voltar a jogar, dada a gravidade da lesão e o que foi necessário para reconstruir o ombro direito.
Porém, ele voltou e fez um grande ano, terminando em 5º lugar em jardas aéreas (4.593), segundo em touchdowns (39) e, mais importante do que tudo isso, o segundo QB com menos sacks na temporada (18). Isso foi sinal de que finalmente Luck teria uma linha ofensiva competente a sua frente. Porém, era tarde demais.
Após levar os Colts à final de divisão, quando perderam para o então melhor time da liga, o Kansas City Chiefs, Luck chegou a voltar aos training camps com os Colts e tudo parecia normal, mas ele havia jogado sua última partida naquela noite de 12 de janeiro em Kansas.
Em 24 de agosto de 2019, aos 29 anos, Luck anunciou sua aposentadoria, dizendo “eu estou preso nesse processo. Eu não tenho conseguido viver a vida que eu queria viver e isso me tirou a alegria deste jogo. O único jeito de seu seguir em frente é me retirando do futebol americano. Esta não é uma decisão fácil. É a mais difícil da minha vida. Mas é a decisão certa para mim”.
Após a saída de Luck, os Colts promoveram Jacoby Brisset ao posto de QB titular, e ele não decepcionou. Os Colts fazem uma campanha 6-5 razoável, mantendo vivas suas esperanças de playoffs, ocupando a segunda posição na divisão, apenas uma vitória abaixo dos Texans.
Porém, ainda que os Colts estejam aceitando bem a presença de Brissett no pocket, os números dele estão longe dos que Andrew Luck costumava ter. Ele é apenas o 25º em jardas aéreas, com 1.926, e tem 15 TDs em sua conta, empatado em 15º com Tom Brady e Derek Carr. O ano é realmente positivo nas interceptações, quesito no qual ele tem apenas 4, empatado com Brees, Minshew e atrás apenas de Cousins, Mahomes e Wilson entre os titulares.
Mas o que será que estaria acontecendo com os Colts se Luck não tivesse se aposentado? É seguro dizer que a partir deste momento, esse texto ganhará contornos totalmente fantasiosos e nada será efetivamente provado, mas vamos tentar nos espelhar em anos anteriores e no que vem acontecendo na realidade para imaginar como estariam os Colts com seu camisa 12 under center.
A linha ofensiva dos Colts segue firme, principalmente com Quenton Nelson, um dos melhores atletas de proteção a aparecer nos últimos anos. Com Nelson na proteção ao lado cego dos QBs, os Colts conseguem garantir muito mais tempo para seu QB fazer as leituras e encontrar um recebedor. Foi assim no ano passado, quando Luck teve números excelentes e ganhou o prêmio de “comeback player of the year” (volta por cima do ano, em tradução livre).
Mas vamos imaginar que Luck estivesse jogando bolas para o alto em 2019. Com uma linha ofensiva tão potente, T.Y. Hilton conseguindo se manter saudável por mais tempo do que o normal e um running back que finalmente está explodindo em Marlon Mack, os Colts com certeza estariam ainda melhores.
Os Colts não têm uma média de pontos muito boa este ano. São apenas 22.2 por jogo. Já em jardas totais, a coisa é ainda pior, com apenas 339,5 por jogo, o que coloca a equipe na 22ª posição neste quesito. Porém, as jardas terrestres é que têm salvado a temporada dos Colts. Além de Mack, os Colts têm tido ajuda de Hynes e Williams para ter a 3ª melhor performance pelo chão em toda a Liga. Isso acaba escondendo o fato de que o ataque aéreo dos Colts é apenas o 29º em toda a liga.
Ainda que os recebedores não sejam espetaculares, exceção feita a Hilton, é notável como Luck conseguiu extrair muito mais dos mesmos recebedores no ano passado.
Hilton, por exemplo, tem apenas 378 jardas em toda a temporada, números minúsculos para um jogador de sua categoria e salário. É verdade que o jogo tem sido muito mais distribuído e menos explosivo em Indiana, mas mesmo assim, os números estão bem abaixo do que era visto por lá.
