Herói, no simbolismo da palavra, basicamente significa proteger e servir. A raiz da ideia está enfincada como alguém que se sacrifica, ou aquele que sacrifica a si mesmo, estando disposto a abrir mão de suas próprias necessidades em benefício de outros ou do crescimento pessoal. É uma figura arquetípica que reúne em si os atributos necessários para superar de forma excepcional um determinado problema de dimensão épica. Para a mitologia grega, o herói estava na posição intermediária entre os deuses e os homens, sendo, em geral, filho de um deus com uma mortal ou vice-versa. É um semideus.

Por sua vez, o vilão é o antagonista da história. Ele normalmente é movido por ideologias e quer mudar o mundo de acordo com elas, para favorecê-lo, seja por bem (o que nunca é o caso) ou por mal; é cego, normalmente enxerga sua solução como a única opção viável; ele é anarquista, seu objetivo principal é causar a discórdia, o ódio. Mas mais do que tudo isso, ele é puramente mal: sua natureza fez assim, seu objetivo é causar o mal sem ver as consequências. Difere do anarquista por causa de suas origens, geralmente são monstros, seres ancestrais ou deuses da destruição.

Já o anti-herói está em uma área cinzenta entre o vilão e o cara legal. Por isso, há momentos em que é desagradável, mas em outros é extremamente encantador. São as suas qualidades paradoxais que fazem com que se assemelhe às pessoas reais — mais do que qualquer outro personagem da ficção. É um personagem cheio de nuances, tal qual a nova roupagem que foi dada ao Coringa em seu último longa, lançado em 2019 e interpretado por Joaquin Phoenix.

Como identificar um anti-herói?

Para identificar os anti-heróis, leve em conta que: apesar de suas imperfeições, secretamente gostaríamos de nos comportar como eles; eles são motivados pela autopreservação e pelo interesse próprio, mas diferentemente dos vilões, há uma barreira que eles não ousam cruzar; o que os motiva pode variar da vingança à honra; o errado sempre lhes parece mais fácil; costumam jogar dos dois lados, aproveitando o que bandidos e mocinhos têm a lhes oferecer; são cheios de contradições; e podem ter um arco no qual se redimem até o final da história.

Outra questão que deve ser levada em conta para identificar um anti-herói é que ele geralmente tem algo escondido em seu passado. Pode ser um trauma que o levou a ser quem ele é. Isso prova que, assim como acontece na realidade, o anti-herói é fruto do seu passado, principalmente das perdas profundas que talvez tenha sofrido. E é essa história de vida que costuma atrapalhar seus planos no presente. Aliás, quando o anti-herói é o protagonista do filme, ele geralmente retrata como é difícil escapar do passado e das cicatrizes profundas que ele pode nos deixar.

Por que nos identificamos com anti-heróis?

Em 1899, Sigmund Freud apresentou um mapa do Aparelho Psíquico, em que afirmava que nossa psique era dividida em três instâncias que interagem entre si: o ID, o ego e o superego.

  • O ID corresponde ao puro instinto, à impulsividade. Desconhece completamente os limites ou a lógica;
  • O superego representa os pensamentos éticos e morais internalizados, a recompensa social em seguir regras. Os objetivos principais são inibir impulsos, forçar comportamentos aceitos pela sociedade e nos conduzir à ideia de perfeição, ainda que ela seja inalcançável;
  • O ego basicamente é o que media estas duas instâncias, equilibrando o primitivo e o socialmente correto.

Gostar de um determinado personagem é um artifício usado pela nossa mente para trazer instintos à tona de maneira admissível. No caso dos anti-heróis, que cometem atos questionáveis e duvidosos, eles seriam o espelho do nosso ID em diferentes escalas. Transformar impulsos rejeitados pela norma coletiva em um personagem e não ser responsável por isso é o que causa o reconhecimento imediato.

Passamos a aliviar esses desejos irracionais - destaque para irracionais - na ficção, afinal, ela está distante, não nos traz nenhum prejuízo e nem nos envergonha perante o mundo. Temos o êxtase com as ações sórdidas do anti-herói com o ID, para logo entendermos que escolhas erradas podem trazer consequências pesadas no final - papel do superego.

Taxi Driver, por exemplo, é um poderosíssimo conto existencial urbano, cujo protagonista é um homem psicologicamente instável, retrato simbólico do isolamento individual nas grandes metrópoles. Travis Bickle trabalha como motorista de táxi à noite, ocupação que o coloca numa posição de observador passivo de uma dinâmica social pervertida – a decadente Nova Iorque noturna, com a sua miséria, tráfico, prostituição e demais sinais de desapego e decadência – que rapidamente aprende a desprezar.

A sua dimensão psicológica é dominada por pensamentos intrusivos acerca da sociedade corrompida que o envolve, provocando-lhe uma crescente agitação interna que determina seu comportamento durante o longa. A procura, sem sucesso, de afeto e de estímulos que permitam dar sentido à sua existência, confluem o ímpeto de expurgar as ruas da cidade da sua imundície: essa é a metamorfose do personagem. É crível. É palpável.

Ele é a insuportabilidade do real no estado mais bruto, conduzida a uma cena final arrebatadora que marca um dos momentos mais impressionantes e bem dirigidos de todos os tempos. Travis Bickle lembra, através da direção emotiva e cheia de ansiedade de Scorsese, que uma boa dose de repulsa entre os homens sempre será um ingrediente natural da vida.

Exatamente por isso, por esses exemplos, que amamos os anti-heróis. Porque eles falham, porque eles procuram a redenção e a vingança, porque eles não pensam no melhor para o mundo, mas para si mesmos, porque eles são incompreendidos, porque eles são complexos e cheios de dúvidas e porque, finalmente, eles são como nós — frágeis e imperfeitos, sempre em busca por um lugar no mundo.

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