A Colômbia estava próxima de se classificar para a Copa do Mundo de 2014. E tinha um bom time. Comandado por José Pekerman, contava com nomes importantes do futebol europeu, como Jackson Martínez, James Rodríguez e Falcao García. Em solo brasileiro, mais próximo de casa, com presença de sua torcida, mais acostumado com as condições climáticas, poderia fazer uma grande campanha, mas, antes, precisava assegurar que não aconteceria a mesma coisa da outra vez em que chegou ao Mundial em alta. Alguns torcedores até fizeram um vídeo lançando uma campanha para combater a maldição de Edson Arantes do Nascimento.

Edson Arantes do Nascimento, como vocês sabem, é Pelé. Pelé teve muito sucesso jogando futebol e teve menos sucesso analisando futebol. Suas previsões se tornaram folclóricas porque sempre estavam erradas. Ele próprio reconheceu, em uma entrevista à Folha de S. Paulo em 2005: “Todas as vezes que me perguntaram e eu aponto o favorito ele nunca vence. E têm exemplos até drásticos. Em 1950, o Brasil era o maior favorito e perdeu para o Uruguai. Depois, tivemos a Holanda em 74 e 78. Na última Copa, falava que o Brasil estava mal e que Argentina e França eram as favoritas, mas elas nem passaram da primeira fase, e o Brasil ganhou”. Com muitos dedos, Pelé apontou a seleção brasileira de Carlos Alberto Parreira, do famoso quadrado mágico formado por Ronaldinho Gaúcho, Kaká, Adriano e Ronaldo Fenômeno, como a favorita para a Copa de 2006. Eles não passaram das quartas de final.

O caso da Colômbia foi um clássico. Nas Eliminatórias para o torneio de 1994, liderou o seu grupo, à frente de Argentina, Paraguai e Peru, com direito a uma goleada por 5 a 0 no Monumental de Núñez em Buenos Aires. Tinha nomes fortes, como Faustino Asprilla, Freddy Rincón e Carlos Valderrama. Título era forçar um pouco a barra, mas não seria absurdo avaliar que tinha potencial para fazer uma boa campanha nos Estados Unidos. Pois não fez, lanterna do seu grupo e eliminada após perder as duas primeiras rodadas. Pelé caiu em uma armadilha comum: usar o desempenho nas Eliminatórias como régua para o que pode acontecer na Copa do Mundo.

Analisar futebol não é tão simples quanto parece. Existe a teoria e a prática. Na teoria, você pode olhar para os jogadores à disposição, para a qualidade do treinador, tradição e histórico. Como a seleção brasileira de 2006, citada por Pelé. Talvez o melhor time teórico de todos os tempos porque tinha quatro estrelas para formar seu ataque, laterais lendários e ótimos jogadores em todas as posições. Mas, na prática, nunca existiu. A primeira vez que Ronaldinho, Kaká, Adriano e Ronaldo atuaram juntos foi em 12 de outubro de 2005, na última rodada das Eliminatórias Sul-Americanas, contra a Venezuela. Houve mais dois amistosos contra adversários fracos antes da estreia no Mundial. O desempenho na Alemanha foi sofrível, tanto que Parreira desmontou a formação para as quartas de final contra a França, quando Zidane comandou a eliminação brasileira.

A prática é importante para observar o encaixe dos jogadores, como eles se adaptam às táticas do treinador, se há equilíbrio entre defesa e ataque. No futebol internacional, as Eliminatórias oferecem a melhor amostragem porque são jogos que valem um sonho – jogar a Copa – e são organizadas com fórmulas iguais ou parecidas com regularidade. É o ambiente onde os times do mesmo continente medem forças, onde é possível avaliar o desempenho além da grife. E por isso, precisa ser um elemento da análise, mas não pode ser o único.

