Estar na história de um grande clube é algo raro, mas Zinho conseguiu fazer isso em mais de um. Tem passagens marcantes por Flamengo, seu clube formador, Palmeiras, no qual se tornou ídolo eterno, Grêmio e Cruzeiro. Com quase seis anos de Palmeiras, criou uma relação especial com o clube, a ponto de se considerar também um torcedor que vai apoiar o time de Abel Ferreira no Mundial de Clubes. 

Como jogador, Zinho participou de dois momentos históricos. Estava no fim do jejum de 16 anos sem títulos em 1993 e na conquista da primeira Libertadores, em 1999. Hoje comentarista da ESPN Brasil, Zinho acredita que o Palmeiras pode quebrar mais uma marca histórica: ser campeão mundial. 

Frustração pela derrota no Mundial de 1999

Zinho ficou perto dessa conquista em 1999, como jogador. Aquele time do Palmeiras, comandado por Felipão, fez um grande jogo diante do Manchester United, que havia acabado de conquistar a Tríplice Coroa (títulos da Champions League, do Campeonato Inglês e da Copa da Inglaterra), mas acabou derrotado por 1 a 0. 

“Enfrentamos um time que fez história. Muitos times brasileiros, quando pegaram e conquistaram, fizeram jogo de igual para igual, pegaram grandes times, mas acho que aquele Manchester é especial, é um time que está na história do futebol mundial”, contou Zinho. “O nosso time era muito bom, mas enfrentamos um time que marcou época no futebol mundial, principalmente na Europa, que era o grande centro de quem tem dinheiro para contratar quem quer. Acho que colocamos uma pressão muito forte em nós mesmos”, afirma em conversa exclusiva à equipe de apostas online da Betway.

Zinho considera que a preparação do Palmeiras, que teve tempo de se adaptar ao Japão e ficou um bom tempo em treinamento, acabou criando uma pressão em si mesmo que prejudicou. “Muita gente acreditava que a gente podia ganhar, mas fomos muito tempo antes. Não é uma crítica ao Felipão, pelo contrário, eu também teria feito isso. O Manchester chegou lá faltando dois dias para a competição, a gente ficou muito tempo longe, alguns dos nossos jogadores transformaram isso em uma pressão muito forte. Todo dia falar do Manchester, todo dia mostrar vídeo do Manchester, todo dia dizer que o time deles é imbatível”, disse. 

O excesso de preocupação com o Manchester United acabou deixando os jogadores nervosos com o tamanho do confronto, ainda que, naquela época, não houvesse o abismo técnico que há atualmente, mais de 20 anos depois. 

“Alguns jogadores, não vou falar aqui o nome, mas teve um que estava do meu lado, vendo um desses vídeos, e falou assim quando terminou: ‘Zinho, deu ruim. Não erram um cruzamento, uma cabeçada, uma falta, não perde uma bola’. Depois ficamos sabendo que era um vídeo promocional do Manchester, só tinha lances que eles acertaram. A gente entrou muito tenso no jogo, pensando que não podíamos errar nada”, contou Zinho.

“Tem aquela história que o César Sampaio conta, nas brincadeiras, que o Juninho, lateral, foi no nosso quarto desesperado. ‘O Beckham, pô, ele não erra um cruzamento. Como é que vai ser? O Felipão deu entrevista que tem medo do Beckham, sou eu ali marcando. Eu não marco bem’. São pequenos detalhes de uma decisão que fazem uma diferença grande. O Juninho arrebentou no jogo. Foi um dos melhores ou o melhor do nosso time. O Beckham não fez nada. Ele marcou e jogou”, continuou o ex-meio-campista.

“A nossa preocupação ficou tanto ali com o Juninho, de o Beckham cruzar, porque ele cruzava muito, que arrebentou no outro lado. Quem decidiu foi o [Ryan] Giggs. Ganha na velocidade do Arce, do Junior Baiano, cruza, desvia no primeiro pau, desvia o cruzamento, o Marcão foi antecipar, passa por cima dele, o Roy Keane entra por trás e faz o gol. Foi o que os caras fizeram no jogo”.

