Há decisões do Campeonato Brasileiro que ficaram na história. Seja pelo fato de que colocou dois timaços frente a frente, seja por ter coroado uma geração ou até mesmo porque promoveu um clássico estadual.

São os casos de Flamengo x Atlético Mineiro em 1980, que criou a maior rivalidade interestadual do Brasil e elevou o time de Zico, Nunes e companhia -- foi o primeiro troféu rubro-negro; de São Paulo x Guarani, em 1986, decidido nos pênaltis e que levou ao topo os Menudos do Morumbi -- uma equipe incrível; ou também o caso de Corinthians x Santos, em 2002, em que os Meninos da Vila Robinho e Diego dominaram o país.

Só que muitas vezes, em rodas de amigos, bares e ou bate-bolas da imprensa, o assunto acaba sendo Botafogo x Santos, de 1995. E isso tem explicação. Primeiro porque representa a única conquista de Brasileirão do Alvinegro carioca desde que a competição foi criada, em 1971. Antes, o clube havia vencido a Taça Brasil em 1968 -- mais tarde, a Confederação Brasileira de Futebol (CBF) unificou os torneios e, por isso, o Glorioso é considerado bicampeão.

O segundo e principal motivo é pela atuação do árbitro Márcio Rezende de Freitas. O desempenho do homem do apito naquela decisão ficou marcado para sempre na história do futebol brasileiro.

Tudo começou aos 24 minutos do primeiro tempo. Falta pelo lado esquerdo, próximo à linha lateral do campo. A bola é alçada na área, há um desvio e ela chega em Túlio Maravilha. O atacante empurra para o gol e coloca o Botafogo na frente e em confortável vantagem no Pacaembu, lotado de santista. Àquela época, o formato do Brasileirão era o seguinte: fase de grupos e primeiros colocados classificados para o mata-mata. A grande final, realizada em dois jogos, começou a ser disputada no Rio de Janeiro, e o Bota venceu por 2 a 1.

O tento de Túlio, então, deixava a situação favorável, já que apenas um empate seria suficiente para o título ficar no Rio. Só que o jogador, que entraria pelo ‘hall de ídolos’ justamente após este Brasileirão, estava em posição irregular e, naquela época, claro, não havia o auxílio do árbitro de vídeo (VAR). Ou seja, gol confirmado.

E uma conversa na saída para o intervalo mexeu com o trio de arbitragem. Foi o que revelou o próprio Márcio Rezende de Freitas, ao “GE”. Em entrevista que relembrou aquela partida, o ex-árbitro conta que uma abordagem de um zagueiro do Santos abalou a confiança do seu assistente, que havia validado o gol.

“No intervalo do jogo, o Narciso [zagueiro do Santos] veio me falar que o gol do Botafogo tinha sido impedido. Aí eu vi que meu bandeirinha ficou branco. Eu meio que perdi a confiança nele. Passei a assumir mais os lances. Mas acabou tendo outro gol, do Santos, o de empate, que também foi irregular, e bem próximo do bandeirinha. Mas isso eu não vi, porque não tinha como ver. Depois, fui assumir um monte pra mim e mandei o bandeirinha ir para o fundo. E a TV diz que o único gol legal foi anulado”, recordou Márcio Rezende de Freitas.

As escorregadas da arbitragem naquela partida não param por aí -- e é por isso que o jogo é tão lembrado até hoje. No gol de empate do Peixe, Marquinhos Capixaba conduziu com a mão, e a bola acabou livre para Marcelo Passos igualar. O chute certeiro foi validado, também irregularmente.

O terceiro momento crucial para a arbitragem deu-se novamente em ataque do Santos. Em cobrança de falta, Rezende ficou lateralmente ao lance, na linha da pequena área, e anulou um gol de Camaducaia que levaria o confronto para a prorrogação. Como quis assumir a responsabilidade por estar desconfiado do companheiro de arbitragem, marcou impedimento.

À época, no entanto, o tira-teima da transmissão da TV Globo apontou que o jogador santista estava 59 centímetros atrás de Leandro Ávila, que o deu condição. Ele assumiu, mais tarde, que nem olhou para o bandeirinha e chamou para si a decisão.

A segunda partida terminou empatada por 1 a 1, desta forma, e o Glorioso ficou com o título. Mas o curioso mesmo e que marca as páginas do futebol brasileiro é que o único gol legal daquele dia foi anulado. Os outros dois, irregulares, confirmados.

O desempenho catastrófico mexeu com a carreira de Márcio Rezende de Freitas. Ele revelou, na mesma entrevista ao “GE”, que nunca foi passear na cidade de Santos, mesmo depois de mais de duas décadas da decisão. Ele destacou que nunca havia ido antes e não foi após 1995.

Rezende pede desculpa ‘até hoje’ por jogo Botafogo x Santos

Outro personagem daquela final histórica foi Marcos Adriano. Lateral esquerdo de destaque do time liderado por Giovanni, o Messias, o jogador levou o tradicional prêmio “Bola de Prata”, da Revista Placar, da posição. Ele recorda com felicidade o feito, mas lamenta que o desfecho poderia ser outro caso a arbitragem tivesse uma tarde mais inspirada.

“No Santos foi onde eu ganhei a Bola de Prata como melhor lateral esquerdo do Brasil. Eu tive uma fase maravilhosa lá. Só faltou o título de 95, mas a torcida do Santos considera aquele grupo de 95 como campeão porque, até hoje, o ex-árbitro Márcio Rezende pede desculpas pelo gol impedido do Túlio que ele errou. Ficou um negócio meio chato para ele e um negócio legal para gente. Consideram o melhor time do campeonato aquele Santos de 95... Muita gente diz isso, mas é lógico que botafoguense não vai dizer isso”, afirmou o jogador ao “UOL”.

Se você não conhecia as aventuras da decisão do Brasileirão de 1995, vencida pelo Botafogo de Túlio Maravilha, agora está ainda mais ambientado sobre a história do futebol jogado no Brasil. Que tal, então, fazer apostas no Campeonato Brasileiro?