Hoje em dia, apenas nas Eliminatórias Sul-Americanas e da Concacaf todas as principais seleções jogam entre si. Outros continentes se separam em grupos, o que significa que os adversários são diferentes. Uma equipe pode ter um aproveitamento fabuloso em uma chave mais fraca que outras em que os favoritos se classificaram com dificuldade, mas enfrentaram desafios difíceis – o que pode até servir como uma preparação melhor. As Eliminatórias também são torneios que duram meses ou anos e não terminam em cima da Copa do Mundo. Entre o fim da campanha e o começo do Mundial, muita coisa pode acontecer.

O caso 2002

 A Copa do Mundo foi se expandindo e, com ela, a importância das Eliminatórias. O primeiro torneio, em 1930, foi formado por meio de convites. Nas duas edições seguintes, o classificatório sul-americano seria feito com um único confronto, mas nem isso foi necessário porque Peru e Argentina abandonaram, e o Brasil ficou com a vaga. O Mundial parou por causa da Segunda Guerra e retornou em 1950, sediado em solo brasileiro. A Seleção estava garantida como país-sede. A primeira vez em que teve que realmente se classificar foi para 1954, e o fez com quatro vitórias em quatro partidas.

Em uma época em que o campeão automaticamente ganhava a chance de defender o seu título, o Brasil também não teve que se classificar para 1962 e 1966. A primeira campanha marcante nas Eliminatórias foi para a Copa do Mundo de 1970, no México. E sob um comando improvável. João Saldanha era comunicador, colunista e comentarista, e havia tido apenas uma experiência breve como treinador do Botafogo. Era também membro registrado do Partido Comunista e inimigo declarado do regime militar. Foi uma escolha surpreendente, avaliada como uma maneira de neutralizar um adversário, passar parcela da responsabilidade à imprensa, que criticava ferozmente o desempenho da seleção brasileira desde o fracasso na Inglaterra em 1966, ou se aproveitar da popularidade de Saldanha. O que quer que tenha sido, em campo, deu certo.

Assim que assumiu a seleção brasileira, Saldanha disse que convocaria apenas feras e soltou a escalação titular antes do primeiro treinamento. Como autoconfiança só é arrogância no fracasso, ele ganhou moral com uma campanha perfeita nas Eliminatórias, com 100% de aproveitamento nas seis rodadas, recorde que apenas o Brasil atual bateria (ao ganhar as nove primeiras partidas), 23 gols marcados e apenas dois sofridos. Apesar desses resultados, Saldanha, entre a aparência que barraria Pelé e desavenças com o regime, foi demitido antes da Copa do Mundo, e foi Zagallo quem trouxe a Jules Rimet do México.

Observando o infográfico preparado pela nossa equipe de apostas online, os outros títulos mundiais da seleção brasileira não vieram após campanhas impressionantes nas Eliminatórias.

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Entre 1978 e 1990, o Brasil teve campanhas competentes nas Eliminatórias e não foi campeão nenhuma vez. Eram formatos menores e sem confrontos diretos com a Argentina. Dada a superioridade do maior país sul-americano em relação a seus vizinhos, era difícil que fosse diferente. O melhor e o pior aproveitamento que a Seleção teve nesse período – 100% em 1982 e 75% em 1986 – terminaram com resultados similares no Mundial: na fase equivalente às quartas de final. Nos anos noventa, o negócio começa a ficar um pouco mais interessante.

Nas Eliminatórias para 1994, o Brasil poderia ficar fora da Copa do Mundo pela primeira vez em sua história, apesar de um aproveitamento que, no vácuo, parece muito bom (75%). Mas era um formato maior que os anteriores e menor que os posteriores, com apenas oito jogos. O risco não era enorme, precisava apenas de um empate contra o Uruguai, mas era um risco mesmo assim. Por via das dúvidas, Carlos Alberto Parreira teve que engolir o orgulho e voltar a chamar Romário. Não que o tenha feito em público. “Romário não vem para salvar a pátria. O Brasil não está em uma situação desesperadora dentro das eliminatórias. A seleção está acima de tudo. Futebol é momento, e Romário está em uma fase excepcional. Ele sabe fazer gols e é isso que interessa”, afirmou o treinador justificando a convocação do Baixinho para o jogo decisivo no Maracanã em 19 de setembro de 1993.

