A história dos times ingleses em mundiais (tanto da “era moderna, reconhecidos pela Fifa, quando da “era Copa Toyota) tem muitas provas de que eles não levam a competição muito a sério. A decisão de 1981, tão comentada nos últimos dias pela possível reedição do confronto entre Liverpool e Flamengo, é um grande exemplo. Hoje já não é segredo para ninguém que os Reds chegaram completamente despreparados para a partida. Alguns jogadores até já admitiram ter bebido na viagem de 24 horas para o Japão, e nenhum deles fazia a menor ideia de quem iam enfrentar.

Já em 1999, o Manchester United foi muito criticado por abandonar a Copa da Inglaterra para disputar o mundial. Atitude até hoje lembrada pela imprensa inglesa. Mesmo assim, não entrou com força máxima contra o Palmeiras. E não foi preciso. Com falha de São Marcos, venceu por 1 a 0 e tornou-se o primeiro time inglês a conquistar o torneio. Aliás, primeiro e único: Os Red Devils ganharam de novo, em 2008, contra a LDU do Equador. Só que, se você perguntar para os torcedores em volta do lendário Old Trafford, poucos vão se lembrar. Poucos sabem que o time de coração é bicampeão mundial!

 

Mas por que os ingleses tratam tão mal um torneio que, pelo menos teoricamente, envolve os melhores times de todos os continentes? Simples. Eles não têm identificação nenhuma com a competição. Não seguem o futebol sul-americano, muito menos asiático, ou africano. Até as apostas esportivas online, outra tradição na Inglaterra, estão mais movimentadas com os garotos enfrentando o Aston Villa do que com os marmanjos jogando contra o vencedor de Monterrey-MEX versus Al Saad, o time da casa. Os brasileiros falam em “soberba”. Mas, façamos o exercício: se não existisse um clube europeu no torneio, os sul-americanos dariam tanto peso para essa taça? Claro que não. No fundo, só vale porque ganhá-la significa bater um time poderoso, que todos os apaixonados por futebol sabem a escalação, acompanham na Champions League, na Premier League, ou na La Liga. Já para os ingleses, vencer um time inferior, com jogadores que eles sequer conhecem, não significa muita coisa.

 Perguntados sobre o Flamengo, torcedores do Liverpool só sabem responder que é um grande time do Brasil. Não pergunte sobre conquistas, de que cidade é, ou de grandes ídolos que passaram pelo clube.

Pra piorar, o mundial acontece na época mais movimentada do calendário do futebol inglês. Dezembro chega com uma partida atrás da outra. O Boxing Day, rodada completa no dia 26, é das tradições mais aguardadas no ano. Tudo que tiver de ser encaixado no meio, atrapalha. E ainda tem a última rodada de Champions League e a Copa da Liga Inglesa. O repórter Liam Twomey, do The Athletic, definiu bem: “É quase um inconveniente para os times ingleses”. E realmente é esse o sentimento: o Liverpool e seus torcedores preferiam permanecer em casa, lutando pela tão sonhada Premier League. Ir para o Catar jogar contra times que eles nem conhecem, é sim um inconveniente para eles. E ainda tem o desgaste dos jogadores, o risco de lesões.

Aliás, o Liverpool foi obrigado a dividir o elenco. Um time cheio de moleques vai disputar as quartas de final da Copa da Liga Inglesa (campeonato menos importante do futebol inglês). No dia seguinte, os principais jogadores entram em campo pela semifinal do Mundial. E tem torcedor até hoje reclamando: o elenco mais forte deveria cuidar da Copa da Liga Inglesa, não do torneio do Catar! 

E assim, mais um clube inglês entra em um Mundial. Favorito, como sempre. Mas, daqui pouco tempo, quase ninguém na terra da rainha vai lembrar se esse favoritismo foi confirmado no Catar.