A Libertadores terá uma final brasileira pela segunda vez seguida. Depois de Palmeiras e Santos, agora serão Palmeiras e Flamengo que disputarão o título da edição 2021. Não é uma coincidência. Os clubes brasileiros se tornaram mais e mais fortes ao longo dos últimos 20 anos, a ponto de terem conquistado 7 dos últimos 11 títulos da Libertadores. Os processos que levaram a isso combinam alguns fatores, como aumento substancial de receitas, aumento de vagas para o país e crises econômicas que afetaram mais os vizinhos do que o Brasil. 

A Libertadores 2021 começou com oito clubes brasileiros, ou seja, 40% da Série A. Destes, sete disputaram a fase de grupos, com um eliminado nas fases preliminares. Seis se classificaram às oitavas de final e cinco avançaram até as quartas de final – ou seja, mais da metade das quartas de final foi com clubes brasileiros. 

Na semifinal, foram três clubes brasileiros e um equatoriano, que ficou pelo caminho. A final será totalmente brasileira pela quarta vez na história, depois de 2005, 2006 e 2020. O cenário atual do futebol sul-americano indica que o domínio dos brasileiros deve continuar por mais algum tempo.

“O domínio brasileiro é mais lógico que futebolístico. Apenas River, o Millonario [apelido do clube], conseguiu fazer cócegas nos últimos anos. Três das últimas quatro Libertadores foram para o Brasil. O período coincide com um grande retrocesso argentino em matéria econômica. Na Argentina, fazemos magia para chegar ao fim do mês, mas não fazemos milagres. E isso se nota”, conta com exclusividade à Betway o jornalista argentino Martin Macchiavello, repórter do diário Olé, de Buenos Aires.

Explosão nas receitas dos clubes brasileiros

O aumento do número de títulos brasileiros especialmente após 2011 tem uma razão simples: os clubes ficaram mais ricos com um novo contrato de TV do Campeonato Brasileiro. Com a implosão do Clube dos 13 naquele ano, os contratos de direitos de transmissão passaram a ser negociados individualmente entre os clubes e a TV. 

A Globo aumentou muito o valor pago pelos direitos e isso se tornou uma escalada a partir de então, com disputas pesadas contra a Record e, mais recentemente, com a Turner, dona do Esporte Interativo, que mais tarde se tornaria TNT Sports. Esta receita, que já era a principal dos clubes, tornou-se muito maior.

Além das receitas de TV, dois outros fatores importantes melhoraram a situação financeira dos clubes brasileiros: receitas com sócios-torcedores e transferências de jogadores, este último ponto especialmente por causa da desvalorização do real em relação ao dólar. A combinação de todos esses fatores fez as receitas dos clubes brasileiros explodirem. 

Diante destes motivos, nossa equipe de apostas esportivas montou uma série de infográficos contando da hegemonia brasileira no campeonato. Confira!

media

Segundo o Levantamento Financeiro dos Clubes Brasileiros 2020, da consultoria Ernst & Young (EY), os clubes brasileiros tiveram um crescimento de 152% na receita total entre 2011 e 2020. Mesmo se descontarmos a inflação, que teve alta no período, o aumento real de receitas é de 86%, algo impressionante em um período tão conturbado economicamente em todo o continente, especialmente nos últimos anos.

“Na análise que realizamos na EY, não observamos correlação direta entre o crescimento econômico do país com o aumento das receitas dos clubes, isso em âmbito global. Podemos observar que toda a Europa foi afetada pela crise econômica de 2008 e ainda assim a receita dos clubes europeus continuou crescendo, afinal o futebol é líder de audiências em quase todo o mundo, move a paixão dos torcedores, o que torna um produto atrativo para o investimento de grandes empresas em patrocínios, tanto para os grupos de mídia quanto para os próprios clubes”, explica Pedro Menezes, Senior Business Consulting da EY, à Betway.

Se somarmos os dados de 2016 a 2020, cinco clubes brasileiros ultrapassaram a marca de R$ 2 bilhões em receitas totais no período. O Flamengo foi o único que passou dos R$ 3 bilhões, com R$ 3,321 bilhões, ainda segundo o relatório da EY. O Palmeiras, o outro finalista da Libertadores 2021, foi o segundo colocado com R$ 2,836 bilhões.

As receitas com direitos de transmissão e premiação por competição representam a maior parte do bolo. Nesse mesmo período de 2016 a 2020, o Flamengo teve R$ 1,255 bilhão desse tipo de receita; R$ 782 bilhões de transferências de jogadores; R$ 531 milhões de matchday (que incluem bilheteria e sócio-torcedor) e R$ 502 milhões em receitas comerciais.