Romário havia sido colocado na geladeira pela comissão técnica liderada por Parreira e Zagallo após um caso de indisciplina em Porto Alegre, onde o Brasil enfrentou a Alemanha. Depois da Copa do Mundo de 1990, Paulo Roberto Falcão conduziu um processo radical de renovação, focado nos jogadores em atividade no país, que deixou Romário de lado. Ele acabara de voltar a ser convocado e esperava ser titular. Preterido por Careca, foi aos microfones reclamar. Não pegou bem. Ele ficou fora das convocações seguintes, inclusive da Copa América, mas à medida em que começou a desfilar com a camisa do Barcelona, e o desempenho da seleção estava longe do ideal, surgiu o clamor para que voltasse a ser chamado.

No Maracanã, Romário deu caneta, chapéu, acertou o travessão e marcou duas vezes na vitória por 2 a 0, o jogo que o consagraria como mais do que apenas um ótimo jogador da seleção brasileira. Depois, nos Estados Unidos, ganharia status definitivo de lenda liderando a campanha do tetracampeonato.

As Eliminatórias Sul-Americanas se transformaram em um grupo único por pontos corridos e jogos de ida e volta para a Copa de 1998. O Brasil não precisou participar da edição inicial porque havia se classificado como atual campeão. Estreou no torneio que selecionaria as seleções para a Coreia do Sul e o Japão. E dessa vez o risco de ficar fora foi muito, muito real. O ciclo após a traumática derrota para a França foi conturbado. Vanderlei Luxemburgo foi demitido pelo fracasso na Olimpíada em Sydney, Candinho comandou uma partida como interino e o comando de Emerson Leão foi breve. Luiz Felipe Scolari teria a missão de evitar o inimaginável, mas seu começo também foi ruim.

Com Luxemburgo, o Brasil havia feito uma campanha oscilante, com quatro vitórias, dois empates e duas derrotas. Candinho fechara o primeiro turno goleando a Venezuela. Leão ganhou da Colômbia, perdeu para o Equador e apenas empatou com o Peru. Felipão estreou com derrota para o Uruguai, no começo de julho de 2001, e, para melhorar o clima, foi eliminado por Honduras da Copa América três semanas depois. O jeito era voltar as atenções às Eliminatórias. Conseguiu ganhar do Paraguai, mas na 15ª rodada foi derrotado pela Argentina e corria o risco de ter que disputar a repescagem. Faltavam três rodadas.

No começo de outubro, gols de Edilson e Rivaldo construíram o 2 a 0 sobre o Chile, e o Uruguai ficou no 1 a 1 com a Colômbia em Montevidéu. O Brasil poderia respirar um pouquinho. Mas respirar é difícil na altitude de La Paz, onde a Bolívia fez 3 a 1 sobre a seleção brasileira e, com outro empate, o Uruguai encostou, a apenas um ponto da quarta posição. Para a rodada final, o Brasil precisava de qualquer maneira ganhar da Venezuela para não ter que depender da Argentina, classificada com muita folga, que visitaria o Uruguai. A pressão era grande. O palco escolhido foi São Luís, no Maranhão, cujo governo estadual ganhou permissão especial para ligar os refletores do estádio Castelão durante a partida, proibido naquele momento de racionamento de energia elétrica no Brasil. A ideia era buscar uma torcida mais simpática à Seleção, em contraste a São Paulo e Rio de Janeiro, com arquibancadas mais críticas. Brilhante como sempre, a CBF restringiu o acesso do público aos jogadores na chegada ao aeroporto, e muitos torcedores ensaiaram uma vaia antes mesmo do jogo começar, alguns gritando “Venezuela”. “Os jogadores podem estar preparados para tudo. Amanhã (data do jogo) provavelmente será pior”, alertou Felipão.