“No início do jogo que a gente ficou muito preocupado, mas de repente com mais calma, vimos que não era tudo isso. Começamos a jogar, dominamos o jogo, fizemos o gol. É que o juiz meteu a mão, né? Se tivesse o VAR naquela época o gol seria válido, é nítido que não tem impedimento [no gol de Alex]”, reclamou o ex-jogador do Palmeiras. 

No lance, que aconteceu no segundo tempo, Alex recebe nas costas da defesa, em posição que, no vídeo, parece legal, mas o assistente marcou impedimento e anulou o gol. Apesar de ter jogado bem, o Palmeiras saiu de campo derrotado e perdeu a chance de conquistar o seu primeiro mundial. Ao invés disso, foi o primeiro Mundial de Clubes de um inglês. “Foi uma frustração, porque o nosso time jogou melhor, queria mais”, afirmou Zinho.

Mais de 20 anos depois, mudança de cenário, um abismo entre os times

O time sul-americano encarar em pé de igualdade os europeus ficou em um passado distante. Mais de 20 anos depois, a diferença entre os clubes sul-americanos e os europeus parece cada vez maior. Um clube sul-americano não conquista o Mundial de Clubes desde 2012, quando o Corinthians, rival palmeirense, levou a taça.

“Temos jogadores bons, mas a saída é muito rápida, então se você for comparar nosso melhor time do Brasil contra o melhor time da Europa, há uma diferença grande. A Comunidade Europeia mudou muito isso, porque naquela época só jogavam três estrangeiros em cada time”, analisa o hoje comentarista Zinho. 

“Estava assistindo a um jogo, se não me engano, do Manchester City ou do Chelsea que não tinha nenhum jogador local [nota do editor: o Chelsea entrou em campo com 11 estrangeiros na partida]. Tem times lá que são melhores que muitas seleções, ou a maioria das seleções, se esses times entram na Copa do Mundo, são favoritos para ganhar”.

“Não acho impossível ganhar”

Apesar da diferença ser muito maior em 2022 do que era em 1999, Zinho acredita que é possível os comandados do técnico Abel Ferreira voltarem para o Brasil como campeões e cita outro clube com o qual ele tem ligações e que esteve no Mundial nos últimos anos: o Flamengo.

“Não acho impossível ganhar. O Flamengo jogou contra o Liverpool, que vivia o melhor momento, mas assim mesmo deu jogo. O Chelsea vive um grande momento, está bem, mas na Premier League está 13 pontos atrás do Manchester City (nota do editor: na época da entrevista). Eu acho que tem jogo, que dá jogo”, comentou o ex-jogador. 

“Taticamente, como o Palmeiras é determinado, é aplicado, como o Abel Ferreira é um cara estrategista, se o Chelsea entrar em campo mais ou menos, não estiverem preparados, não estiverem com gana, dá para o Palmeiras. Claro que, para mim, tem que se preocupar primeiro na semifinal que já tem jogo duro”.

Sul-Americanos mais próximos dos mexicanos do que dos europeus

O Mundial nasceu como um duelo intercontinental entre Europa e América do Sul, os dois continentes mais tradicionais do futebol, mas isso mudou em 2000 e depois regularmente a partir de 2005, quando a Fifa assumiu a organização do torneio e passou a colocar times das seis confederações do mundo. 

Sul-Americanos e europeus ainda são os únicos a serem campeões mundiais, sejam em clubes ou em seleções, mas clubes de outros continentes conseguem vencer os sul-americanos e avançam para o duelo com os europeus. Em 2020, o Palmeiras foi eliminado pelo Tigres, campeão da Concacaf, e em 2021 pode ter novamente um confronto contra os mexicanos - dessa vez o Monterrey.

“Eles são os mais perigosos sim. O time mexicano está mais próximo de fazer um jogo mais parelho com os sul-americanos do que nós fazermos com os europeus”, afirmou Zinho. “Tem que se preocupar sim, porque é bom time, o Monterrey tem bons jogadores, tem investimento, tem estrutura, valoriza o Mundial, vai com muita sede para querer chegar na decisão. Então se torna um jogo muito equilibrado, sem dúvida”.

