São Paulo, Corinthians, Santos e Palmeiras. Estes são os quatro grandes clubes de São Paulo e ninguém desconfia disso. Mas houve uma equipe ‘intrusa’ em meio aos times tradicionais do estado no início do século e que por pouco não conseguiu feitos impactantes como vencer o Campeonato Brasileiro e a Copa Libertadores.

É o São Caetano, sediado no ABC paulista, na Grande São Paulo, e que não tem nenhuma expressão no futebol brasileiro atualmente. Mas o Azulão por pouco não cravou seu nome em uma das placas do troféu mais desejado da América do Sul, da Libertadores.

Tudo começou quando o clube se beneficiou de uma confusão no regulamento da Taça João Havelange, em 2000, e se classificou como segundo do Módulo Amarelo. Como três times da segunda divisão garantiam vaga no mata-mata do Brasileirão, foi lá o time de São Caetano se aventurar contra os grandes. E o resultado foi surpreendente.

A equipe bateu Fluminense (oitavas de final), Palmeiras (quartas de final) e Grêmio (semifinal) e roubou a cena. No fim, perdeu para o Vasco na grande final e acabou com o vice-campeonato, mas conseguiu se projetar no cenário internacional, garantindo uma vaga na Libertadores do próximo ano.

Em 2001, então, o Azulão viveu um ano de time de grande de Série A. Jogou as principais competições e novamente ficou entre os melhores times. Na Libertadores, foi eliminado nas oitavas de final pelo Palmeiras. Já no Campeonato Brasileiro, mais uma campanha arrasadora: classificado em primeiro lugar na primeira fase, despachou Bahia e Atlético Mineiro até garantir-se na final mais uma vez.

A decisão, no entanto, demonstrou a diferença de tamanho do São Caetano para o Athletico Paranaense, que venceu as duas com aquele timaço comandado por Washington Valente e foi campeão. Novamente, a equipe do ABC iria para a Libertadores como o segundo melhor time do Brasil. Desta vez, porém, ia como um time que deixa qualquer grande ‘em alerta’.

O time do São Caetano finalista da Libertadores

Para explicar os três anos muito acima da média da história do São Caetano, é preciso esmiuçar o time que representava tudo aquilo. Em 2002, o ano em que rompeu todos os prognósticos e chegou à decisão da Libertadores, o Azulão tinha uma seleção.

Com Jair Picerni no comando – o experiente treinador ficou de 2000 a 2002 à frente da equipe --, o time jogava no 4-4-2 e contava com Silvio Luiz no gol em fase inspirada. Russo era o lateral direito e jogava ao lado dos zagueiros Dininho e Daniel, entrosados por jogarem juntos há um bom tempo. Na esquerda, Rubens Cardoso dava um toque de inteligência e velocidade, além de bom passe.

Quando chegava no meio de campo, entende-se, hoje, o poder daquela escalação. Marcos Senna, que depois iria fazer sucesso na Europa e se naturalizaria espanhol, era a cabeça pensante como primeiro volante. Ele fazia dupla com Adãozinho, enquanto Arílson, o camisa 10 baixinho e habilidoso ficava mais à frente, próximo a Robert, meia que faria carreira no Santos depois daquela Libertadores. No ataque, Aílton e Brandão formavam a dupla titular, e o grandalhão Somália era opção como centroavante.

A soma disso tudo resultou em momentos históricos para a cidade de São Caetano. Entrosado e com o mesmo treinador por três temporadas, a equipe brilhou na competição sul-americana.

Em um grupo com Cobreloa, Cerro Porteño e Alianza Lima, o esquadrão de Picerni terminou com o primeiro lugar e 12 pontos ganhos. Foi a quarta melhor campanha daquela edição. O sofrimento começou já na estreia do mata-mata. Dois empates por 1 a 1 com a Universidad Católica, do Chile, levaram a disputa para os pênaltis. Deu a equipe brasileira, que se garantiu nas quartas com um 4 a 2 nas cobranças, em casa.

Na próxima fase, um bicho-papão da Libertadores: o Peñarol. Depois de derrota por 1 a 0 em Montevidéu, o time veio para o ABC paulista e venceu por 2 a 1, de virada. Como não havia critério de gols fora naquela época, Picerni e companhia passariam por mais uma decisão por pênaltis. Como só Adãozinho desperdiçou sua cobrança, os brasileiros venceram por 3 a 1 e seguiram, em um desempenho que já era histórico e comemorado.

A semifinal reservou um encontro com o América, do México, respeitado pelos times da América do Sul e o maior do país. Mas aquela equipe azul, disputando somente a segunda Libertadores do clube, não se intimidava. Recebeu os gringos com 2 a 0, gols de Adãozinho e Somália, e segurou um 1 a 1 no Azteca. Sim, o São Caetano talvez nem sabia como, mas avançava para a final da Libertadores.

Era a hora de consagrar aquele projeto que se iniciou em 2000. Para isso, dois confrontos com o Olímpia, também tradicional, que havia eliminado o Grêmio. Mas os brasileiros foram até o Paraguai, fizeram 1 a 0 com Aílton e ficaram muito próximos da zebra histórica no torneio.

Como a regra da Libertadores pede um estádio com capacidade de pelo menos 40 mil torcedores na final, o São Caetano não pôde receber o jogo no Anacleto Campanella. Com isso, o jogo foi para o Pacaembu, que se pintou de azul e viu torcedores dos grandes paulistas se unirem na torcida pelo time do ABC. Aílton abriu o placar, mas Córdoba e Báez viraram e forçaram a disputa por pênaltis.

Nas cobranças, Marlon e Serginho chutaram para ‘longe’ a chance de um clube pequeno fazer história e sentir o que é a “glória eterna” da Libertadores. O título não veio, ficou no imaginário dos torcedores, mas o São Caetano de 2002 marcou época.

O torneio sul-americano é sempre emocionante, não tem como dizer que não. Inclusive, a temporada 2020 está entrando nas fases finais e pegando fogo. Que tal aproveitar o momento e fazer suas apostas na Copa Libertadores?