Deu tudo certo. Para começar, o Uruguai apenas empatou com a Argentina, e o Brasil teria se classificado mesmo se perdesse. Conseguiu até superar o Paraguai e ficar em terceiro lugar porque ganhou facilmente da Venezuela, com dois gols do atacante Luizão, novidade de Felipão, e outro de Rivaldo, ainda no primeiro tempo. A manchete do caderno de esportes da Folha de S. Paulo era emblemática: “UFA!”. “Após 18 jogos, 6 derrotas, 3 técnicos e quase 2 anos, seleção se classifica à Copa-2002 na partida final das Eliminatórias”, dizia o jornal. Scolari não quis falar com a imprensa depois da partida. Deu apenas uma entrevista ao La Repubblica, da Itália, em que confirmou que não convocaria Romário (“Não sou o único que teve problemas com Romário”) e projetou que a seleção brasileira chegaria às semifinais da Copa do Mundo de 2002. Estava errado.

A grande ironia é que aquele Brasil, reforçado por Ronaldo Fenômeno, recuperado de graves lesões no joelho, iria até a decisão e seria campeão contra a Alemanha, que no mesmo dia do jogo decisivo contra a Venezuela também correu o risco de não disputar a Copa do Mundo. Havia ficado em segundo lugar no seu grupo das Eliminatórias Europeias, atrás da Inglaterra no saldo de gols e sob condições dramáticas. A Alemanha recebeu a Finlândia em Gelsenkirchen na última rodada e não saiu do 0 a 0, mas a Inglaterra perdia para a Grécia por 2 a 1 em Old Trafford, combinação de resultados que colocaria os alemães no Mundial. Aos 48 minutos do segundo tempo, no fim dos acréscimos, David Beckham teve uma falta para cobrar, a cerca de dez passos da grande área. “Eu cheguei na televisão quando David Beckham estava prestes a cobrar a falta e olhei na hora quantos minutos faltavam”, contou o meia alemão Sebastian Deisler. “Eu percebi que deveria ser a última chance e quando a bola entrou foi um sentimento tão horrível que eu não consigo encontrar palavras para descrevê-lo”.

A Alemanha caiu para repescagem, contra um bom time da Ucrânia, liderado por Andriy Shevchenko, que conseguiu empatar por 1 a 1 em Kiev. Bastaria o 0 a 0 em Dortmund, mas os alemães resolveram logo a parada, abrindo 3 a 0 em 15 minutos. Acabaram goleando por 4 a 1. Mas, se a final do primeiro Mundial em solo asiático foi disputada por duas equipes que chegaram desacreditadas, o que aconteceu com as favoritas? Essa é uma boa história também.  

Em 15 de maio de 2002, no estádio Hampden Park, em Glasgow, Roberto Carlos correu atrás de um lançamento na ponta esquerda e conseguiu apenas tacar a bola para cima, na direção da entrada da área. Não seria uma assistência para qualquer ser humano, mas Zinedine Zidane não era qualquer ser humano. Arrumou o corpo, calculou direitinho a trajetória e emendou um chute de primeira com a perna esquerda que acertou o ângulo do goleiro Hans-Jörg Butt e selou o título da Champions League para o Real Madrid contra o Bayer Leverkusen. Foi um momento sublime do maior craque do futebol mundial naquele momento que, com a companhia de Henry, Trezeguet, Vieira e outros, tornava a França a principal favorita para o título da Copa do Mundo. Como atual campeã, a França não precisou jogar as Eliminatórias, mas teve um ciclo dos mais brilhantes, campeã da Eurocopa de 2000 e da Copa das Confederações do ano seguinte. Com o material humano que tinha à disposição, o seu status era muito merecido.      

