É possível que você já tenha lido ou pensado sobre diversos avanços tecnológicos que poderão salvar a humanidade algum dia. Mas muito provavelmente você não pensou que ele fosse um tomate, certo? Pois é, um dos alimentos mais banais da nossa alimentação tem chance de ganhar destaque e fazer história.

No caso, o tomate de que estamos falando tem como base a fruta que conhecemos, mas na verdade ele é um parente distante. Mais precisamente, uma antiga espécie que crescia no deserto do Atacama, no Chile. Você não está lendo errado: a partir de um tomate de hoje foi possível, por meio de edição genética, reproduzir um tipo muito mais antigo do alimento que, por sua vez, tem muito mais nutrientes e é mais resistente. Se você não entendeu direito, confira abaixo tudo sobre esse projeto e a importância do feito:

Tomate editado: o que é e por que?

Conforme o tempo passa, alimentos, assim como animais, sofrem mudanças genéticas importantes. Elas acontecem por causa de inúmeros fatores e um deles é a adaptação. Por exemplo: o tomate antigo era muito mais resistente, capaz de suportar secas e também excesso de sal. Conforme ele foi cultivado em ambientes em que essa robustez não era necessária, ele foi naturalmente ficando mais delicado e sensível. Durante essa evolução, nutrientes também foram perdidos e alguns benefícios do alimento deixaram de existir.

Exatamente por essas questões, uma equipe de cientistas brasileiros começou a estudar a edição genética dos tomates. Quem está à frente do projeto é o professor Lázaro Eustáquio Pereira Peres, especialista em fisiologia vegetal na Escola Superior de Agricultura Luiz de Queiroz da Universidade de São Paulo (Esalq-USP), que estuda variantes da fruta e suas evoluções há 20 anos. Seu objetivo é melhorar os alimentos que temos hoje e como resultado ele e seu time conseguiram, de certa forma, voltar no tempo.

Por meio de edição genética, foi possível produzir o tomate cientificamente conhecido como Solanum lycopersicum, considerado uma aprimoração da fruta como conhecemos. Segundo o estudo, ele já é um exemplo de como será o tomate do futuro: pequeno, mas muito mais resistente ao sal e à seca, o que significa que ele dispensa a necessidade de agrotóxicos para se desenvolver. Também, e talvez mais importante, é o fato que ele possui cinco vezes mais licopeno, substância carotenóide responsável pela sua cor avermelhada e uma das características mais importantes do tomate.

O licopeno, no caso, é um antioxidante que ajuda o organismo a impedir e reparar danos às células por radicais livres, que podem contribuir para o surgimento de diversas doenças, desde cardiovasculares até mesmo alguns tipos de câncer.

Como funciona a edição genética

O projeto conduzido por Peres tornou possível, por meio da edição Crispr, voltar no tempo para uma espécie de tomate que não existe mais. Para entender como isso foi possível é interessante saber que há formas diferentes de edição genética, sendo que cada uma consegue resultados diferentes. Atualmente, são três as principais, elas são: 

  • Cruzamento: o gene de uma espécie é passado para outra, sendo possível cruzar plantas compatíveis e, assim, selecionar mutações que por sua vez ocorriam naturalmente.
  • Transgenia: as mutações são induzidas com manipulação externa do gene. De forma resumida, um gene de uma bactéria é manipulado em laboratório e a bactéria é usada para passar na planta.
  • Crispr: a sequência genética que já faz parte da planta é recortada e colada internamente. Para entender, com esse processo é possível gerar um gene novo, mas que é parte da mesma espécie dela. 

Como já mencionado, no estudo em questão a edição utilizada foi a Crispr. Dessa forma, criando genes que já faziam parte daquela espécie, Peres desenvolveu os tomates  que deram origem à versão que conhecemos. Dando um exemplo hipotético é como se, ao fazer essas alterações no DNA de uma pessoa, fosse possível chegar ao DNA do bisavô dela. 

No caso, para chegar aos antepassados desse tomate, foram necessárias décadas de estudo, exatamente porque as mudanças no DNA ocorreram ao longo de milhares de anos, o que dificulta o mapeamento de cada uma. Já em relação ao processo, foi preciso que os pesquisadores fossem bem precisos, escolhendo exatamente onde cortar e alterar.

Vale frisar que a técnica Crispr age muito mais numa relação de subtração de genes do que adição deles. Dessa forma, é como se ela intensificasse mutações que já ocorrem normalmente na natureza, mas sem precisar de substâncias químicas ou radiação.

Esse tomate é comestível mesmo?

Talvez você esteja se perguntando: com todas essas edições genéticas não há perigo de comer esse tomate? Segundo Peres, não. O pesquisador defende que a manipulação genética não é algo feito somente em uma edição de DNA, mas em qualquer processo que interfere no desenvolvimento da fruta. Por exemplo, a técnica de arar a terra pode ser considerada uma manipulação, já que ajuda na seleção de melhores sementes.

Outro fator importante a ser levado em consideração é o fato de que programas de reprodução são muito comuns na agricultura, nos quais radiação e química são usadas com frequência. Em contraponto, a edição genética teria a capacidade de fazer essas alterações de forma mais eficiente sem envolver produtos nocivos no processo.

Afinal, como ele poderá salvar a humanidade?

Como já mencionado, reproduzir tomates que já estavam extintos por meio da edição genética é uma realidade. No caso, algumas dessas espécies antigas eram muito mais resistentes e podem ser consideradas uma resposta à escassez de água e de comida. Ou seja, torna-se possível usar água do mar para regar essas frutas, permitindo uma economia de água doce e uma produção muito maior de alimentos, que, por sua vez, ainda são mais nutritivos do que os atuais! 

Você comeria esse tomate? E será que ele realmente vai salvar a humanidade? Essa é a maior questão. Mas, enquanto ele ainda não chega ao mercado para você fazer as suas apostas, divirta-se com oque já é real.  Acesse o nosso caça-níquel online!