O Palmeiras é o segundo colocado em receitas totais. Separando item a item, há algumas diferenças em relação ao Flamengo: recebeu menos por transferências de jogadores, mas tem uma receita comercial maior. Em direitos de transmissão, arrecadou um total de R$ 938 milhões, o que o torna o segundo colocado no ranking; em transferências de jogadores, o alviverde é o quinto, com R$ 515 milhões, atrás de Flamengo (R$ 782 milhões), São Paulo (R$ 711 milhões), Corinthians (596 milhões) e Grêmio (R$ 576 milhões).

Em receita de matchday, o Palmeiras está muito próximo ao Flamengo, com R$ 507 milhões. É na receita comercial que o clube paulista se destaca. Aqui se computa, entre outros, os acordos de patrocínios diversos. O Palmeiras tem arrecadação total no período de 2016 a 2020 de R$ 603 milhões, à frente dos R$ 502 milhões do Flamengo. Em parte, isso tem a ver com o patrocínio da Crefisa, já que o período engloba os primeiros anos da parceria, quando houve investimentos grandes da patrocinadora no clube.

Apesar da crise econômica pela qual o país passa ao menos desde 2016 e da ainda atual circunstância que abalou gravemente todos os setores, incluindo o futebol, os clubes brasileiros conseguiram manter um patamar bastante alto de arrecadação, o que dá uma vantagem significativa em relação aos concorrentes sul-americanos.

“A fonte de receita que correlaciona mais forte com o crescimento econômico são as receitas comerciais, principalmente devido ao poder de compra da população e redução de investimentos pelos patrocinadores em períodos de crise, tendo saído de R$ 440 milhões em 2011 para R$ 677 milhões em 2020”, afirma Menezes. 

“Um ponto importante e que nos difere de outros mercados, é a venda de atletas. O Brasil como um grande e reconhecido celeiro de atletas, em 2011 faturou R$ 309 milhões e em 2021 R$ 1,6 bilhões, cinco vezes o valor de 10 anos atrás, corroborando com o fato de ser um país formador de atletas”, diz ainda o consultor da EY. Neste caso a desvalorização da moeda acaba tendo um peso importante parta o aumento da receita em reais dos clubes.

Comparação com os rivais sul-americanos

Em novembro de 2019, a Pluri Consultoria elaborou o relatório “Gigantes das Américas”, com a comparação de receitas dos clubes de todas as Américas (Norte, Central e Sul) em 2018. O resultado mostra o tamanho da dominância financeira dos brasileiros na América do Sul. Dos 20 clubes com maiores receitas das Américas, 10 eram brasileiros, cinco mexicanos, quatro argentinos e um americano. 

media

Dos 60 clubes que aparecem no ranking, 19 são brasileiros. Os dois gigantes argentinos conhecidos internacionalmente, Boca Juniors e River Plate, estão apenas em sexto e sétimo lugares no ranking, atrás de Palmeiras, Flamengo, Corinthians e São Paulo, além do Chivas Guadalajara, do México – finalista da Libertadores em 2010, quando os mexicanos ainda participavam do torneio. Aliás, o Tigres, em 29º lugar no ranking, foi outro finalista da Libertadores em 2015, contra o River Plate.

Se olharmos o ranking, há poucos clubes fora de Brasil, Argentina, México e Estados Unidos. O primeiro clube fora desses países que aparece na lista é Colo Colo, do Chile, em 26º. O próximo a aparecer é a Universidad de Chile, em 46º. Depois, vem o Barcelona de Guayaquil, 55º no ranking. Não há clubes da Colômbia, Uruguai, Paraguai, Bolívia ou Venezuela nos 60 mais ricos das Américas. Mesmo se contarmos os argentinos, são apenas sete no ranking de 60.

Para termos algum parâmetro, enquanto o finalista da Libertadores 2021, Flamengo, teve receitas totais de R$ 669 milhões em 2020, ano atípico, o Atlético Nacional, campeão da Libertadores em 2016 e maior receita entre os clubes colombianos, teve apenas 94,6 milhões de pesos colombianos, equivalente a R$ 141 milhões, ou US$ 29,9 milhões em 2019.