Algumas coisas, porém, são incontroláveis. Em um protocolar amistoso de preparação contra a anfitriã Coreia do Sul, assim que chegou ao país, Zidane sentiu a coxa e sequer conseguiu terminar o primeiro tempo. Foi diagnosticado com uma ruptura no quadríceps que certamente o tiraria das duas primeiras rodadas da fase de grupos. Quem sabe retornasse para a terceira. Sem o seu principal líder, a seleção francesa ficou perdida. A derrota para Senegal na estreia foi uma das maiores zebras da história da Copa. O empate contra o Uruguai na sequência deixou os franceses em situação crítica, precisando ganhar da Dinamarca e ainda observar o saldo de gols. Zidane foi para o sacrifício. Claramente sem condições ideais, foi o melhor em campo pela campeã mundial, criando jogadas que terminavam em chutes na trave, tentando articular os companheiros como se acostumara a fazer tão bem. O sacrifício foi em vão. A Dinamarca ganhou por 2 a 0, e a França sofreu uma inexplicável eliminação ainda na fase de grupos.

A outra favorita era a Argentina. “À exceção de 1978, quando era favorita por ser país-sede, nunca a seleção argentina desfrutou de tanto prestígio internacional, nem mesmo na Era Maradona. Desta vez só se fala que o título fica entre França e Argentina”, escreveu o Guia da Placar daquela Copa. “Os franceses atingiram esse status por serem os atuais campeões mundiais. Os argentinos pelo bolão que mostraram durante as Eliminatórias, terminando 12 pontos à frente do segundo colocado na América do Sul, o Equador”. Essa diferença não foi o único número impressionante da campanha argentina. Somou 43 pontos, recorde neste formato que pode ser batido pelo time de Tite na atual edição. Perdeu apenas um jogo, para o Brasil, em 2000. Fez 42 gols e sofreu apenas 15. E tudo isso com um futebol de muita pressão e ofensividade, bem ao estilo do seu técnico, Marcelo Bielsa.

Dono de uma mente brilhante, El Loco Bielsa, como foi apelidado, influenciou gerações de técnicos de futebol, com Pep Guardiola entre eles, e teve muito sucesso no começo da carreira com o Newell’s Old Boys. Quando foi chamado para a seleção argentina, havia acabado de conquistar o Campeonato Argentino com o Vélez Sarsfield e estava começando seu trabalho com o Espanyol, da Espanha. Não resistiu à convocação e conduziu uma campanha brilhante, trabalhando sempre com um grupo reduzido e fazendo poucos testes. O que estava tudo bem enquanto dava certo. Tinha à disposição jogadores que ele próprio havia formado, como Mauricio Pochettino, Gabriel Batistuta e Walter Samuel, além de uma legião de nomes importantes: Roberto Ayala, Javier Zanetti, Juan Pablo Sorín, Diego Simeone, Pablo Aimar, Juan Sebastián Verón e Hernán Crespo. Não houve espaço nem para Juan Román Riquelme que havia comandado títulos do Boca Juniors na Libertadores da América.

Mas, na mais famosa lição do quanto o desempenho nas Eliminatórias nem sempre se traduz em boa campanha na Copa do Mundo, o mais importante é chegar inteiro e em boa forma e encontrar o seu melhor futebol em um torneio de apenas sete partidas disputadas em um mês. E isso a Argentina não fez. Houve problemas físicos. Ayala sequer entrou em campo. Verón havia terminado a temporada pelo Manchester United baleado. Diego Simeone teve que correr com a sua recuperação. Os principais atacantes estavam em má fase. Batistuta, titular em toda a fase de grupos, não marcava desde janeiro. Havia feito apenas seis gols pela Roma em toda a temporada. Crespo fora melhor pela Lazio, com 13 tentos pelo Campeonato Italiano, mas ainda longe do que poderia fazer – havia feito 26 na edição anterior.

A Argentina também não ganhou nenhuma colher de chá. Estava no grupo da morte, ao lado da Inglaterra, outra candidata a chegar longe, e da Suécia, que havia feito a melhor campanha das Eliminatórias Europeias, com oito vitórias e dois empates. A última integrante do grupo era a Nigéria, uma das fortes seleções africanas que contava com vencedores da medalha de ouro da Olimpíada de Atlanta, em 1996, como Jay Jay Okocha e Nwankwo Kanu. A estreia foi aceitável. Gol de Batistuta garantiu a vitória apertada contra a Nigéria. Mas David Beckham converteu um pênalti, e a Inglaterra venceu o confronto direto. Chegou a quatro pontos. A Suécia também tinha quatro, contra apenas três da Argentina.