Mesmo em vitórias como os 19 a 17 contra os Titans, o ataque dos Colts não foi produtivo. Neste jogo, inclusive, Brissett sequer foi o melhor QB em campo, sendo derrotado nas estatísticas por Marcus Mariotta, que nem titular é mais no Tennessee.
Os Colts fizeram mais de 30 pontos em apenas 2 jogos este ano (30 a 23 sobre os Texans e 33 a 13 sobre os Jaguars). A regra têm sido jogos onde a defesa acaba segurando a bronca, já que o ataque não pontua com frequência. A fórmula funcionou em metade dos jogos da temporada, mas não é difícil imaginar que as coisas estariam muito mais tranquilas se os Colts ainda tivessem Andrew Luck na posição de Brissett.
Mas vamos olhar derrota por derrota, já que nas vitórias tudo parece estar bem.
Na estreia da temporada, a derrota contra os Chargers em Los Angeles não teve muito a ver com o desempenho de Brissett. Claro, ele demorou para engrenar no jogo e os Colts tiveram de buscar o resultado no último quarto, mas os dois field goals perdidos por Adam Vinatieri tiveram um peso grande no final. A derrota na prorrogação foi justa e nós não achamos que Luck conseguiria ter feito muito mais, por conta dos dois erros capitais do kicker.
A segunda derrota na temporada foi na semana 4, contra os Raiders. Jogando em casa, os Colts foram vencidos por 31 a 24, e Brissett teve grande responsabilidade neste resultado. Com apenas 2 minutos no relógio e um touchdown atrás no placar, Brissett jogou uma interceptação infantil, em um passe lateral que foi muito mal executado. A interceptação foi retornada para touchdown e o buraco ficou grande demais para o tempo restante.
Essa é uma interceptação que teve tanto erro de execução quanto de leitura de jogada, já que Brissett não observou o safety Eric Harris na cobertura por zona. Luck dificilmente teria cometido este e outros erros na partida e provavelmente teria conseguido vencer este jogo, dando aos Colts uma sequência de 3 vitórias que seria aumentada para 5 nos dois jogos seguintes.
Na semana 9, os Colts jogaram contra os Steelers, e este jogo foi vencido pela defesa dos Steelers. Sem Big Bem, que está fora da temporada, o time de Pittsburgh subiu o nível defensivo e garantiu um 26 a 24 contra os Colts. Nesta partida, Brissett saiu machucado e deu lugar a Bryan Hoyer, que jogou para 168 jardas, um TD e uma INT. É claro que as coisas teriam sido melhores se Luck estivesse em campo, já que o ataque aéreo seria bem mais produtivo, mas é difícil colocar na conta dos QBs uma derrota que passou novamente por um erro de chute de Vinatieri a um minuto do fim.
A quarta derrota doeu. Os Colts jogaram em casa contra os Dolphins e foram vencidos por 16 a 12. E ainda que Brissett estivesse fora e Hoyer tenha jogado como titular em uma performance abismal de 204 jardas, 1 TD e 3 INT, aqui é mais do que óbvio que se Luck estivesse em campo, os Colts teriam vencido facilmente o jogo, por um placar bastante dilatado.
Por fim, a última derrota da equipe, na semana 12 contra os Texans, mostrou que Luck realmente faz falta em clássicos e momentos decisivos. Brissett foi anulado pela equipe de Houston, jogando para apenas 129 jardas, sem TDs ou INTs. A ausência de Marlon Mack também foi sentida, apesar de bons números de Williams e Hynes.
Nesta partida também ficou evidente que Luck teria levado os Colts à vitória, caso estivesse em campo. Provavelmente por um placar de 30 a 20 ou coisa parecida, dado o abismo de qualidade entre ele e os outros QBs do time.
No fim das contas, caso Luck ainda estivesse no time, os Colts não estariam apenas melhores. Estariam muito melhores, com uma campanha 9-2, uma grande vantagem na divisão, uma das melhores campanhas da conferência e uma vaga praticamente assegurada nos playoffs.
Além disso, os Colts teriam as próximas temporadas com boas chances de título, já que a reconstrução do time estaria em estados finais este ano. Com a saída de Luck, pode demorar um tempo até os Colts acharem um QB capaz de levá-los de volta ao Super Bowl.
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