Argentina em crise econômica e futebolística

Boca Juniors e River Plate são os dois maiores clubes argentinos e, pelo seu gigantismo, ainda conseguem competir na Libertadores, mas mesmo os dois tiveram o poder de fogo minado nos últimos anos. Em um contexto de crise econômica no país, com a Associação de Futebol Argentino (AFA) passando pela maior crise de poder da sua história, desmandos no futebol local e uma desorganização enorme do Campeonato Argentino, os clubes do país perderam ainda mais força em relação aos brasileiros.

“A Argentina tem problemas econômicos desde que se tornou independente da Espanha em 1816. E nesse tempo, o futebol sequer existia. Quando o país soube se recuperar, desperdiçou suas vantagens. Quando ficou sem dinheiro, pediu emprestado. E o esporte ficou sem pesos, sem dólares, sem nada. E o futebol piorou. Os clubes empobreceram. E as famílias empobreceram. E as famílias se destruíram. Nesse contexto, com um pouco de vento a favor, o Brasil conseguiu uma diferença notável. E isso que nem tudo que reluz é ouro... Problemas há em todos os lugares”, diz Martin Macchiavello.

“As equipes argentinas, hoje, lutam de mãos amarradas. Fazem o que podem. Os elencos mesclam radicalmente experiência e juventude. Só quem promete se aposentar no país se anima a deixar o primeiro mundo e cobrar ‘em pesos argentinos’ durante os últimos meses da carreira. Eles convivem com garotos que querem se mostrar para ter sua oportunidade europeia. Por isso, o River de Marcelo Gallardo, o número um do país, tem Julian Álvarez, 21 anos, e Leo Ponzio, 39”, analisa o jornalista.

Enquanto o Brasil tem o seu Campeonato Brasileiro em um mesmo formato desde 2003, com a adoção dos pontos corridos, e com o aumento constante dos valores de direitos de televisão proporcionados também pela constância do produto que as emissoras sabem que compram, a Argentina vive o contrário. Passou por diferentes modelos e viu o dinheiro de direitos de transmissão ficar instável e inconstante.

A começar pelo Fútbol para Todos, programa de estatização do futebol promovido pela então presidente Cristina Kichner. Em um momento de grave crise financeira dos clubes, a política argentina aproveitou para oferecer uma quantia pelos direitos e tornar o campeonato um produto estatal. O acordo começou em 2009 e envolveu uma polêmica quebra de contrato com a então detentora dos direitos, Televisión Satélite Codificada, que pertencia ao grupo Clarín e à Torneos y Competências. A maioria dos jogos só era transmitida na TV por assinatura, na TyC Sports.

Foi um movimento com duplo ganho para Cristina Kirchner: tirou um produto valioso das mãos do grupo Clarín, crítico a ela, e ainda o aproveitou como ferramenta de promoção política, tornando os jogos de futebol acessíveis na TV aberta, como já não acontecia mais no país. Ela ganhou capital político, ao menos por um tempo, mas o que aconteceu foi que a médio prazo os clubes passaram a receber menos dinheiro, porque não viveram o ambiente de disputa de direitos de transmissão que, por exemplo, o Brasil viveu.

O programa Fútbol para Todos só acabou em 2017, para o início da temporada 2017/18. O grupo Turner, com a TNT Sports, e a Fox Sports dividiram o Campeonato Argentino, com um contrato na época de 3,2 bilhões de pesos por ano (equivalente na época a R$ 650 milhões), em contrato de cinco anos, até 2022. O Campeonato Brasileiro rende algo em torno de R$ 1,2 bilhão, praticamente o dobro, somando o que todos os clubes recebem por ele.

Além da questão financeira, a organizacional jogou contra a liga argentina. Enquanto o Brasileirão ficou estável em formato, os argentinos viveram diversas mudanças no formato da competição. O habitual Apertura e Clausura foi abandonado em 2012, passando a se chamar Inicial e Final, mas sem designar um título: os dois vencedores disputariam uma final para definir o campeão da temporada. Durou pouco: em 2014, os títulos dos turnos voltaram a serem considerados os títulos nacionais e a final passou a ser uma Copa extra.

Em 2015, foi criado um monstrengo: 30 clubes passaram a disputar o torneio, com 10 clubes adicionados de divisões inferiores aos 20 participantes. Em 2017, o Campeonato Argentino passou a ser chamado de Superliga e administrado por uma entidade independente de mesmo nome. Três anos depois, em 2020, a Associação de Futebol Argentino (AFA), decidiu que a organização não cumpriu o seu papel e reassumiu a organização do campeonato. Foi criada a Liga Profesional de Fútbol (LFP), ligada à AFA, que organizaria a Superliga. Na temporada em disputa, em 2021, são 26 clubes, com o rebaixamento de três. 

