Qual é a melhor arte marcial entre todas? A ideia de colocar campeões de artes marciais distintas para lutar entre si está na origem do UFC, a mais popular liga do que hoje chamamos de Artes Marciais Mistas, ou MMA (Mixed Martial Arts, da sigla em inglês). Se antes víamos características específicas em cada especialista, passamos a ver lutadores que precisam cada vez mais incorporar repertório de diferentes artes marciais para terem sucesso em um esporte cada vez mais exigente.

No começo, os vários estilos diferentes tentavam mostrar que eram os mais eficientes contra as mais diferentes especialidades. Era uma disputa pura: uma arte marcial contra a outra, em um combate praticamente sem regras – no Brasil, chamado de Vale Tudo e está na raiz do MMA. “Eu comecei em uma época do vale tudo, que não tinha glamour, não tinha remuneração financeira, você lutava pela tua própria honra e defender a bandeira do Jiu-jitsu no meu caso. Como os caras do Muay Thai defendiam a própria bandeira, da luta livre”, conta Cristiano Marcello, e ex-lutador do UFC e do Pride e líder da academia CM System, que forma lutadores para as principais categorias de MMA.

“O que mudou mais nesse tempo todo é que antigamente os atletas tinham uma base em uma modalidade. Eles vinham de uma arte marcial, eram especialistas em alguma arte marcial, e aprendiam as outras para complementar o seu jogo de MMA. Hoje, os atletas mais modernos, mais jovens, eles iniciam já no MMA, se especializam em modalidade nenhuma”, conta Marcelo Brigadeiro, um nome conhecido no cenário nacional e líder da Astra Fight Team, que tem atletas no UFC, Bellator e outras ligas de destaque do esporte. Por aqui na Betway, casa de apostas, montamos uma série de infográficos para dissecar as lutas mais comuns, os golpes e lesões e a história do MMA. Confira!

media

Academias como a que formou Jon Jones, a Jackson Wink MMA Academy, já trazem o MMA como base. Tanto que o criador da academia, Gregory Jackson, fundou a sua própria arte marcial, Gaidojustsu, que combina técnicas de Wrestling e kickboxe. Uma tendência em academias pelo mundo todo. 

“Cada vez mais vemos uma molecada mais completa, porém, menos especialista em qualquer coisa que seja. Antigamente, tinha aquele lutador que era nota 10 no chão e aprendia o suficiente para se virar na trocação e no Wrestling, ou um que era um striker nota 10 e aprendia o suficiente para se virar no chão. Hoje em dia, todo mundo é nota seis em tudo. Um ou outro que consegue se destacar e se tornar excelente em alguma área”, explica Marcelo Brigadeiro.

Seria possível um lutador especialista apenas em uma arte marcial, mesmo que ao nível de excelência, ter sucesso no MMA? “Não, não mais”, responde Cristiano Marcello. “Hoje em dia você tem que ter no mínimo conhecimento de todas as artes para saber o que está vindo do outro lado, o que o teu adversário está te oferecendo para antecipar. Por mais que você não seja de excelência em determinada área, precisa ter entendimento. Não acredito que com o domínio de apenas uma arte marcial hoje você consiga. Até porque o adversário vai te estudar, você pode se dar bem em uma, duas, até conhecerem teu jogo, mas se você não for mutável, não tem vida longa”.

“Vai depender muito do nível nas outras áreas. Ele pode ser especialista uma e mediano em outras. Se for completamente cego em outras coisas, fica difícil ter sucesso. Ainda que ele seja excelente em alguma coisa, sendo cego nas outras... Difícil”, analisa Marcelo Brigadeiro. 

media

Finalizações e nocautes cada vez mais difíceis

Até a unificação das regras, em 2009, a maioria das lutas acabava por finalização ou nocaute. Dali em diante, a maior parte das lutas passou a acabar com decisão dos árbitros. Para quem aposta, esta é a opção mais segura: 52,19% de todas lutas registradas pelo UFC em 2019 acabaram assim. 

Para vencer, é cada vez mais necessário um nível de precisão maior. Os dados de alguns dos principais lutadores do UFC demonstram o quanto isso é fundamental em um duelo de estilos como é o MMA atual. Anderson Silva tem 60% de índice de precisão nos seus golpes. Jon Jones tem número parecido, 58%. Embora com estilos bem distintos – e categorias diferentes, com o brasileiro no peso médio e o americano no meio-pesado -, os dois conseguem encaixar muitos golpes nos adversários e isso, claro, é um ponto fundamental de suas lutas.

