“O tênis é tudo. Ele foi tudo para mim. Hoje tenho 32 anos e o que foi a minha vida? Tênis. Acho que o tênis é a minha vida. Foi e vai continuar sendo porque eu tenho muito ainda o que fazer pelo esporte.”

Assim Teliana Pereira definiu a relação que tem com o esporte que o projetou para o mundo e mudou a vida de toda a sua família, em entrevista ao “UOL”, depois que anunciou a aposentadoria. Aos 32 anos, a brasileira decidiu largar as quadras em setembro de 2020 e deixa um legado importante para a modalidade.

Em toda a carreira, Pereira venceu dois WTAs e chegou a ser 43ª colocada do ranking mundial. Ela deixou o esporte como a terceira brasileira mais bem ranqueada da história, perdendo apenas para Niege Dias e Maria Esther Bueno. Ao longo da trajetória com a raquete e as bolinhas, também representou o país nas Olimpíadas do Rio de Janeiro, em 2016.

Só que a história de Teliana para chegar a todo esse status no tênis, majoritariamente elitista, é de superação. Pobre e nascida no sertão pernambucano, ela conseguiu ter a ‘chance da vida’ em Curitiba, no Paraná, quando seu pai se mudou para tentar dar uma condição melhor aos filhos e à esposa e acabou mudando o rumo da família.

Seu José Pereira, progenitor da ex-jogadora, abandonou a vida de cortador de cana-de-açúcar em Águas Belas (PE) e foi para o Sul do país em busca de emprego e melhores oportunidades. Depois de alguns bicos e tentativas frustradas, conseguiu se fixar em uma academia de tênis. Após dois anos de aventura e incertezas, levou o restante dos familiares para a nova cidade.

A academia, então, passou a ditar o ritmo da vida dos Pereira. Além do pai, a mãe e os irmãos passaram a trabalhar lá. Teliana, por exemplo, era uma das crianças que recolhia as bolinhas para os clientes e aos poucos começou a ter contato com a modalidade.

Entre uma aula vaga e outra, quando um aluno faltava, o dono da academia de tênis, o francês Didier Rayon, começou a dar espaço para os filhos de José no esporte. A longa parceria entre o gringo e a tenista brasileira dava os primeiros passos -- ela venceu o primeiro torneio na juventude sob sua tutela e sem nem saber como funcionava a pontuação nas quadras.

“Nem sabia contar, nem sabia o que estava acontecendo. Só sabia que tinha que ganhar os pontos. E fiquei com o Didier até meus 21 anos, se não me engano. Bastante tempo”, contou.

O auge da carreira de Teliana Pereira

O tênis brasileiro não vive um dos seus melhores momentos. Depois que Gustavo Kuerten brilhou e virou top-1 do mundo no início do século, nenhum nome conseguiu se destacar como foi com Guga. Entre as mulheres, a situação era ainda mais complicada, e a pernambucana quebrou uma série de recordes ao entrar na lista das 100 melhores atletas do ranking.

Ao jogar o Aberto da Austrália, em 2014, rompeu um jejum de 20 anos; quando venceu na primeira rodada de Roland Garros, também em 2014, derrubou outro tabu de 23 anos; no ano seguinte, ao conquistar o WTA de Bogotá, encerrou o período de 27 anos sem um título de uma tenista brasileira.

Teliana destaca que foi preciso muito foco para se manter em alta e quebrando as barreiras do país na modalidade. O auge, diz ela, foi quando atingiu a 43ª posição da WTA, representou as cores verde e amarela na Olimpíada do Rio de Janeiro e enfrentou Serena Williams (derrota em Roland Garros).

"O tênis feminino estava muito carente e era engraçado, porque tudo o que eu fazia tinha um impacto muito grande. Eu vou ser muito sincera, eu não entrava na internet. Tentava ao máximo não ter essas informações, porque eu achava que poderia me prejudicar", revelou.

"Eu me blindei de uma maneira que, sinceramente, eu tenho certeza de que me ajudou muito. Quando você começa a ter acesso a esses números, é inconsciente, mas se pressiona. Imagina: eu estava em uma semifinal, se eu entrasse na internet para ver tudo que falavam, eu não ia ganhar nem ferrando. Então eu não vivia nesse mundo de euforia, sabe? Sempre mantive meus pés no chão. Acho até que em algum momento talvez tenha faltado ter um pouquinho mais de noção de tudo que eu estava fazendo, mas foi do jeito que tinha que ser.”

Futuro é no tênis e ajudando crianças do sertão

A oportunidade em um esporte considerado de elite foi rara, e Teliana Pereira agarrou com todas as forças para transformar a vida da família. Comprou uma casa para a mãe, viajou o mundo, colocou seu nome na história do esporte brasileiro. Mas ela sabe que ‘deu sorte’ pelos rumos da vida e que, caso seguisse no sertão pernambucano, mal saberia o que era tênis.

É por isso que agora que se aposentou, aos 32 anos, ela tenha planos para o futuro. Claro: próximo da modalidade que moldou a sua vida. Hoje Teliana acompanha os campeonatos pela televisão e quer criar alguma rede para mudar a realidade brasileira.

Um de seus projetos, ainda embrionário, consiste em direcionar forças para o tênis feminino e dar oportunidade para as crianças do sertão nordestino.

“Acho que eu posso contribuir demais. Quero passar experiências, mostrar o caminho. Vivi tantas coisas e creio que posso colaborar com as meninas que sonham em se tornar atletas. Tenho outro sonho que é poder ajudar as crianças lá do sertão através do tênis, mas como? Talvez um projeto social. Eu tenho conversado com várias pessoas para tentar organizar as ideias, mas ainda é tudo muito novo", afirmou.

Enquanto curte os primeiros meses longe das quadras e da vida regrada de uma atleta profissional, Teliana mantém o ‘radar ligado’ no tênis e aos problemas da modalidade no Brasil. É um sopro de esperança para que o esporte evolua nos próximos anos.

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