O Campeonato Argentino era o mais valorizado na América do Sul até a virada do século, mas perdeu força com as muitas mudanças, a pouca confiabilidade e ainda em um cenário de diversas crises econômicas. “O torneio argentino se desvalorizou por duas grandes razões. Se recebem um dólar dos direitos de TV, os dirigentes gastam dois. Ou três. Assim, o dinheiro nunca é suficiente”, conta Martin.

“Por outro lado, o interesse também caiu pela grande quantidade de equipes que disputam o campeonato, número que aumentou nos últimos 10 anos por razões de conveniência política. Como vender os direitos internacionais para ver Patronato x Unión? Ou, por acaso, na América do Sul, gostamos de um Empoli x Venezia, ou um Levante x Granada? Se somos exigentes consumindo futebol, nos países onde está o dinheiro também”, analisa o jornalista.

Saída de mexicanos e mais vagas para brasileiros e argentinos

Os clubes brasileiros já eram fortes e vencedores quando os mexicanos saíram da Libertadores, a partir da edição 2017, mas esse domínio aumentou. Como vimos, os mexicanos são os que mais se aproximam dos brasileiros em termos de receitas e eram clubes que constantemente chegavam às fases mais adiantadas da competição desde que passaram a integrar o torneio, em 1998.

Com a mudança do calendário da Conmebol e a Libertadores sendo disputada por todo o ano, os mexicanos decidiram não mais participar por uma questão de conflito de calendário. Sem eles, a Conmebol perdeu não só clubes fortes, de alto poder de investimento, mas também o interesse da imprensa e do público mexicano, um mercado enorme e importante.

Para compensar, a entidade aumentou o número de vagas de clubes brasileiros e argentinos. O torneio foi expandido de 38 para 47 clubes e o Brasil passou a ter 7 vagas, enquanto a Argentina aumentou o número de participantes para seis, formato que permanece até hoje. 

Além disso, algumas regras fazem com que os brasileiros possam ter até nove participantes na Libertadores, porque o atual campeão tem vaga garantida e o campeão da Sul-Americana também vai à Libertadores. Como todos os finalistas são brasileiros, teremos 9 brasileiros na Libertadores 2022. Quase metade da tabela da primeira divisão brasileira disputará o principal torneio do continente ao mesmo tempo.

Como os brasileiros são mais ricos em média que a maioria dos clubes dos outros países, é mais provável que consigam ir mais longe na disputa, transformando a Libertadores, e eventualmente até a Sul-Americana, em uma Copa do Brasil.

Em 2006, diante de duas finais consecutivas de times brasileiros – São Paulo x Athletico Paranaense em 2005 e São Paulo x Internacional em 2006 -, a Conmebol mudou as regras do jogo e passou a forçar confrontos nacionais antes da final, como acontecia no torneio até 1999, quando os clubes de mesmo país que se classificassem precisavam se enfrentar já no primeiro mata-mata. Desta vez, será que a Conmebol está preocupada com o domínio brasileiro?

“Pelo contrário. Entendo que a Conmebol, se puder organizar um torneio internacional, Libertadores, Sul-Americana ou até uma virtual Copa ‘Cidade maravilhosa – cheia de encantos mil’ com 1600 equipes, ela o faria: 799 brasileiros, 799 argentinos, duas vagas para dividir”, afirma Macchiavello, do Olé. “A Conmebol gosta tanto de ganância como eu gosto do meu açaí e cerveja na praia”.

Nem sempre foi assim, com tantas vagas para um país só. No início da história da Libertadores, apenas os campeões nacionais disputavam o torneio. Foi assim de 1960 a 1965, com campeões dos países sul-americanos e mais o campeão da Libertadores do ano anterior. Esta era a única possibilidade de um confronto entre dois clubes do mesmo país. 

Foi o que aconteceu em 1963, quando houve a primeira semifinal entre clubes brasileiros. O Santos, então campeão da Libertadores, enfrentou o Botafogo, que ficou com a vaga na Libertadores porque o campeão nacional era o próprio Santos. Naquela época, com ainda poucos participantes – eram nove clubes, de oito federações -, o campeão entrava já na fase semifinal. O Santos venceu o Botafogo e se consagraria bicampeão do torneio contra o Boca Juniors na final.