Lutadores e lutadoras vencedores possuem índices de acerto acima de 50%, como Kamaru Usman (53%), Amanda Nunes (51%), Valentina Shevchenko (51%), o que mostra o quanto este quesito é importante para conseguir acumular vitórias. Além de atacar, é preciso também saber defender. Jon Jones é o maior exemplo disso. Seus dados no UFC mostram que ele consegue defender 95% das tentativas de derrubá-lo. Ou seja: lutar no chão contra Jones é algo muito complicado de conseguir, porque ele se defende muito bem. Além disso, ele defende 65% dos golpes significativos tentados contra ele. Por isso, apostar em uma finalização que derrota Jon Jones tem cotações altíssimas nas casas de apostas: justamente porque nunca aconteceu. Em compensação, suas vitórias são sempre muito cotadas e, por isso, pagam menos.

media

Saber onde golpear é também um ponto importante. A cabeça é a parte do corpo mais visada nos golpes do UFC. É onde pode gerar mais nocautes e mais submissões: 8 em cada 10 imobilizações são com chaves de pescoço. Alguns lutadores focam quase exclusivamente na cabeça, como Khabib Nurmagomedov, um wrestler, que dá 87% dos seus golpes na cabeça dos adversários. 

O brasileiro Edson Barboza, faixa preta em Muay Thai, Taekwondo e Jiu-jitsu, é um dos poucos com menos de 50% dos golpes na cabeça: só 43%, com 29% no corpo e 28% nas pernas. Está bem acompanhado nesse quesito. Jon Jones é outro que equilibra mais seus golpes: 47% na cabeça, 25% no corpo e 29% nas pernas. Com tantas especialidades diferentes, esses lutadores conseguem variar os seus golpes e ter um bom aproveitamento, porque é difícil defender de um repertório mais amplo.

Embora a cabeça seja a mais atingida, a maior parte das lesões acontece nos braços, segundo estudo feito pelo médico Joseph L. Torres, do Florida Sports & Family Health Center, em 2018. O pescoço (17,6%) e a cabeça (14,2%) vêm sem seguida. A chave de braço e a chave de pescoço, dois golpes muito comuns, são os maiores responsáveis pelas lesões, segundo o estudo. Os traumas na cabeça aparecem em seguida, pelos golpes frequentes ali.

media

Especialistas ainda têm vez no MMA?

Com a necessidade de aprender tantas modalidades diferentes, e com a formação dos lutadores já focar em um jogo mais completo, ainda é necessário ser especialista em uma arte marcial para lutar MMA? “Com certeza é importante, seja a arte que for. Se você tiver como excelência, é melhor até para o entendimento das outras artes”, afirma Cristiano Marcello.

“Um lutador que tenha um nível razoável em outras áreas, sendo especialista na sua, se dá muito bem. Vemos o Demian [Maia]. Ele é fenomenal na parte de chão e sabe o suficiente de wrestling e trocação para levar a luta para onde ele quer. O [Fabricio] Werdum é a mesma coisa e tantos outros. Estou dando exemplo de brasileiros, se você for lá para fora, verá isso também. Kamaru Usman tem um jogo de chão muito limitação, uma trocação muito limitada, mas tem um Wrestling de excelência. Então, ele consegue fazer a coisa acontecer e se tornou campeão. São diversos exemplos que temos nesse sentido”, analisa Marcelo Brigadeiro.

“É importantíssimo o atleta ter a sua base mais forte, ser especialista em uma área. Porque na hora que tudo dá errado, ele tem que se garantir em alguma coisa. Hoje, tem muita luta que está acabando por decisão. Justamente porque são poucos os atletas que têm a excelência em uma modalidade. Então, acredito que é primordial que o atleta atinja a excelência em uma modalidade”.

media

Jon Jones, que se tornou um dos maiores de todos os tempos, tem formação sólida em Wrestling, pela qual ele lutou na universidade, inclusive com uma bolsa de estudos esportiva. Serviu como base do seu jogo e já chegou ao MMA como especialista. Além disso, tem faixa roxa em Jiu-jitsu Brasileiro. Com isso, são ao menos duas artes marciais nas quais o americano tem bons conhecimentos, além do Gaidojutsu, do qual também é faixa preta ede o principal exemplo da sua academia. 

Outro dos campeões treinados pela Jackson Wink Academy, Georges St. Pierre, também tem faixa preta no Gaidojutsu, mas não para por aí: é faixa preta também em Kyokushin Karate, em Jiu-jitsu brasileiro e em Shidokan. O domínio de outras artes marciais foi importante na carreira do canadense, de 39 anos, atualmente aposentado. Anderson Silva, um dos mais bem-sucedidos do UFC, é faixa preta de Muay Thai, Jiu-jitsu e Taekwondo, além de faixa amarela de Capoeira. 

Os primeiros campeões do UFC eram os melhores das suas artes marciais para competir pelo título de melhor lutador, mas sabiam pouco ou nada das demais. Os atuais campeões podem não ser os campeões de suas artes marciais específicas, mas são especialistas. A diferença é que, ainda que estejam entre os melhores da sua especialidade, conseguem lutar em alto nível em outras modalidades e exigem que seus adversários façam o mesmo — ou são forçados a se submeterem a quem faz.