Mais tempo de preparação

Desta vez o Palmeiras não irá para o Mundial dias depois de conquistar a Libertadores, como aconteceu em 2021. Desta vez, a conquista aconteceu em novembro e o Mundial de Clubes começa em fevereiro, com tempo de férias entre as duas competições.

“Estou confiante porque eu acho que há um tempo de preparação e até dos jogadores se desligarem um pouco de uma competição para outra. Você ganha a Libertadores, aquela adrenalina toda, é normal dar uma curva de baixa”, comentou Zinho. 

O ex-jogador acredita que o desempenho ruim do time na última edição, derrotado na semifinal e também na disputa de terceiro lugar, não se repetirá. “Acho que vai ser totalmente diferente agora. O Palmeiras está mais consciente, mais experiente, jogadores estão mais cascudos. Já jogaram um outro Mundial”.

“Abel foi craque”

Abel Ferreira conquistou a sua segunda Libertadores consecutiva, algo raro no futebol sul-americano. Isso não o isenta de críticas que viveu no tempo de Palmeiras – que ainda não completou nem dois anos. Zinho elogiou o treinador, mesmo discordando de algumas decisões. Para o comentarista e ex-jogador, o treinador foi corajoso. 

“Respeito muito a função e principalmente o profissional Abel, ele foi corajoso, jogar o jogo que ele não era considerado favorito. Todo mundo, inclusive eu, achava que o time do Flamengo tinha mais jogadores decisivos, com um jogo mais vistoso”, disse. “O Abel foi craque, né? Ele articulou, viu que o Flamengo tinha problema físico, viu que o Flamengo vinha com os jogadores de contusão, com problemas com muitos jogadores que fisicamente iam sentir...”.

“Ele montou um sistema. Piquerez baixou e fez um terceiro zagueiro ali junto com o Gustavo Gómez e Luan, Mike entrou como um ala pela direita, o Scarpa como ala pela esquerda, trouxe o Danilo ali como primeiro volante, com Zé Rafael, e soltou três jogadores. O Veiga pela esquerda, o Dudu pela direita, quando Dudu normalmente jogava mais pela esquerda. Trouxe o Dudu para direita e o Rony na correria lá na frente. Encaixou, neutralizou e ganhou a final”. 

Torcida pode fazer a diferença

Estar no Mundial de Clubes não é algo fácil para qualquer torcedor sul-americano, porque é preciso fazer longas viagens, que custam caro, e em um momento de recessão econômica. Ainda assim, Zinho acredita que muitos palmeirenses estarão nos Emirados Árabes para apoiar o time e sonhando com a conquista do Mundial.

“Conheço muito a torcida do Palmeiras, quase seis anos no clube, tenho identificação que eu tenho, e sei que é um torcedor apaixonado. Eles vão estar lá esse ano e teve tempo. O duro é quando ganhava e já tinha o jogo marcado, não dá nem tempo de comprar a passagem, se programar. Como o jogo é só em fevereiro, ganhou lá em novembro, já veio se preparando, juntando uma graninha, tentando um pacote mais barato, acho que vai ter um número grande de torcedores palmeirenses”, disse o campeão do mundo pela seleção brasileira em 1994.

“É claro que, no final, prevalece a melhor organização tática, o melhor time técnico, o time melhor preparado fisicamente, não adianta só motivacional, não vai adiantar, você tem que ter um conjunto. Mas se você está bem preparado fisicamente, ajustado taticamente, tentando neutralizar o teu adversário que é melhor e com o apoio do seu torcedor, com aquela massa gritando, isso dá um gás muito grande”, diz. 

“Eu já fui campeão com um time inferior e já perdi título com o meu time muito melhor do que o adversário. Por isso que falei: se o Chelsea chegar lá achando que já ganhou, não valorizando muito a competição, não estudando adversário, corre risco, mas não acho que é o caso do [Thomas] Tuchel, que acabou de ganhar como melhor treinador do mundo. Tem jogo, tem chance, mas o torcedor é parte fundamental”. 

Zinho confia no trabalho que está sendo feito e pede que os torcedores apoiem a equipe. “Todos nós, galera do Palmeiras, vamos acreditar no elenco, acreditar no Abel”, finaliza.