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Maratona do Rio

11 Jun | BY Betway Insider | MIN READ TIME |
Maratona do Rio

A supremacia dos atletas africanos em maratonas não é novidade. Mas o que faz estes atletas serem tão superiores? Há alguma explicação que vá além do treino? Nós perguntamos aos especialistas, entre profissionais de saúde e da área técnica, como eles explicam tamanha diferença.

Maratonas são provas de altíssima resistência. Diferente de provas explosivas, o atleta precisa saber economizar sua energia sem perder velocidade. E ninguém tem feito isso com maior eficiência nas últimas décadas do que atletas africanos.

Atletas da África vêm mostrando uma aptidão quase natural às maratonas há tanto tempo, que fica claro que há alguma diferença entre corredores de países como Quênia ou Etiópia e corredores de outros continentes. Mas quais são essas diferenças? Será que há algo impossível de se copiar no treinamento destes atletas? Ou será que há um elemento genético que desempenha um papel fundamental neste domínio? Foram perguntas como essas que nos motivaram a buscar respostas com especialistas técnicos e clínicos sobre as diferenças que fazem dos maratonistas africanos, atletas tão dominantes.

Para se ter uma ideia desta superioridade, a maratona do Rio de Janeiro, que ocorrerá no próximo dia 23 de junho, vem sendo totalmente dominada por atletas africanos. No masculino, desde 2000, foram 6 títulos para corredores quenianos e etíopes. Entre as mulheres, não vemos uma campeã não africana desde 2011, quando a norte-coreana Kum Ok Kim venceu a prova. De 2012 para cá, apenas atletas dos dois países acima mencionados sagraram-se campeões. Inclusive, o recorde da prova feminina pertence a Thabita Kibet, do Quênia, que completou a prova de 2012 em 2 horas, 34 minutos e 41 segundos.

Essa dominância não está restrita ao Rio de Janeiro, ou mesmo às provas brasileiras. Quem não se lembra de Paul Tergat, maior vencedor da São Silvestre entre os homens, com 5 conquistas entre 1995 e 2000? Entre as mulheres na São Silvestre, a última campeã não africana foi a brasileira Lucélia Peres, há 13 anos. Em provas importantes pelo mundo, como a maratona de Londres, a situação se repete, com africanos vencendo todas as provas masculinas desde 2003, enquanto as mulheres venceram tudo a partir 2010.

Nós conversamos com grandes profissionais da saúde e da área técnica. As respostas entre todos os entrevistados foram praticamente unânimes ao listar quais são os principais fatores fazem com que corredores de Quênia, Etiópia, Uganda e outros países do chamado “chifre da África” sejam tão superiores.

Um dos fatores é a composição corporal, seja ela apenas genética ou com aprimoramentos. O Dr. Turíbio Leite de Barros, fisiologista referência mundial em recuperação de atletas de alto rendimento comentou este ponto. “O biotipo destes atletas é muito similar. São todos longilíneos, com pernas longas. A passada mais larga faz com que distâncias maiores sejam cobertas com menos esforço”, compartilha o doutor.

Porém, para aguentar os 42km de uma maratona oficial, não dá para depender só de pernas maiores. Ainda para o Dr. Turíbio, “o fato de treinarem desde cedo na vida, cobrindo longas distâncias para qualquer atividade, faz com que eles se adaptem melhor, sendo muito mais econômicos no gasto de energia em relação a corredores de outros lugares”.

A fisioterapeuta Paula Borine observa outro ponto de resistência destes atletas. “Desde pequenos, eles correm e brincam descalços. Isso faz com que o músculo da planta do pé seja muito mais resistente e aguente muito mais impacto por mais tempo”.

Os técnicos também enxergam fatores de resistência nessa dominância. Um dos maiores treinadores de maratonistas africanos no Brasil, Moacir Marconi, o Coquinho, compartilhou sua visão, afirmando que “eles trabalham muito em estrada. Apesar de eles terem pista sintética, eles vão atrás de pista de terra. A dificuldade é muito maior, diminuindo contusões durante as provas e aumentando o resultado”.

Outro fator importante é a altitude. Os treinos destes atletas são realizados a pelo menos 1900m acima do nível do mar. Isso faz com que a aptidão aeróbica e o desenvolvimento de fibras sejam potencializados. O comentarista de atletismo da Rede Bandeirantes, Nelson Evêncio, afirma que “o treinamento na altitude faz com que você tenha um aumento no número de glóbulos vermelhos, aumentando a oxigenação dos músculos”. Em relação às fibras, Nelson comenta “há as fibras vermelhas, de resistência, há as fibras brancas, de velocidade, e as intermediárias. Os maratonistas africanos desenvolvem muito mais fibras vermelhas, de contração lenta, aumentando a resistência”. Coquinho complementa esta informação, afirmando que os atletas daquela região do continente “nascem, crescem e treinam na altitude, então eles não têm nenhuma dificuldade de adaptação”.

Há, ainda, mais um fator importante no treinamento destes atletas. O fundador da Nova Flor Atletismo, Paulo Santos, responsável pelos atuais campeões da Maratona do Rio de Janeiro, Mersimoy Niguse Alem e Zinash Estifo Banetirga, comentou sobre o trabalho em grupo que os corredores africanos realizam. “Lá, os atletas treinam em grupo de 30, 40 ou 50 atletas. E os grupos são compostos por medalhistas olímpicos e principiantes juntos”. Coquinho complementa esta informação, dizendo que “esses grupos se ajudam. Alguém vai passar na frente, vai puxar, não deixam o ritmo cair e fazem um trabalho progressivo fantástico”.

Por fim, um fator que faz com que estes atletas mantenham essa supremacia é um conjunto de mentalidade e da cultura do país. Por serem países pobres financeiramente e com todas as características de treino e de genética mencionadas acima, quenianos, etíopes e corredores de outros países emergentes em maratonas veem na corrida a chance de mudar de vida. Coquinho é um dos principais investidores em corredores quenianos, fazendo viagens regulares ao país. Para ele, “existe a grande superação do africano, inicialmente por necessidade. Como não existe trabalho, eles veem na corrida a chance de ajudar a família, então eles precisam ganhar”. Por conta disso, a corrida se tornou algo cultural nestes países. “Hoje, você chega numa escola no Quênia e tem atletismo todo sábado para todos os alunos da escola. Isso é um trabalho desenvolvido desde muito cedo”.  

A somatória de todos esses fatores faz com que, no mínimo, os atletas africanos tenham alguma vantagem para este tipo de prova, seja por fatores físicos, mentais ou técnicos. Atletas e países de todo o mundo já perceberam isso e se movimentam para tentar acompanhar o ritmo inacreditável que estes atletas conseguem impor nestas provas. Por um lado, há atletas nascidos nas Américas ou na Europa indo morar nestes países, em busca das mesmas condições de treino. E em um movimento contrário, países que têm interesse em serem potencias neste esporte, buscam atletas africanos ainda jovens, com objetivo de naturalizá-los para competições, elevando o nome do país na modalidade. Ou fazendo como Coquinho, que trás atletas quenianos para morarem e treinarem no Brasil, mas ainda representando seu país de origem.

O fato é que, ainda que não seja possível que eles vençam todas as provas do circuito mundial, não vemos como apostar que a hegemonia dos maratonistas africanos esteja próxima de acabar.

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