A menos que a Inglaterra apanhasse da Nigéria, o que não aconteceu, a Argentina precisaria vencer a Suécia para passar. O nervosismo foi visível em uma série de chances desperdiçadas. O veterano Caniggia chegou até a ser expulso do banco de reservas, encerrando um torneio melancólico no qual sequer entrou em campo. Anders Svensson marcou de falta para aumentar o drama. Crespo chegou a empatar, mas tarde demais. O empate não bastava. A Argentina, que além de tudo buscava uma boa campanha na Copa do Mundo para dar um alento à sua população, sofrendo com uma grave crise econômica, havia sido eliminada.

Em menor medida, o Brasil também passou por frustrações parecidas. Como mostra o infográfico da Betway, foi o líder das próximas Eliminatórias que disputou (não precisou jogar a de 2014 por ser país-sede). Curiosamente, as campanhas para 2006 e 2010 foram iguais, com quase 63% de aproveitamento. Para 2018, pulou para 75,9%, um de seus melhores classificatórios mesmo em comparação com formatos menores. E nenhuma dessas vezes conseguiu ir além das quartas de final.

E nos outros continentes?

Sempre com muitas vagas na Copa do Mundo, e cheia de filiadas, a Uefa tem o costume de usar grupos para organizar suas Eliminatórias. Desde o torneio 1982, eles têm mais ou menos o tamanho de hoje em dia, entre oito e dez rodadas, às vezes com seis, às vezes com 12. É o período que permite uma análise mais unificada. E a relação entre um bom desempenho classificatório e uma campanha forte no Mundial é raramente verdadeira, embora tenha sido mais frequente na última década, como mostramos no infográfico produzido pela equipe da Betway.

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Começou bem porque em 1982 a Alemanha Ocidental e a Polônia fizeram as melhores campanhas, ganhando todos os seus jogos. Com um asterisco: os poloneses disputaram apenas quatro, metade dos alemães. De qualquer maneira, ficaram em terceiro lugar. A Alemanha perdeu a decisão para a Itália. Mas foi daí para baixo durante algumas décadas. Em 1986, a Hungria teve o melhor aproveitamento nas Eliminatórias e não passou da fase de grupos. Quatro anos depois, a Iugoslávia chegou às quartas de final, bom resultado na sua despedida dos Mundiais antes da dissolução.

A Grécia teve o melhor aproveitamento nas Eliminatórias para 1994. Mas com a grande armadilha do chaveamento em grupos. Para começar, a Iugoslávia deveria ser uma das adversárias, e provavelmente seria a favorita do grupo, mas foi suspensa pela Fifa, em meio às guerras daquele período. Os gregos fizeram apenas oito jogos, contra Rússia, Islândia, Hungria e Luxemburgo. Ganharam seis, empataram dois. Mas outros grupos eram muito mais fortes, a ponto de a França e a Inglaterra não terem sequer conseguido se classificar. Na hora do vamos ver, a Grécia foi eliminada da Copa do Mundo com três derrotas.

Em seguida, veio uma sequência de eliminações nas oitavas de final para as seleções europeias com melhor aproveitamento. A Romênia, quadrifinalista nos EUA, havia feito uma campanha quase perfeita em um grupo sem bicho-papão (Irlanda, Lituânia, Macedônia, Islândia e Liechtenstein) e perdeu para a Croácia no começo do mata-mata de 1998. Mas nem sempre o resultado sozinho determina se a campanha foi boa ou não. A Suécia chegou à Coreia do Sul e do Japão com o melhor aproveitamento da Europa e sobreviveu ao grupo da morte. Acabou eliminada na prorrogação por Senegal, uma das sensações daquele Mundial.

A Copa do Mundo de 2010, porém, foi um exemplo para o outro lado. A Espanha, atual campeã europeia, com a base do Barcelona que encantava sob o comando de Guardiola misturada à espinha dorsal do Real Madrid, ganhou os dez jogos das Eliminatórias e era a principal favorita. A Holanda também teve 100% de aproveitamento, em oito partidas, e, um pouco atrás, era uma das candidatas. As duas realizaram a final em Johanesburgo, com vitória espanhola na prorrogação.

