O que você faria se tivesse a oportunidade de rebaixar um rival? Para a maioria dos torcedores, talvez, a resposta esteja na ponta da língua, mas para os jogadores profissionais não é uma situação tão simples. Afinal, além do profissionalismo em jogo, o clichê de que o futebol é dinâmico e dá voltas pode entrar em ação em um momento inesperado.

Em 2004, no Campeonato Paulista, o Corinthians passou muito perto do que seria o maior vexame de sua rica história: ser rebaixado para a Série A2 do Estadual. Uma campanha pífia da equipe do Parque São Jorge, no entanto, foi salva por um jogador: Grafite.

Defendendo o São Paulo naquele ano, o atual comentarista da TV Globo foi protagonista de uma vitória de seu time que lhe custou a paz, gerou ameaças e o rotulou de corintiano por alguns dias. Tudo isso, em ameaças feitas pela própria torcida do clube do Morumbi.

Vencido pelo São Caetano, que conquistou o título em 2004 pela primeira vez, o Paulistão-2004 foi emocionante em uma briga bastante improvável: um grande, o Corinthians, lutando contra o descenso.

O torneio foi disputado entre 21 times. De acordo com o regulamento, eles foram divididos em dois grupos (Grupo 1 e Grupo 2), com 10 e 11 equipes, respectivamente, e as equipes se enfrentando na própria chave, em turno único.

Em seguida, os quatro melhores de cada grupo avançavam para o mata-mata: quartas de final (partida única), semifinal e final (ambas com ida e volta). Na decisão, o São Caetano, em seu auge, venceu o Paulista (Jundiaí) duas vezes e ficou com o troféu.

Mas o drama, mesmo, aconteceu no dia 15 de março de 2004. A última rodada da primeira fase colocou o líder da chave 1, o São Paulo, contra o lanterna Juventus. Na briga para não cair à Série B, o Timão enfrentou a Portuguesa Santista no Pacaembu, e dependia apenas de si. Caso vencesse o time da Baixada, permaneceria na elite.

Só que o Corinthians não fez sua parte. Em má fase, a equipe treinada por Oswaldo de Oliveira não conseguiu os três pontos: vitória dos visitantes por 1 a 0, gol do ex-são-paulino Reinaldo.

Em paralelo, os 20 mil torcedores corintianos presentes no Pacaembu naquela tarde, e mais os milhões que acompanhavam o drama pela televisão, debruçavam as atenções no jogo do rival: afinal, se o Juventus (da Mooca) vencesse o São Paulo, o Corinthians estaria rebaixado para a Série A2.

Drama e gritos de entrega no ABC paulista

Juventus e São Paulo se enfrentaram na última rodada do Paulistão de 2004 no Anacleto Campanella, estádio localizado em São Caetano. Com o time misto e já garantido nas quartas, o Tricolor do Morumbi viu Grafite decidir. Depois de perder duas ótimas oportunidades, o atacante aproveitou outras duas e fez 2 a 0, aos 32 e 43 minutos do primeiro tempo.

Na etapa final, os visitantes diminuíram o ritmo e viram Terrão descontar, aos 13 minutos. Valdo, na base da pressão, ainda empatou, mas a arbitragem anulou por impedimento do atacante.

De olho no resultado do rival, que a essa altura perdia da Portuguesa Santista no Pacaembu, a torcida são-paulina presente no estádio pediu ao time que entregasse o jogo nos minutos finais. Mas a equipe do técnico Cuca manteve a postura, segurou o 2 a 1 e garantiu a permanência do Corinthians na elite.

Vale destacar que o Corinthians terminou com 8 pontos, enquanto o Juventus só fez 6 na primeira fase. Ou seja, um empate no Anacleto Campanella não resolvia, era preciso que o São Paulo perdesse.

Grafite foi cobrado, mas depois passou

Protagonista no “jogo que não rebaixou o Corinthians no Paulistão”, Grafite foi bastante hostilizado pela própria torcida do São Paulo. Em entrevista ao GE, em 2010, o ex-jogador recordou a polêmica e disse não se arrepender do feito.

“Fiz o que achei certo de acordo com os princípios e com a educação que os meus pais me deram. Não me arrependo nem um pouco. Um profissional digno e de bom caráter jamais irá fazer o contrário em seu trabalho. Eu estava ali para defender o São Paulo, clube que me pagava para jogar, ganhar jogos e marcar gols. As oportunidades apareceram e eu apenas fiz o que deveria ter sido feito. Simples”, pontuou o ex-atleta ao GE.

Grafite revelou, ainda, que sofreu perseguição após aquele triunfo em cima do Juventus. Ele foi chamado de corintiano por alguns torcedores que, somente com gols e títulos no ano seguinte, esqueceram a “mancada” do artilheiro.

“O corintiano me abraça e tudo mais. Já o são-paulino também me agradece pelos títulos que conquistei dentro do clube, mas lembra dos dois gols contra o Juventus. Mas tudo em tom de brincadeira. Nunca tive maiores problemas com isso não. Essa rivalidade sadia e sem violência é até gostosa no futebol”, revelou.

Ele também se defendeu das acusações de “salvar” o Corinthians. “Ninguém cai ou conquista título na última rodada. Em campeonato de pontos corridos, cada rodada conta muito. O peso dos três pontos da última rodada é o mesmo que o da primeira. Tenho certeza de que os profissionais irão fazer o melhor pelos seus clubes”, concluiu.

Grafite permaneceu no São Paulo de 2004 a 2006, vencendo o Campeonato Paulista, a Libertadores e o Mundial de Clubes em 2005. Já em 2006, ele praticamente não participou da campanha vitoriosa no Campeonato Brasileiro, já que foi vendido ao Le Mans, da França. Com a camisa tricolor, ele disputou 77 jogos e fez 28 gols.

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