Quem foi adolescente nos anos 2000, viveu junto com Summer e Seth, de The OC: Um Estranho no Paraíso, a inconstância de um amor cheio de idas e vindas, mas muito shippado pelos fãs. O mesmo aconteceu com quem vibrou por 6 temporadas com Chuck e Blair, o casal polêmico de Gossip Girl, que sempre deixava o público atento, esperando pela próxima reconciliação - ou pela próxima briga. 

O público mais velho também tinha seus casais favoritos, como Carrie e Mr. Big, que recentemente tiveram o seu desfecho no especial da And Just Like That, disponível no streaming da HBO Max. Eles também ganharam o público ao longo das 6 temporadas e filmes posteriores de Sex in the City com uma história de amor marcada por muitos altos e baixos. 

Summer e Seth (The OC), Chuck e Blair (Gossip Girl), Carrie e Mr. Big (Sex in the City), Rachel e Ross (F.R.I.E.N.D.S) e Hank e Karen (Californication) foram os 5 casais de seriados escolhidos pelo time de roleta online da Betway para fazer uma análise sobre a representação desse efeito ioiô nos relacionamentos, muito comum nas histórias que a gente consome, mas também nas que a gente vive. Alerta! Esse conteúdo contém spoilers.

Para entender melhor: o que é o efeito ioiô?

“Ioiô é no sentido de sobe e desce, vai e volta, termina e reconcilia. É quando entra numa espiral de términos e retornos que a gente nunca sabe quando que o casal está de fato junto ou não”, explica o psicólogo e pedagogo Matheus Vieira (CRP 08/11358), especialista em terapia de casais. Já parou para refletir se você tem ou teve um casal de amigos que ninguém nunca sabia dizer se estavam oficialmente juntos, porque sempre estavam entre idas e vindas? Ou será que você é ou já foi protagonista de um casal com essa característica? 

Nos seriados, alguns términos e reconciliações são abordados de forma leve e divertida, como no episódio 20 da primeira temporada de The OC, A Telenovela, que começa com Seth rompendo com Summer por ela não querer assumir o relacionamento em público e acaba com os dois aos beijos na frente de toda a escola - o tão marcante anúncio do relacionamento, que os fãs tanto esperavam! Mas na vida real, as idas e vindas podem ser muito mais longas, complicadas e dolorosas.

A maioria dos casais que passam pelo consultório do especialista em terapia conjugal Matheus Vieira indicam que os desentendimentos normalmente giram em torno da quebra de expectativas. “Lidar com essas diferenças do que eu esperava que a pessoa que está comigo fosse e o que ela é, é o grande desafio. Quando a pessoa consegue lidar com a gente do jeito que a gente é, fica melhor ou mais fácil”, diz o psicólogo.

A confeiteira Tiffany Macedo*, de 25 anos, conta que o seu primeiro relacionamento tinha como característica o efeito ioiô e isso acabou colaborando para um cenário que a levou à depressão. “Parando pra pensar, eu acredito que sempre tenha sido assim. Toda vez que eu brigava, eu ficava brava e ia embora. Não falava com ele, a gente ficava sem falar, mas toda vez que nos víamos, voltávamos”, conta. 

Tudo girava mesmo em torno da quebra de expectativas. “Eu ficava muito brava porque ele não me respondia, não me atendia, ficava só no mundinho dele. Quando estávamos juntos, tudo bem. Mas de longe, a gente não falava. Eu ficava chateada e já chegava nele falando um monte de coisa. Foi assim durante 4 anos”.

Os ioiô nos romances das séries

As brigas são comuns nos casais, mas a partir do momento em que se tornam uma rotina, desgasta e não tem como se tirar um efeito positivo disso, afirma o especialista Matheus. Segundo sua experiência profissional, quanto maior o número de idas e vindas, vários sentimentos negativos se instauram, passando por ansiedade e desesperança. Imagine, então, viver de verdade um relacionamento como o de Summer (Rachel Bilson) e Seth (Adam Brody), que ganhou o topo do nosso ranking com 20 términos e reconciliações em apenas 4 temporadas? Veja o nosso levantamento:

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Depois de ver essa análise, podemos considerar: será que nossos casais preferidos das séries não mereciam viver amores mais tranquilos? É claro que algumas brigas precisavam acontecer para que tivéssemos cenas históricas, como o clássico “beijo homem-aranha”  entre Summer e Seth. Mas vemos pela história de personagens como Carrie, de Sex in the City, e Karen, de Californication, quanta frustração e sofrimento essa instabilidade dos relacionamentos trouxe para as personagens. 

Entre Blair (Leighton Marissa Meester) e Chuck (Ed Westwick), os términos eram democráticos: 50% oficializados por Blair, 50% por Chuck. No caso de Carrie (Sarah Jessica Parker) e Mr. Big (Chris Noth), por mais surpreendente que pareça, Carrie é quem termina com Big na maioria das vezes: são 3 separações contabilizadas, 2 feitas por iniciativa dela. Mas para Tiffany, que viveu um relacionamento ioiô na vida real, estar à frente do término não é, necessariamente, um benefício: “era sempre eu quem terminava, mas mesmo sendo assim, eu ficava muito mal”, conta.