As últimas duas melhores campanhas das Eliminatórias Europeias são da Alemanha, com resultados distintos: campeã no Brasil, com direito àquela semifinal no Mineirão, e eliminada na fase de grupos da Rússia, quatro anos depois, apesar de ter tido 100% de aproveitamento no classificatório.

Quando saímos de América do Sul e Europa, os únicos continentes que tiveram campeões mundiais, fica mais difícil avaliar o que é uma boa campanha. Seleções africanas, asiáticas e da América do Norte raramente chegam longe. Apenas três africanas alcançaram as quartas de final (Camarões 1990, Senegal 2002 e Gana 2010). A Ásia teve a surpreendente Coreia do Norte, quadrifinalista em 1966, e a Coreia do Sul avançando até a semifinal na Copa que sediou, em 2002 – com uma série de jogos com arbitragem controversa. A Concacaf também tem apenas um punhado de aparições nas quartas de final, e uma única semi, na primeira edição, em 1930, com os Estados Unidos.

Logo, não é exatamente uma surpresa que, nos formatos atuais das Eliminatórias, ou próximos dos atuais (desde 1998 nos três continentes), as melhores campanhas não tenham ido muito longe, como podemos notar no infográfico. No caso da Ásia, nenhuma dessas seleções passou da fase de grupos, embora Coreia do Sul e Japão tenham atingido o mata-mata em 2010, quando o maior aproveitamento no classificatório foi da Austrália. Depende muito do grupo em que caem. O Irã liderou a Eliminatória de 2018 e fez um mundial digno. Mas caiu no grupo de Espanha e Portugal. Ficou em terceiro lugar. O melhor asiático foi o Japão, que disputou vaga nas oitavas de final com Colômbia, Senegal e Polônia.

A África é um caso até extremo. Não apenas nenhuma das suas melhores campanhas não passou da fase de grupos, como uma delas sequer chegou à Copa do Mundo. Em grande exemplo de que as Eliminatórias Africanas são as mais equilibradas do mundo, o Egito venceu o seu grupo para o Mundial de 2014 com 100% de aproveitamento. Mas a Confederação Africana determinou playoffs entre os primeiros colocados, como fará novamente este ano, para apontar os classificados. O Egito pegou Gana e logo de cara levou 6 a 1 fora de casa. Não havia muito o que fazer depois disso. A vitória por 2 a 1 no Cairo foi insuficiente.

Os grupos são pequenos, geralmente com seis rodadas. Um jogo às vezes faz a diferença. Como em 2010, quando Gana, que chegaria às quartas de final, teve apenas uma derrota a mais que a Costa do Marfim nas Eliminatórias. Nenhum africano chegou às oitavas de final em 2018, mas Senegal, que dividiu a melhor campanha com a Tunísia, foi eliminado na fase de grupos no fair play, empatado em tudo com o Japão. Por um detalhe, entraria nesta análise como um caso positivo.

Na Concacaf, norte-americanos e mexicanos invariavelmente lideram as fases finais das Eliminatórias. A Costa Rica foi uma exceção e talvez o Canadá seja novamente. Em 2002, a melhor campanha foi costarriquenha. Na Copa, os EUA foram muito melhores e pararam nas quartas de final. Em 2014, o inverso. Os EUA lideraram o hexagonal final, e Costa Rica fez história terminando entre os oito primeiros.

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A Copa do Mundo é um torneio único. Tiro curto, em campo neutro, com quatro anos de expectativa e muita pressão. Precisa de mais do que uma preparação bem-feita para se dar bem nele. Pela natureza do mata-mata em jogo único, às vezes é até impossível prever o que acontecerá. As Eliminatórias podem ser um instrumento importante, mas quem utilizar apenas elas como base corre o risco de terminar como Pelé. Mas sem ter feito mil gols.