A comissão técnica de Tite comandou a seleção brasileira em duas Copas do Mundo. Em ambas, optou por não levar um psicólogo do esporte. “A cultura dos treinadores brasileiros ainda é refratária às questões psicológicas”. Palavras do Doutor João Ricardo Cozac, Presidente da Associação Paulista de Psicologia do Esporte.

“As categorias de base da seleção têm trabalho psicológico, mas por algum motivo interno na CBF, a principal não tem. O Tite normalmente fala que é por causa de tempo. Talvez ele não conheça o modelo de grandes seleções”, completa o professor com mais de 30 anos de experiência.

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Holanda, França e Inglaterra são exemplos de equipes que têm um departamento de psicologia com vários profissionais e um chefe de departamento, que trabalham junto às seleções principais não apenas na Copa do Mundo, mas durante todo o processo.

Confira a entrevista completa com o Doutor João Ricardo Cozac.

Estudar a psicologia aplicada ao exercício e investigar as causas e os efeitos das ocorrências psíquicas que o ser humano apresenta antes, durante e depois da atividade física são os conceitos básicos da Psicologia do Esporte. No Brasil, tema ainda não abordado com a profundidade que os especialistas gostariam. Doutor João Ricardo conta que fez uma visita ao Ajax e constatou que o clube holandês tem um psicólogo acompanhando todos os jogadores, de todas as idades, em todos os momentos. Ele cita também Emiliano Martinez, goleiro da Argentina, que agradeceu ao psicólogo por ter o ajudado a superar a derrota na estreia do Mundial do Catar contra a Arábia Saudita: “A escola da psicanálise e da psicologia do esporte na Argentina é extremamente ampla”.

Aposte na Copa do Mundo:

Sem um psicólogo, a comissão técnica do Brasil, seleção favorita em todos sites de esporte bet, utilizou outras maneiras de conversas com os atletas. Espalharam frases como “Mentalmente fortes” e “Aproveitem o momento de confiança” no Centro se Treinamento do Brasil no Catar. Na sala de musculação, estavam estampadas palavras como coragem, equilíbrio, força e determinação. Tudo em verde e amarelo. Estratégia que não empolga o especialista: “Isso é a velha guarda do futebol brasileiro. É impessoal. Às vezes o atleta não está em um bom dia, ou está convivendo com uma pressão que precisa de um trabalho diferente de uma simples conversa com o treinador.

Não é a primeira que se discute o tema depois de uma eliminação do Brasil. O assunto foi muito abordado após o fiasco na Copa do Mundo de 2014, quando o time comandado por Luiz Felipe Scolari se desmanchou em campo, foi atropelado pela Alemanha, e diversos jogadores saíram chorando. Naquele mundial, um suposto desequilíbrio emocional já vinha sendo constatado durante a competição, principalmente nas oitavas de final, quando um Brasil aparentemente assustado e nervoso conseguiu bater o Chile nas cobranças de pênalti. Para o Doutor João Ricardo, a pressão só faz crescer a cada fracasso: “O Brasil custa a aprender com os seus acidentes emocionais. Isso vem desde a Copa de 50”.

Para exemplificar como seria o papel de um psicólogo do esporte com a seleção brasileira, pedimos a opinião do Presidente da Associação Paulista de Psicologia Esportiva sobre dois temas. Primeiro, Gabriel Jesus, e a pressão que o próprio atacante falou ter sentido por não ter feito nenhum gol no Mundial de 2018: “Se o psicólogo, ao conversar com o Gabriel Jesus, percebe que essa é uma questão que envolve o que chamamos de emoções paralelas, que acabam desembocando em uma auto cobrança para fazer o gol, e se ele percebe também que tem conexão com outros momentos da vida dele, um enraizamento mais profundo, é fundamental o atleta seja encaminhado para um trabalho especial, mesmo que seja uma psicoterapia breve em oito ou dez sessões”. 

O segundo tema é Neymar. Liderança positiva ou negativa? “Ele não tem uma liderança como capitão de equipe. É uma liderança pelo talento. Sinto que a equipe fica mais segura quando o Neymar está em campo. Se eu fosse o psicólogo esportivo dessa seleção, certamente exploraria muito mais isso, esse talento do Neymar, em relação aos demais jogadores“.

Doutor João Ricardo afirma também que Casemiro tem mais perfil de capitão do que Thiago Silva: “Principalmente no contexto da comunicação, do controle emocional, da segurança e da consistência em campo. O Casemiro tem uma roupagem para capitanear mais desenvolvida que o Thiago Silva”. 

Poderia o destino da seleção brasileira no Catar ter sido outro se um especialista estivesse junto? “A presença de um psicólogo não garante a vitória, mas a ausência desse trabalho pode ser determinante para a derrota”. Resta saber se a CBF e a próxima comissão técnica vão mudar de postura no próximo mundial.