Poucas sensações são mais nostálgicas do que ouvir uma música que fez sucesso antigamente, não é mesmo? O som marca a memória e com um simples play somos transportados para outra época. 

Enquanto a moda volta a olhar para os anos 2000 (tendência que está sendo chamada de Y2K), da virada do século para cá, muita coisa mudou no meio da música. O principal? A forma que a ouvimos. 

Nos anos 2000, as rádios eram a principal forma de ouvir música e ficar por dentro do que era novo – seguido da televisão, com a grandiosa MTV. Por isso, um hit se tornava sucesso pela quantidade de vezes em que ele era reproduzido nesse formato de mídia. E isso ficava registrado no que chamamos de parada de sucessos. “Elas são uma maneira que a indústria norte-americana encontrou para rentabilizar o mercado da música”, explica Felipe Maia, etnomusicólogo e jornalista. Estar na parada significa um selinho de validação para a track, especialmente para os EUA, que sempre foi referência para ditar as tendências da indústria de música pop. E vale ressaltar que o pop é representado por tudo aquilo que se populariza, não apenas os hits de Anitta, Lady Gaga e Elton John. 

Mas, afinal, todo esse papo faz a memória se esforçar para lembrar como era o som dessa época, não é mesmo? A equipe de roleta online da Betway dissecou toda essa história. Foram mais de 100 músicas analisadas. Mapeamos ano a ano, entre 2000 e 2009, selecionamos as dez canções mais reproduzidas em rádios de todo país e, com isso, conseguimos ver no detalhe o que estava em alta, qual o público-alvo e até mesmo a temática e palavras mais ditas. Se liga só!

O brasileiro ouvia muita música nacional (59%) e Ivete Sangalo era a queridinha do país com sete grandes sucessos ao longo dos dez anos. Não é por menos: atire a primeira pedra quem não sabe cantar pelo menos o refrão de Sorte Grande.

Pela cantora mais ouvida, já conseguimos também ter uma ideia do tema central da maioria das músicas: amor, é claro! Mas o término ficou pertinho, viu? Os extremos de um relacionamento deram pano para a manga de muita música nos anos 2000. Além disso, a palavra que foi mais repetida nos hits foi “você” - junto com a sua versão em inglês “you”.

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Como calcular o sucesso de uma track?

Hoje em dia, os streamings são o jeito mais popular de consumir música. São muitas opções no mercado, como Spotify, Deezer, Apple Music, e são os números de play que definem o sucesso de uma canção. “As grandes mudanças que o streaming trouxe é essa ideia de performance musical – você tem 15 segundos ali para manter a atenção do ouvinte”, diz o pesquisador.

Como toda mudança, a forma de acompanhamento também teve que ser repensada. No começo do século, uma música reproduzida 25 mil vezes era fora da curva – afinal, o que estava sendo contabilizado eram as vezes tocadas na rádio. Aqui no Brasil, a única track a alcançar esse marco foi “Velha Infância”, dos Tribalistas, lançada em 2003.

Porém, com o nosso olhar moderno, esse número causa estranhamento – ele parece muito baixo. O motivo é simples: com a facilidade da música on demand na palma da sua mão e ainda com acesso a um acervo de música inimaginável, os números de reprodução de um hit chegam facilmente à casa dos milhões. Imagina se você tivesse um CD para cada artista salvo no seu streaming favorito? Nos anos 2000, essa era a forma mais popular de dar repeat em uma música, sem ser possível de ser contabilizada individualmente e, portanto, as rádios serviam como forma de termômetro para medir resultados.  

Para efeitos de comparação, nos primeiros 6 meses de 2021, “Batom de Cereja”, de Israel e Rodolffo, recebeu 125.510.200 plays só no Spotify. A música se consagrou como a mais ouvida do semestre, sendo reproduzida 5.000% mais vezes do que “Velha Infância”, a mais tocada no ano de 2003.

Para relembrar cada número 1 das paradas nos anos 2000, montamos uma timeline com cada hit – e seu número de reproduções. Desça pro play!

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Como se cria um hit?

Será que existe uma fórmula perfeita para uma música dar certo e ser bem recebida pelo o público? Açúcar, tempero e tudo que há de bom? Provavelmente não. Porém, existe uma junção de fatores que contribui para que haja uma resposta positiva dos ouvintes. 

“Existe toda uma cadeia por trás da criação de uma música, desde alguém que tem o ouvido mais treinado para escolher bons talentos até o head de marketing, que vai decidir como investir o dinheiro diretamente ali na mídia. Bons produtores entendem o que funciona na pista, no carro, em uma festa...”, diz Maia. 

Um exemplo recente é a chegada de Lil Nas X rapidamente às paradas nas últimas semanas, com o seu primeiro álbum. Após um hit que se tornou viral, “Old Town Road”, ele chamou atenção das gravadoras e recebeu um belo investimento para “Montero”, seu disco de estreia. A viralização, unida ao seu lado ativista e uma ótima campanha de marketing pré-lançamento, fez com que o mundo parasse para ouvir a sua obra. O cantor se tornou um dos assuntos mais comentados do Twitter e chegou ao topo em poucos dias. 

Aqui no Brasil, o fenômeno da vez é o sertanejo. O estilo musical está em disparada como o mais ouvido do país - e não é de hoje. Desde 2015, ele se consolida como o principal ritmo consumido por brasileiros. Nos anos 2000, no entanto, ele ainda aparecia tímido, com pouco expoentes como Zezé Di Camargo e Luciano, por exmeplo.

Já em 2020, nas top 50 músicas mais ouvidas no Spotify, 23 eram do ritmo. O sertanejo é uma indústria com uma cadeia de produção bem extensa – que vai por todas as esferas, desde a pequena dupla sertaneja até as grandes gravadoras. É quase uma ideia de start up – lançam muitos produtos, alguns não dão certo e são esquecidos pelo público, mas os que vão para frente, bombam”, conta o etnomusicólogo. 

Outro fator que Felipe aponta para o sucesso do sertanejo é que o som atende às expectativas do público brasileiro. Como, por exemplo, músicas que falam sobre relacionamentos e festas, mas que raramente chegam perto de temas mais profundos e de reflexão. 

O pesquisador reforça, no entanto, que independentemente da cadeia, um dia os ritmos chegam à exaustão. “Há 50 anos, o jazz era considerado música pop, há 40 anos era a vez do rock. Agora o rap é o grande pop do mundo e, no caso do Brasil, é o sertanejo”, explica. 

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A música está em constante movimentação, assim como os mais diferentes tipos de arte. Entender os seus movimentos e padrões é curioso e divertido e, a partir disso, muito dinheiro e esforços são movimentados. 

Tem quem fale que o sertanejo reflete o momento do Brasil, mas eu acredito que a música não é só reflexiva. Ao colocá-la só como espelho, sequestramos o poder da música, que é muito mais que isso. Ela pode vir de lugares que não entendemos”, finaliza Maia. 

Com certeza, é possível fazer recortes sociais, de classe e gênero através dessas pesquisas, mas há um fator que não pode ser ignorado: o sentimento que a música, de qualquer ano, nos transmite.