Entenda a polêmica que cercou o Campeonato Paulista de 1990 e por que, 30 anos depois, ainda se discute se o São Paulo foi rebaixado
Um dos ditados mais repetidos e polêmicos do futebol é que “time grande não cai”. Sem entrar no mérito da procedência da frase acima, a Betway relembra um Campeonato Paulista que parece nunca ter tido fim: o de 1990. Afinal, o São Paulo caiu para a segunda divisão do estadual ou não?
Antes de esmiuçar tudo o que aconteceu no Paulistão de 1990, o que o regulamento da competição e personagens envolvidos na disputa e na cobertura do torneio diziam, vale registrar os clubes brasileiros que nunca foram rebaixados no Campeonato Brasileiro.
Com as quedas recentes de Internacional e Cruzeiro, apenas três times seguem intactos na Série A do futebol nacional: Flamengo, Santos e São Paulo.
O Paulistão de 1990, então, é ainda mais debatido por envolver uma das equipes do trio que sempre esteve na elite brasileira, o Tricolor do Morumbi.
Entenda o regulamento do Paulistão de 1990
A confusão sobre a situação do São Paulo no Campeonato Paulista de 1990 só existe por um motivo: o regulamento da Federação Paulista de Futebol (FPF) era muito confuso e seu presidente, Eduardo José Farah, deixou as coisas ainda piores. Muitos críticos, por sinal, consideram a edição daquele ano como a mais caótica em questão de formato.
Em 1990, foram 24 participantes do Paulistão. A primeira fase foi dividida em dois grupos. No Grupo I, estavam os 12 times que haviam jogado a segunda fase do Paulistão de 1989, ou seja, os que tiveram melhor campanha. A chave tinha: Bragantino, Corinthians, Guarani, Inter de Limeira, Mogi Mirim, Novorizontino, Palmeiras, Portuguesa, Santos, São Paulo, São José e União São João.
No Grupo II, estavam as 10 equipes que tinham sido eliminadas na primeira fase do ano anterior, mais os dois clubes que foram promovidos da Divisão Especial (nome da segunda divisão da época): Ituano e Ponte Preta. Assim, além dos dois que subiram, o bloco era composto por: América, Botafogo, Catanduvense, Ferroviária, Juventus, Noroeste, Santo André, São Bento, XV de Jaú e XV de Piracicaba.
De acordo com o regulamento, os times fariam um turno contra os da outra chave e outro, dentro da própria tabela. Desta forma, os clubes do Grupo I enfrentaram os adversários do Grupo II para depois duelarem entre si, e vice-versa. No fim, passariam para a fase seguinte os três melhores de cada chave, mais as seis outras melhores campanhas, totalizando 12 classificados.
Os outros 12, que não haviam conseguido avançar, participaram de uma repescagem, no qual eram divididos em dois grupos. As equipes jogariam em turno e returno dentro da própria chave, com o primeiro colocado de cada tabela adquirindo vaga na terceira fase. Os outros 10 times sem classificação formariam o Grupo Amarelo do Campeonato Paulista de 1991 (equivalente ao Grupo II de 1990, composto pelos times de pior resultado).
Na repescagem, o Botafogo-SP ficou com a vaga do Grupo I, tirando da disputa São Paulo, Santo André, Inter de Limeira, Noroeste e Ponte Preta; já na segunda chave, o Guarani foi o líder, mandando para o Grupo Amarelo de 1991 São Bento, União São João, São José, Juventus e Catanduvense. Quatro times da Divisão Especial de 1990 (Rio Branco, Olímpia, Marília e Grêmio Sãocarlense) se uniram aos 10 piores para a formação do Grupo Amarelo do ano seguinte.
Desfecho: o São Paulo não caiu
Entendendo o regulamento de 1990, é correto afirmar que o São Paulo não caiu e, assim, nunca foi rebaixado em sua história. O campeonato daquele ano não previa rebaixamento, como revelou o blog do PVC, do GE, que teve acesso à documentação da época.
“De acordo com decisão unânime do Conselho Arbitral da Primeira Divisão de Futebol Profissional, a partir do Campeonato de 1991, a Primeira Divisão será integrada por 28 associações, sendo obrigatoriamente divididas em dois grupos de 14 associações cada, respeitado o acesso de 4 associações da Divisão Especial de Futebol Profissional do Campeonato de 1990”, dizia o regulamento do Paulistão de 1990.
Ou seja, não houve rebaixamento naquela edição e mais: fazendo lobby para garantir uma possível reeleição na FPF, Farah ampliou a divisão principal do futebol paulista de 24 para 28 times. Somente em 1994 a Federação foi diminuir para 16 clubes na elite.
Provas de que o assunto é dado como resolvido pela FPF é o Paulistão de 1991, vencido pelo próprio São Paulo, e um jogo de perguntas e respostas no Instagram. Em sua conta oficial, o Paulistão confirmou, em janeiro de 2021, a veracidade do fato. “Mentira [que o São Paulo caiu]. O Regulamento do Paulista de 1990 não previa rebaixamento para a chamada Divisão Especial.”
O que dizem os personagens daquele Paulistão
Em 2020, quando a polêmica completou 30 anos, o GE conversou com personagens que participaram do Paulistão de 1990. O ex-lateral Zé Teodoro, que esteve em campo naquele torneio e defendeu o Tricolor do Morumbi no começo da década de 1990, negou que houve rebaixamento.
“Nos sete anos em que eu fiquei no São Paulo, em todos os anos eu disputei títulos. Não lembro de descenso, não, não lembro de segunda divisão”, disse Zé Teodoro, que esteve em campo na última partida do time do Morumbi naquele Paulistão, contra o Noroeste.
“Sinceramente, vou continuar batendo na mesma tecla, na minha cabeça o São Paulo sempre foi time de primeira divisão”, destacou o ex-jogador.
Em compensação, o jornalista Fernando Santos, que assinou a famosa reportagem cravando a queda do São Paulo na Folha de S.Paulo, um dia depois do jogo, reafirma que o time caiu. “Coisa ruim ninguém lembra, né? Se fosse título tinha faixa, medalha, troféu. Você dá um google e a primeira coisa que aparece é essa matéria da Folha, mostrando o rebaixamento do São Paulo”, afirmou.


