A primeira grande mudança pela qual a Libertadores passou em termos de formato veio em 1966. A Conmebol passou a incluir não só o campeão, mas o vice-campeão de cada no torneio. Ironicamente, foi o Brasil que não gostou e argumentou que a Libertadores deveria ser reservada apenas aos campeões. Em protesto, não enviou representantes. A Colômbia, também em desavenças com a Conmebol, foi outra a não mandar representantes. O protesto brasileiro só durou uma edição. Em 1967, o Cruzeiro, campeão da Taça Brasil, e o Santos, vice-campeão, voltaram à competição. O formato com dois clubes por país é o mais longevo na história da Libertadores: durou de 1966 até 1999. 

Foi quando houve uma mudança grande na forma do torneio, que aumentou significativamente a quantidade de participantes. Em 2000, a Conmebol aumentou o torneio para 32 clubes – no ano anterior foram 21 – e o campeão deixou de entrar nas oitavas de final, passando a disputar a competição desde a fase de grupos. Foi aí que nasceu o que passamos a chamar de G4: Brasil e Argentina passaram a ter quatro vagas, não mais duas. Uruguai, Colômbia, Chile, Equador, Paraguai e Peru tinham três vagas, com Venezuela e México com duas.

Se pensarmos que historicamente o Brasil já era forte, o aumento da presença brasileira só potencializou isso. Desde 1992, quando o São Paulo conquistou o título e mudou a relação do Brasil com a Libertadores – inclusive pelos altos índices de audiência conquistados na época pela Rede OM com Galvão Bueno, o que levou a Globo a comprar o torneio a partir de então – sempre houve um clube brasileiro na semifinal, exceto pelo ano de 2014. Se contarmos desde o começo, só em 11 edições, das 62 disputadas, não houve semifinalista brasileiro. Nunca houve uma semifinal de Libertadores sem clubes brasileiros ou argentinos.

Com mais clubes brasileiros, ter ao menos dois deles na semifinal deixou de ser algo raro. Desde 2000, 11 vezes, em um total de 21, o Brasil teve ao menos dois times nesta fase, a começar desde a primeira edição, em 2000, quando Corinthians e Palmeiras fizeram um duelo histórico. Nos últimos quatro anos, o Brasil chegou com ao menos dois clubes na semifinal da competição. Em 2021, chegou com três. De 1960 a 2000, com dois clubes por país, o Brasil conquistou 11 títulos em 40 edições. De 2000, com a mudança de formato, até 2021, são 10 títulos em 22 edições. 

O aumento do número de vagas, combinado com a força do país e o enriquecimento dos clubes, ajudou os brasileiros a se tornarem uma potência continental, que se aproxima rapidamente da Argentina em número de títulos: os argentinos têm 25, enquanto os brasileiros têm 21. Com o ritmo de conquistas do Brasil, é provável que em breve o país passe a liderar o número de títulos total da Libertadores. 

O formato com quatro vagas para o Brasil durou até 2017, quando a Conmebol resolveu aumentar o número de clubes e de vagas para brasileiros e argentinos, especialmente. Depois de uma consultoria dizer que quanto mais clubes brasileiros, melhor para o valor do torneio, a entidade não teve dúvidas em fazer com que mais brasileiros disputassem a principal competição do continente. Com o maior mercado consumidor da América do Sul fortemente envolvido, mais patrocinadores e mais emissoras estavam dispostas a pagar pela competição.

No aspecto de premiação, a Conmebol de fato conseguiu aumentar o bolo de dinheiro dividido aos clubes. Isso tem mais a ver com o escândalo do Fifagate, que derrubou diversos dirigentes, inclusive da Conmebol, e ajudou a abrir a caixa preta da Libertadores. Antes, a Conmebol sequer revelava o valor que os direitos de TV eram vendidos, e nem como. Com a queda dos dirigentes, alguns deles na cadeia e revelando o esquema, as coisas mudaram. 

Com processos de licitação pelos direitos sendo mais transparentes e abertos, o dinheiro aumentou. A premiação total aos clubes pela edição 2021 será de US$ 300 milhões, o que significa um valor altíssimo com a moeda brasileira (e dos países sul-americanos, no geral) muito desvalorizada. Só o campeão leva US$ 15 milhões.

Apesar dessa melhora, o aumento de vagas para brasileiros e argentinos tem significado que os dois países passaram a dominar ainda mais o torneio. Isso já era uma constante no formato antigo, com dois clubes por país, mas se ampliou ainda mais. Desde a mudança de formato, em 2000, apenas quatro vezes o campeão não foi de Brasil ou Argentina: Olimpia em 2002; Once Caldas em 2004; LDU em 2008; e Atlético Nacional em 2016. 

