O esforço de pesquisadores do mundo inteiro para desenvolver programas de inteligência artificial capazes de ganhar jogos de pôquer e de xadrez, como visto nos dois primeiros artigos dessa série sobre a IA, teve muito pouco a ver com a vontade de ganhar jogos de pôquer e de xadrez. Acontece que esses jogos servem – sem trocadilhos – como tabuleiros para que as ideias de inteligência artificial sejam testadas, aplicadas e validadas. Uma vez resolvidas, podem ser transferidas para problemas da vida real.

 “Quando você pesquisa algo empírico, você tem que aplicar em alguma coisa”, afirma Marlos C. Machado, doutor em inteligência artificial pela Universidade de Alberta, onde participou de grupos de estudos que usaram a IA em jogos de estratégia. “O argumento é o seguinte: jogos em geral capturam muitas coisas que ligamos a uma inteligência artificial. Têm que planejar em tempo real, pensar em consequências das suas ações. Quando você coloca crianças pequenas para jogar alguma coisa, não é apenas para se livrar delas, mas para reconhecer formas, cores, padrões, e o jogo ensina tudo isso”.

“Com o tempo, você passa a lidar com outro jogador, tentar antecipar as ações, ter um planejamento estratégico de longo prazo, e todas essas habilidades para jogar um jogo você tem que ter na vida também. E por causa disso, o jogo é uma plataforma muito natural para validar todas essas ideias de inteligência artificial”, completa Machado.

Pesquisadores tanto do DeepStack, desenvolvido pela universidade em que Machado estudo, quanto do Libratus e do Pluribus, outros programas de pôquer que foram capazes de derrotar jogadores profissionais entre os melhores do mundo em modalidades diferentes, afirmam que a inteligência artificial que domina um jogo tão complexo consegue lidar com problemas reais com o mesmo nível de dificuldade.

Estratégias de negociações, por exemplo, são essencialmente similares a um jogo de pôquer. Há uma proposta (aposta), uma contraproposta (raise), e as partes envolvidas precisam se analisar para descobrir até onde a outra está disposta a chegar. “O computador não pode vencer no pôquer se não blefar. Desenvolver uma inteligência artificial que possa fazer isso com sucesso é um tremendo passo à frente cientificamente e tem inúmeras aplicações. Imagine que o seu smartphone um dia conseguirá negociar o melhor preço de um carro para você. Esse é apenas o começo”, afirmou o chefe do departamento de Ciência da Computação da Carnegie Mellon, Frank Pfenning, ao texto sobre o Libratus, no site da universidade.

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O que as pesquisas em pôquer fizeram foi ajudar com problemas mais complexos, como o tratamento a diabetes, doença que afeta 425 milhões de pessoas mundialmente, segundo a Federação Internacional de Diabetes. “A ideia foi a seguinte”, conta Marlos C. Machado. “Quando você está doente, com diabetes, existem diferentes tratamentos. Mas há tratamentos que, para você, são super-eficazes, mas para outras pessoas não são, e o tratamento que é médio eficaz para todo mundo. O que eles fizeram foi: podemos fazer como em um jogo de pôquer. O seu corpo são as cartas escondidas, e eu quero jogar da melhor forma, ou seja, tratá-lo da melhor maneira possível, com as informações que eu tenho”.

O trabalho de Michael Bowling tem sido aplicado ao tratamento de diabetes, mas não é o único. A Mundipharma Portugal e a IBM desenvolveram um sistema de inteligência artificial que ajuda os médicos a personalizar o atendimento ao tipo 2 da condição. Os doutores entram em um chatbot (ambiente virtual no qual se conversa com uma inteligência artificial) e respondem a uma conversa guiada com informações sobre o paciente em questão. Com base em suas características físicas e psicológicas, a máquina sugere o melhor tratamento. Pesquisadores da IBM também desenvolveram um programa que ajuda no diagnóstico da diabetes tipo 1, mapeando anticorpos da doença, que geralmente exige histórico familiar e fatores de risco para ser identificada.

“Existe um outro trabalho que eles falam que é de segurança de aeroporto. Você pensa também em um jogo. Talvez haja terroristas querendo atacar o aeroporto, e a segurança, de novo, lida com informações escondidas. Como faz para desenvolver uma abordagem para esse monitoramento? Também há técnicas de pôquer aplicadas nesses resultados”, completou Machado.