Karen e Hank são um casal caracterizado pelas idas e vindas - o ioiô é basicamente o fio condutor do romance dos dois durante todas as temporadas de Californication. Eles, que já começam a série divorciados, reatam pela primeira vez logo no season finale da primeira temporada, em uma cena icônica que marcou a memória dos fãs - quando Karen (Natascha McElhone) foge do casamento que havia preparado com Bill (Damian Young) e pula no carro de Hank (David Duchovny) ainda vestida de noiva e, junto com Becca (Madeleine Martin), eles vão embora, como uma família feliz, reunida novamente. Mas a reconciliação é muito rápida e dá início a uma história cheia de desentendimentos - infelizmente, o casal fica oficialmente junto em apenas 3% dos episódios totais da série.

Os sentimentos que vêm com esse ciclo vicioso

O efeito ioiô se instaura porque, se não há tempo para reflexão e aprendizado real, toda vez que volta, o casal que se reconcilia é o mesmo que terminou. “É como voltar da pausa de um filme”, esclarece o psicólogo. “Todo término gera tristeza, saudade, luto. Muitas pessoas não dão conta, acham que é saudade, que é amor, e voltam. Mas quando voltam, voltam pro mesmo casal que acabou antes. Não existe aprendizado, mudança. Por mais que alguns digam ‘vou mudar’, por mais que tenham promessas”. 

Ainda na sua primeira experiência amorosa, Tiffany viveu isso na pele. A quebra de expectativas, a falta de mudança e as vagas promessas fizeram com que o relacionamento engatasse em um vai e vem que durou 4 anos. “Eu queria que ele falasse que ia mudar, e ele falava, mas não mudava. Eu ficava muito mal, porque eu amava, eu sabia que ele me amava, mas que o jeito dele não ia dar certo com o meu”, relembra. “Só acabou de vez quando os dois pararam de se ver e se bloquearam nas redes sociais. Nunca mais nos vimos”.

No caso dos casais das 5 séries analisadas, para fazer jus aos finais felizes das histórias de amor roteirizadas, todos acabaram juntos e, esperamos, felizes para sempre. Mas estudando o vai e vem dos ioiôs, a gente vê que, mesmo assim, teve casal que deixou os fãs com o coração apertado de saudade durante o desenrolar das temporadas.

Ao longo das 10 temporadas de F.R.I.E.N.D.S, com mais de 20 episódios cada, Ross (David Schwimmer) e Rachel (Jennifer Aniston) não deram muitos momentos oficiais de alegria para os fãs e estiveram declaradamente juntos em apenas 2% dos episódios totais - aqui não contamos a experiência, digamos, inusitada que eles tiveram em Las Vegas, mas incluímos um dos términos mais polêmicos do mundo dos seriados, do episódio 15 da terceira temporada: Aquele em que Ross e Rachel Dão Um Tempo. Confira:

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Para sair do ciclo vicioso de um relacionamento ioiô, é importante se perguntar o porquê de tantas idas e vindas. O psicólogo Matheus indica que o primeiro passo é os parceiros se questionarem o que se ganha com esse ciclo, e porque insistem na relação. “Por que querem ser infelizes? Porque quando ficam presos numa rotina de término e volta, estão garantindo infelicidade, frustração e ansiedade. Se quisessem ser felizes, algo seria diferente: ou a relação, ou eles próprios, e é preciso entender isso”.

No caso dos personagens das séries, pode ser que eles tenham passado por inúmeras mudanças e amadurecimentos durante os episódios e diferentes trajetórias das temporadas, por isso, presumimos que os casais terminaram juntos prontos para iniciar novos ciclos. Isso também é possível na vida real: “o casal pode voltar e ser feliz depois do término, vejo isso todos os dias. Mas ele volta e dá certo quando o casal amadurece. A pessoa que é muito ciumenta, por exemplo, faz as pazes com esse sentimento de insegurança e quando retorna, retorna em uma nova configuração. Ou seja, aquela relação que terminou, quando ocorre essa reconciliação, já não é a mesma”.

Maratonar os 20 términos e reconciliações de Summer e Seth não te influenciará a viver um relacionamento igual, mas faz com que isso deixe de ser estranho. Psicologicamente, faz com que seja normal termos histórias de Summer e Seths, Chuck e Blairs, Hank e Karens nas nossas vidas e nos nossos ciclos de amigos. “A vida imita a arte. Ela não estimula, mas a legitima, mostra que existe uma normalidade nesse comportamento”, aponta Matheus. 

Não é um problema que isso seja representado, mas neste Dia dos Namorados, vale refletir: assim como nossos personagens preferidos, será que não merecemos viver amores tranquilos e saudáveis? É importante que algo mude para que se interrompa o vai e vem dos ioiôs nos relacionamentos da vida real, mas, nas séries, eles talvez deixariam de existir só quando - e se - isso não for mais uma característica dos relacionamentos reais. 

*Nome fictício para proteger a identidade da personagem.