O futebol mundial atravessa um momento de ruptura. A inserção da tecnologia que veio para ajudar os árbitros já está em uso nos principais campeonatos do mundo. Pontos positivos já foram notados, resultados que antes seriam considerados “injustos” por conta de erros de arbitragem foram corrigidos, mas alguns problemas persistem, ou até novos aparecem.

O futebol brasileiro, em especial, tem apresentado uma dificuldade muito grande em assimilar as novidades que o VAR trouxe ao esporte, resultando em episódios até bizarros, como suspensões de resultados de jogos.

Por outro lado, o tênis segue com tranquilidade na maior parte dos casos em que a tecnologia é utilizada. Chamado de Hawk-Eye (olho de gavião, em tradução livre), o aparato auxilia os árbitros em marcações de bolas em quadras de piso duro e de grama. O recurso foi implementado oficialmente em 2005, após uma partida da tenista Serena Williams no ano anterior, que foi recheada de erros de arbitragem. Uma verificação posterior viu que a tenista americana tinha razão em praticamente todas as reclamações que fez à árbitra da partida, e isso foi usado como impulso para que a tecnologia de câmeras fosse testada ainda no mesmo ano, e implementada em definitivo no ano seguinte.

Claro que existem casos de erros do Hawk-Eye ou de seu uso nestes últimos 14 anos, mas a incidência em campeonatos de primeiro escalão é ínfima, principalmente se compararmos com os primeiros meses do VAR no Brasil. A coleção de erros de uso do recurso já é grande, e para nossos analistas, a tendência é o ritmo continuar e a conta aumentar, enquanto algo não for feito.

Então, o que um esporte pode passar para o outro, em relação ao uso de tecnologias que auxiliam a dirimir ou eliminar erros de arbitragem e trazem mais justiça aos resultados?

O que dizem os especialistas do tênis?

Para o árbitro da Federação Paulista de Tênis (FTP), André Batista dos Santos, “O movimento é muito rápido, então o erro do árbitro pode acontecer, mas a tecnologia evita a maior parte destes erros”. Ele, inclusive, não faria mudanças no sistema do Hawk-Eye e em seus procedimentos, afirmando que “o procedimento é bem padronizado e muito claro. Eu não mudaria o uso do Hawk-Eye. Praticamente não há problemas, inclusive com outros esportes copiando o uso do tênis”. O ex-árbitro da FTP, Thiago Homisi, concorda com a questão do procedimento. “O procedimento atual é correto”.

A tecnologia do Hawk-Eye foi implementada para auxiliar juízes a identificarem o ponto onde a bola toca o chão, principalmente. Porém, o sistema é usado apenas em quadras de piso duro e de grama, não sendo utilizado no saibro. Thiago explica: “não acho que precisa ser colocado no saibro, pois podemos ver a marca da bola. Na quadra rápida, não fica marca. No saibro, o árbitro desce e vê onde está a marca”.

Para ele, no entanto, há espaço para uma pequena mudança no regulamento do Hawk-Eye: “Eu aumentaria o número de desafios em quadra rápida, pois ajudaria muito”. 

O que dizem os especialistas do futebol?

Para o ex-árbitro da CBF e da Federação Paulista de Futebol (FPF), Rafael Ferreira, que tem quase 400 jogos no currículo, “um grande problema que nós temos é que árbitros, no Brasil e em alguns lugares do mundo, não são profissionais. É um hobby remunerado. Ainda que alguns tenham uma postura profissional, precisamos que pelo menos os árbitros de divisões principais se dediquem exclusivamente ao ofício da arbitragem”. Ele completa: “O sistema é bom. Não tem como não ver o que acontece com o VAR. A tecnologia não precisa de alteração no momento. Mas o elemento humano precisa ser melhor treinado”.

Já para o instrutor de arbitragem da CBF, Eduardo Coronado, as interpretações diferentes entre árbitros, elemento que faz parte do jogo, são as principais responsáveis por alguns episódios questionáveis. “O procedimento é bom, mas a tecnologia é controlada por seres humanos. Mesmo com imagens, alguns lances terão interpretações diferentes”.

Outro ex-profissional de arbitragem que compartilhou sua visão conosco foi Daniel Destro, que foi filiado à FPF e à Associação de Futebol da Irlanda, além de escrever livros sobre futebol, como o celebrado “Grandes Árbitros do Futebol Brasileiro”. Daniel concorda com os colegas quando afirma que “existe uma evolução, mas ela também escancara o despreparo das pessoas, tanto no treinamento, quanto na utilização da tecnologia. Mesmo os árbitros mais experientes ainda sofrem com essa adaptação”.

