Tido como um dos melhores jogadores de todos os tempos, Falcão marcou época em Roma na década de 1980; entenda como ele se tornou “Rei” na Itália
A partir da década de 1990, a globalização invadiu o futebol: de lá para cá, é cada vez mais comum ver grandes jogadores de fora da Europa brilhando no Velho Continente, principal centro mundial do esporte.
Antes deste período, porém, poucos conseguiram ter a oportunidade de cruzar o Atlântico. Cruzar e ter sucesso era ainda mais difícil. Foi o caso de Paulo Roberto Falcão, que reinou na Itália no início da década de 1980.
A passagem do meia pela Roma, por sinal, abriu um caminho para os brasileiros. Só do país verde e amarelo, há uma lista de jogadores que se tornaram lendas com a camisa de times europeus. Ronaldinho Gaúcho, por exemplo, chegou ao Barcelona em 2003 e simplesmente transformou o clube, que vivia uma de suas piores crises da história.
O talento e a magia do meia-atacante foram capazes de levar os catalães ao título da Liga dos Campeões, de recuperar a saúde financeira da equipe e estruturaram a construção de um dos melhores times do Barça de todos os tempos: o de 2010/2011, comandado por Pep Guardiola e com lendas como Messi, Xavi e Iniesta.
O argentino, claro, ultrapassou o brasileiro na história azul-grená, afinal se trata de um dos maiores atletas de todos os tempos, mas até hoje Ronaldinho é tratado como gênio na Catalunha.
Algo parecido aconteceu com Adriano na Inter de Milão. O atacante revelado pelo Flamengo ganhou notoriedade com a extrema força física e habilidade, que o levaram a virar o Imperador na Itália, também no começo do século XXI.
Atualmente, Casemiro e Marcelo formam uma dupla sólida de brasileiros na Europa. O lateral, há mais de 10 anos no Real Madrid, vê o volante, em sua sexta temporada como titular no clube merengue, acompanhá-lo no caminho de idolatria.
Antes de tudo isso, porém, Paulo Roberto Falcão foi desbravar um futebol que mal aceitava sul-americanos — apesar de toda a força das seleções da América do Sul na história das Copas do Mundo.

Quando embarcou para a capital italiana, a história de Falcão já era brilhante. Capitão e ídolo do Internacional, ele também desfilava um futebol muito fora da curva com a camisa da seleção.
O auge, mesmo, veio na década de 1980. Quem teve o privilégio de assistir, garante que ninguém, no mundo, jogou mais do que Falcão no início dos anos 80. A exemplo da Copa na Espanha, em 1982. Aquele Brasil de Telê Santana, que até hoje é referência ao futebol moderno e ofensivo, não levou o troféu, mas é considerado um dos melhores times da história. Falcão, simplesmente, era o melhor jogador daquela seleção encantadora.
Chegada na Roma foi discreta: Falcão era anônimo
Falcão era três vezes campeão brasileiro com o Internacional quando foi vendido à Roma. Só que não havia informações como hoje, e o meia não era conhecido pelos torcedores italianos. Desta forma, apesar de todo o prestígio no Brasil, ele chegou ao Velho Continente como anônimo.
Demoraram poucos jogos para que Falcão assumisse o meio de campo e mostrasse porque, até hoje, é considerado um dos melhores de todos os tempos. Era raro para o período, mas ele já era um volante que chegava ao ataque e fazia gols. Tudo isso com um futebol elegante, capaz de fazer qualquer time jogar mais bonito.
Quando Falcão virou o “Rei de Roma”?
Extremo talento, lances de efeito e gols plásticos. Tudo isso já fazia de Falcão um grande jogador para a Roma. Mas algo a mais precisa ser feito para que o atleta se torne ‘rei’ em Roma, cidade que construiu um dos maiores impérios da história humana.
Falcão, então, entregou tudo: com o brasileiro como liderança técnica, a equipe da capital voltou a vencer o Campeonato Italiano depois de 41 anos. Foram duas temporadas no “quase” antes do título em 1982/83. Houve invasão no gramado do Estádio Olímpico, as ruas foram tomadas e Falcão caiu nos braços da torcida, que não comemorava a Serie A desde 1942.
O meio-campista conseguiu ainda mais dois títulos da Copa da Itália no período em que permaneceu na Itália, entre 1980 e 1984.
O sucesso esportivo acabou marcando para sempre o jogador na Roma. O clube desenvolveu um busto do brasileiro, colocado em sua sede, e nomeou Falcão, de forma simbólica, como o oitavo “Rei de Roma”. O número foi em alusão ao período da civilização romana, que contou com sete reinados.
“A vaidade gosta do Rei de Roma. Mas vaidade não pode superar inteligência”, disse Falcão em entrevista ao UOL Esporte.
Falcão foi melhor do mundo, só não ganhou troféu
O prêmio máximo para um jogador de futebol, individualmente falando, é ser eleito o melhor do mundo. Nos anos em que brilhou pela Roma, Falcão ganhou os holofotes da Europa: o futebol apresentado era de melhor do mundo.
Só que a premiação naquela época, limitada ao troféu de Bola da Ouro da France Football, era restrita a europeus. Foi somente por isso que o meio-campista não registrou os títulos em 1982 e 1983.
“Muita gente falava sobre isso [ser o melhor do mundo] na época, principalmente quando ganhamos o título italiano, na temporada 1982/83. Mas, na época, não tinha prêmio para os sul-americanos. O principal era a Bola de Ouro, da France Football, mas só para jogadores nascidos na Europa”, afirmou Falcão na entrevista ao UOL.
Ele tem certeza de que venceria o prêmio, caso existisse como hoje, porque havia levado, também, a Bola de Prata [dada ao segundo melhor jogador] da Copa de 1982, mesmo com a seleção parando no meio do caminho.
“Aquela seleção merecia ter vencido a Copa por tudo o que jogou. Tanto que permanece na história até hoje por ter jogado bem. O resultado é importante? É. Mas você tem que jogar bem. Assim, você permanece na história mesmo não ganhando. Por isso, ter sido o segundo melhor da Copa, com dois jogos a menos do que quem ganhou, é legal.”


















