O rúgbi do Six Nations tem sido criticado pela falta de emoção, embora as estatísticas dos últimos 10 torneios contem um uma história bem diferente
Entediante. Lento. Impossível de ver.
Estas são apenas algumas das expressões usadas para descrever o rugby internacional – especialmente no hemisfério norte – nos últimos meses.
O sucesso da Inglaterra – que tem odds de XXX para conquistar um segundo título consecutivo do Six Nations nas apostas online de rugby – e seu jogo territorial, com muitos chutes, sob o comando de Eddie Jones, contribui muito para essa percepção.
A vitória na final da Autumn Nations Cup contra uma enfraquecida seleção da França no começo de dezembro, na qual a Inglaterra cobrou oito penalidades e precisou de um try no 80º minuto para forçar a prorrogação, deu início a uma onda de críticas vindas de várias pessoas – inclusive o técnico campeão da Copa do Mundo, Sir Clive Woodward.
Mas será que as críticas são justas? O rugby está mesmo mais entediante do que antes?
Para descobrir, analisamos os últimos dez torneios Six Nations, esmiuçando os números para saber exatamente o quanto o estilo de jogo mudou ao longo do tempo.
O elemento mais óbvio para começar é o placar. O rugby, como a maioria dos esportes, normalmente é mais empolgante quando há mais pontos anotados.
No Six Nations de 2010, um total de 594 pontos foram anotados nas 15 partidas, com uma média de pouco menos de 40 pontos por jogo. Esse número caiu nos dois anos seguintes e foi parar em 534 (e média de 35,6 por jogo) em 2013.
Desde então, entretanto, não houve um único ano em que o torneio tenha deixado de registrar 600 pontos – alcançando 660 em 2015, antes do ápice no ano seguinte, com 693 pontos totais e uma média de mais de 46 pontos por jogo.
A pontuação tem se mantido estável desde então, com o torneio de 2020 sofrendo uma pequena queda e registrando 631.
Um simples aumento na pontuação, porém, não conta toda a história. O que importa de verdade é como esse pontos são anotados.
Fãs querem ver tries em vez de seguidos chutes a gol, e as tendências estatísticas mostram que os fãs não estão saindo decepcionados.
Um total de 48 tries foram anotados no torneio de 2010. Combinados com as conversões certas, eles compuseram apenas 51% do total de pontos anotados (594).
O resto veio em 85 penalidades chutadas em gol – com uma média de 5,5 por jogo – junto com alguns drop gols.
Cinco anos mais tarde, em 2015, o número de tries subiu para 62. Destes, 46 tiveram conversões certas. Esses 402 pontos foram responsáveis por 61% do total do torneio – um aumento de 10%.
No Six Nations mais recente, o número de tries saltou mais uma vez e chegou a 74, enquanto o número de gols de penalidades caiu para 49, ampliando a razão try-para-pênalti para 76:24.
Não apenas há mais pontos sendo anotados como os tries – lances que mais empolgam os espectadores – estão representando uma proporção maior desses pontos.

Portanto, o produto final obviamente está ali, mas um número maior de tries não significa, necessariamente, um jogo mais divertido.
O que acontece no jogo aberto, antes que esses tries sejam anotados, é o que contribui de verdade para o espetáculo de uma partida de rugby empolgante.
A maior crítica ao rugby atual é que o jogo está focado demais em domínio territorial e de bolas paradas, enquanto há pouca iniciativa com a posse de bola.
As estatísticas, porém, mostram um cenário diferente.
Entre 2010 e 2020, o número de chutes iniciados com a mão no Six Nations caiu de 66,8 para 56 – um declínio de quase 20%.
Nos torneios de 2018 e 2019, houve ainda menos chutes iniciados com a mão por partida, com 45,8 e 52,4, respectivamente.
Seguidos chutes podem contribuir para um rugby pouco movimentado, com times esperando que os adversários cometam erros em vez de tomando a iniciativa do jogo.
Com os times chutando menos a bola para longe, eles mantêm mais a posse de bola.
No Six Nations de 2010, houve uma média de apenas 222 passes por partida.
O número de passes vem aumentando gradativamente desde então, com o ápice em 2018, quando houve 354 passes por partida.
Essa estatística caiu um pouco em 2020 – para 282 – mas o padrão é nítido: os times do Six Nations estão mais dispostos a controlar e mover a bola do que estavam dez anos atrás.

Novamente, contudo, é possível argumentar que uma queda no número de chutes e o aumento nos passes não significam um rugby mais empolgante.
O que os times fazem com a bola nas mãos é importante. Os fãs querem ver coragem e risco, não passes despretensiosos.
Quando as equipes jogam com essas qualidades, é possível quebrar defesas e abrir o jogo.
Em 2010, houve uma média de 4,9 quebras de linha por partida no Six Nations, com 10,2 defensores sendo batidos a cada 80 minutos.
O número de quebras de linha caiu até 2013 – um ano em que os chutes dominaram – mas vem subindo desde então.
Houve 8,6 quebras de linha por partida no Six Nations na edição mais recente – o máximo na última década.
O número de defensores batidos segue um padrão semelhante, e o torneio de 2020 viu um aumento de 91% em relação a 2010.

É impossível contar toda a história por meio de estatísticas, mas, no papel, o rugby não ficou entediante.
Na verdade, o estilo de jogo no Six Nations foi mais ousado nas últimas temporadas do que em qualquer momento dos últimos 10 anos.
Não só há mais tries sendo anotados, mas os times também vêm correndo e passando mais, enquanto optam por chutar menos.
Houve, reconhecidamente, alguns jogos nada empolgantes em 2020, mas trata-se da natureza do esporte. Algumas partidas são eletrizantes. Outras, não.
Um par de jogos entediantes não é motivo para questionar a direção do esporte como um todo, especialmente quando consideramos as circunstâncias atenuantes de 2020.
O rugby sempre foi empolgante, e isso não mudou.

