“Talvez eu seja um maldito romântico, mas me encantavam esses torneios sul-americanos onde só jogavam os campeões de cada país (e com sorte os vice-campeões) e não um monte de equipes que perdem duas partidas e desaparecem do mapa... O futebol da Libertadores foi generoso com o Lanús, Nacional do Paraguai, São Caetano, Sporting Cristal e tantos outros, mas alguém renunciaria a uma vaga do Brasil para entregá-la a Sport Huancayo só para equilibrar as forças?”, opina Martin Macchiavello.

Perspectivas futuras

Diante do cenário que vivemos, é improvável que haja uma mudança significativa na relação de forças. Com mais poder financeiro, é mais provável que vejamos os clubes brasileiros dominando as competições sul-americanas. Para Pedro Menezes, da EY, o fator financeiro não é crucial, mas é de fato importante nesse sentido.

“O Brasil é a maior economia da América do Sul, com um campeonato competitivo e com clubes que se reestruturaram nos últimos anos, como Flamengo, Palmeiras e Grêmio, Athletico, Fortaleza, Bahia, Ceará e mais recentemente o Red Bull Bragantino. E ao olharmos para os principais rivais, Boca e River, a Argentina vem passando por diversas crises econômicas e políticas e o futebol faz parte destas crises. Neste ano estamos vendo as duas finais dos campeonatos sul-americanos sendo disputadas por brasileiros, sendo que ano passado também tivemos final brasileira na Libertadores, o que corrobora que o domínio não é apenas financeiro, mas também de performance”, afirma Menezes. 

media

“Flamengo e Palmeiras são grandes exemplos, ano após ano disputando a Libertadores, tendo um ganhado em 2019, outro em 2020, e agora ambos disputando a final. Extrapolando para outros países, conseguimos observar que quem tem mais dinheiro e melhor infraestrutura, constantemente disputa títulos, como PSG, City e Chelsea. Quando Real Madrid e Barcelona eram os mais ricos, o movimento se repetia. Porém, recentemente, vimos diversos clubes com receitas bem inferiores à maioria dos clubes brasileiros performando muito melhor que clubes brasileiros, como o Barcelona de Guayaquil, o Independiente del Valle e Atlético Nacional, que possuem projetos esportivos robustos, além de Grêmio e Athletico, já citados aqui”, analisa o consultor.

“Nos torneios da Conmebol, por muito tempo, não vejo outros campeões que não sejam brasileiros ou argentinos”, acrescenta Martin Macchiavello sobre a possibilidade do domínio brasileiro continuar. “Talvez, a cada 10 títulos, sete ou oito sejam brasileiros, dois ou três argentinos. Os últimos bons momentos das equipes equatorianas, Independiente del Valle, Barcelona de Guayaquil, por exemplo, acredito que são exceções a uma regra histórica”.

Os clubes de outros países sul-americanos precisarão trabalhar em dobro para conseguir os mesmos resultados. Vemos isso acontecer algumas vezes, como com os citados Independiente del Valle e o Barcelona de Guayaquil. É possível também que mercados como a Argentina melhorem de status com uma organização melhor, já que a AFA faz o Brasileirão parecer a Premier League em comparação. Mesmo que tudo passe a ser feito com mais competência, há limitações.

“O mercado brasileiro é muito maior que todos os outros da América do Sul. Possuímos mais de 200 milhões de consumidores, enquanto Uruguai e Argentina têm 3,47 e 45,38 milhões, respectivamente. Estes países, em um movimento estrutural e sistêmico, podem voltar como nos velhos tempos de glória e conquistar títulos internacionais, mas é bem improvável que consigam superar financeiramente os brasileiros, principalmente devido ao tamanho do mercado consumidor brasileiro”, afirma Menezes.

É provável que vejamos mais vezes o cenário de muitos clubes brasileiros nas fases decisivas da Libertadores. Com a força financeira, organizacional e comercial que o Brasil tem no continente sul-americano, os clubes do país podem não ganhar todo ano, mas a probabilidade de estarem em peso nas quartas e na semifinal é grande, o que por si aumenta muito a chance de um campeão. Exceção, talvez, ao que Boca e River podem fazer na América do Sul, clubes de outros países tendem a sofrer para conseguir um brilho eventual, que precisa da combinação de um excelente trabalho com alguma dose de sorte, como foi o Barcelona de Guayaquil em 2021.