Ao serem perguntados sobre mudanças que gostariam de ver, todos tem algumas ideias. Apesar de concordarem que ainda é cedo para uma avaliação final, eles entraram na brincadeira e suas ideias convergiram em 3 pontos principais: tempo de paralisação das partidas, participação das equipes nas marcações e protocolo a ser cumprido.

De acordo com Rafael, “os árbitros precisam de um limite de tempo para tomada de decisão. Paradas muito longas alteram demais o ritmo de uma partida, podendo prejudicar uma das equipes”. Eduardo concorda que as partidas sofrem paralisações muito longas, principalmente no Brasil, mas explica um dos motivos. “Aqui, o software é um modelo mais simples em relação ao da FIFA, então ele é mais lento do que o usado na Europa”.

Sobre a participação das equipes, Rafael vê a mudança como benéfica, mas identifica problemas em uma eventual implementação desta alteração. “Uma boa medida é: o corpo técnico pode desafiar qualquer decisão que não esteja dentro do protocolo do VAR, duas vezes, sendo que se perder a primeira decisão, ele perde também o direito de usar pela segunda vez”. Porém, ele complementa: “diferentemente do corpo técnico de outros esportes, como tênis e futebol americano, muitas equipes técnicas do nosso futebol não dominam a regra do esporte, então pode virar bagunça”.

Por outro lado, Eduardo compartilha uma expectativa sua: “eu acho que a FIFA ainda vai colocar mais lances revisáveis no protocolo, além dos 4 atuais”.

Já sobre os protocolos a serem seguidos, especialmente no Brasil, Rafael afirma que “talvez por uma questão cultural, o europeu siga mais à risca o que diz o protocolo. Lá, o vídeo não interfere na interpretação do árbitro. Aqui, tivemos lances em que o VAR interferiu na questão da interpretação, o que não deveria acontecer”. 

O que pode ser feito?

Baseados nas entrevistas com os especialistas e até em visões como fãs de ambos os esportes, chegamos a 3 pontos principais onde o VAR por melhorar, se “pegar emprestadas” algumas ideias do tênis. O esporte da bola e raquete, por outro lado, pouco precisa de qualquer alteração, sendo as únicas discussões sobre o aumento de desafios em quadra rápida e a implementação do sistema em jogos no saibro.

No futebol, por sua vez, as possibilidades de mudanças são inúmeras. Baseados nos diagnósticos dos 3 pontos principais, juntando com algumas ideias dos especialistas e coisas que nós mesmos imaginamos, montamos três sugestões que o VAR poderia implementar para melhorar seu uso e as partidas como um todo. 

  • Limite de tempo para revisões

Os árbitros teriam até 2 minutos para decidir o que ocorreu na jogada. Do instante em que ele solicita o uso do VAR, até autorizar o reinício do jogo, evitando paradas mais longas, exigindo decisões precisas e rápidas dos árbitros.

Isso faria com que o ritmo de uma partida não sofresse uma quebra tão grande, e daria uma responsabilidade maior ao árbitro de campo e ao árbitro de vídeo, sobre quando acionar o VAR e quando seguir com a interpretação do campo.

  • Desafios

 Os técnicos de cada equipe teriam o direito de desafiar uma não marcação do árbitro, em qualquer lance que não fosse protocolar do VAR. Com 2 desafios por jogo, o técnico poderia usá-los como quisesse, excluindo situações de pênalti, gol irregular, cartão vermelho direto e identificação de jogadores. Porém, diferentemente do tênis, o desafio usado seria contabilizado, independente de acerto ou erro e, no caso de o primeiro desafio do técnico ser considerado errado, ele perderia o segundo automaticamente. Isso evitaria o uso banal do recurso, forçando os treinadores a usarem com sabedoria seus desafios.

  • Padronização do protocolo

De uma forma mais ampla, o procedimento precisa ser padronizado. Todos precisam saber o que ocorrerá para que uma revisão seja chamada, quais serão os passos desta revisão, estes acompanhados pela transmissão do jogo, com a comunicação dos árbitros de campo com o VAR sendo disponibilizada para as TVs, dando mais transparência ao processo.

Isso exige um treinamento muito maior e específico sobre o uso da ferramenta, prevenindo aberrações e usos particulares, que invariavelmente resultam em erros.

Com essas 3 sugestões, esperamos acender uma discussão mais objetiva, seja nas mesas dos bares e nas arquibancadas dos estádios, seja em corredores de órgãos competentes, para que o futebol e o VAR atravessem esta fase de adaptação e cheguem à estabilidade, deixando o jogo mais belo e justo.

 

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