O futebol brasileiro já foi foco de discussões sobre espanholização, devido ao enriquecimento de um par de clubes grandes e com torcidas numerosas. Primeiro, Corinthians e Flamengo eram os prováveis "Real Madrid e Barcelona", pois havia quem acreditasse que os dois mais populares times do país teriam equipes mais fortes devido à maior fatia dos direitos de transmissão vendidos à televisão.

Foi depois da implosão do Clube dos Treze, que negociava com a Globo em grupo. Há aproximadamente dez anos, a organização surgida em 1987 como embrião de uma Liga, mas que àquela altura se limitava a essas ações, perdeu o sentido quando seus integrantes a abandonaram, uns atrás dos outros, a partir do desligamento corintiano. Com isso, passamos a viver a "Era" do "cada um por si".

Com os clubes discutindo isoladamente o quanto receberiam pela permissão para que o grupo de comunicação exibisse suas partidas, aqueles que possuem mais torcedores, e consequentemente têm maior potencial de audiência, conseguiram acordos melhores. Em suma, mais dinheiro nos cofres de Flamengo e Corinthians, que, apostavam muitos, poderiam ir ao mercado e montar elencos poderosíssimos.

Os valores chegaram a patamares anos antes inimagináveis, pois a Record demonstrou interesse em adquirir os direitos de transmissão da Série A, o que fez as cifras alcançarem níveis bem mais altos do que os anteriormente praticadas. Ou seja, para não ficar sem o futebol, a Globo teve que desembolsar mais dinheiro, além, claro, de utilizar a relação construída há décadas com os clubes e seus dirigentes.

Sempre, ou quase, na pindaíba, grandes marcas do futebol brasileiro recorreram incontáveis vezes aos adiantamentos globais para pagar contas, dívidas, sair do sufoco comprometendo receitas futuras, numa situação que, em alguns casos, desenvolveria certa dependência. Como deixar de lado o velho parceiro e fechar com um concorrente que poderia, digamos, se recusar a antecipar quotas?

Tudo isso, mais os fortes bastidores, fizeram com que os jogos não mudassem de canal, mas os valores direcionados a alguns clubes pelas mesmas pelejas se alteraram, e como! No caso específico, mais para flamenguistas e corintianos, com enormes abismos em relação a outros grandes do país. Os menores então... Esses ficaram a distâncias verdadeiramente galácticas dos endinheirados.

No entanto, a expectativa de espanholização Flamengo-Corinthians não se concretizou. Curiosamente por causa da mudança de postura na gestão daquele que, na época da grande virada, era bem gerido e tinha dívidas pequenas para seu tamanho. Sim, em 2012, quando ganhou todos os títulos com os quais sempre sonharam, os alvinegros deviam aproximadamente R$ 112 milhões, pouco para seu potencial de arrecadação.

Já os rubro-negros tinham endividamento beirando os R$ 800 milhões e passaram temporadas recentes com desempenhos pífios nas principais competições, apesar da surpreendente conquista do Campeonato Brasileiro de 2009. O time de maior torcida no país era dono, também, da maior das dívidas. Algo absurdo e que, em valores atualizados, giraria, hoje, próximo à casa de R$ 1,5 bilhão!

Contudo, o Corinthians perdeu o rumo na gestão financeira, a dívida disparou e a ela se juntou outra, maior, do estádio erguido para a abertura da Copa do Mundo de 2014, que atingiu valores estratosféricos na casa de R$ 1 bilhão a R$ 2 bilhões (ninguém consegue precisar o custo final da obra com exatidão). Assim, mesmo ganhando bem da TV, não consegue mais montar times fortes como se imaginava lá atrás que faria.

Já o Flamengo ingressou no caminho da responsabilidade administrativo-financeira. Desde a chegada de um grupo de novos dirigentes que saíram de outros mercados para adentrar o confuso mundo do futebol, os rubro-negros cortaram custos, ampliaram receitas, renegociaram dívidas e, finalmente, conseguiram o que parecia impossível: se organizaram de verdade. 

Se nos primeiros anos o clube carioca pagava DARFs e outras dívidas, com o governo e credores diversos, após quase três anos os investimentos no elenco de futebol começaram a crescer, até resultar no fortíssimo time formado em 2019, com uma comissão técnica europeia e jogadores de nível altíssimo. Terminava a "Era" dos fracassos, do "cheirinho", começava um período de conquistas. 

Mas o tema espanholização não sairia da pauta, graças a outra agremiação paulista, o Palmeiras, que em 2014 quase foi rebaixado mais uma vez à segunda divisão. Mas depois de uma reestruturação, que contou com o generoso apoio do ex-presidente Paulo Nobre, teve a casa arrumada e pôde, enfim, se reforçar. Em 2015 o time ficaria melhor e ganharia a Copa do Brasil. Em 2016 o Brasileiro, e em 2018 mais uma vez.

media Fonte: Getty Images - Alexandre Schneider

Nessa altura, palmeirenses e rubro-negros já duelavam pelas melhores posições na tabela de classificação da primeira divisão nacional. Nos últimos cinco anos, ganharam quatro campeonatos. Só o surpreendente Corinthians de 2017 quebrou a série, mesmo assim, o vice naquele ano foi alviverde. O domínio se estendeu além fronteiras, pois as duas mais recentes Libertadores foram ganhas, respectivamente, por Flamengo e Palmeiras.

No Brasil, desde 2003 o campeonato é disputado em pontos corridos. Sete clubes o conquistaram nesse formato, Cruzeiro, Santos, Corinthians, São Paulo, Flamengo, Fluminense e Palmeiras. Neste século, contando os campeonatos ganhos em 2001 e 2002, últimas duas temporadas com mata-mata na reta final, mais um time entra na lista, o Athletico Paranaense.

Mas como tem sido nas maiores e mais importantes ligas europeias? Na Itália os nove últimos campeonatos registraram títulos seguidos da Juventus. O último campeão sem ser o time de Turim foi o Milan, em 2011, portanto há uma década. Antes disso, os tifosi viram cinco conquistas seguidas da Internazionale de Milão.

Nas últimas temporadas sem o scudetto ficando com um dos integrantes do trio que detém o maior número de conquistas no país, a Lazio faturou em 2000 e sua rival, Roma, em 2001. Fora os três e os dois romanos, a Sampdoria em 1991 e o Napoli em 1990 ganharam o campeonato italiano nas três décadas mais próximas. Nenhum outro entrou no "clube" desde então.

Hoje a Juventus tem 36 títulos nacionais, a Inter 18, assim como o seu rival local, o Milan. Depois vêm Genoa, que tem nove, todos concentrados nos primórdios do calcio, o primeiro em 1898 e o último em 1924. São 16 campeões desde a última década do século 19 e apenas três a partir da temporada 2001/2002, Milan, Internazionale e Juventus.

A Alemanha é menos concentrada, tem a salva de prata entregue ao campeão da primeiras divisão mais rotativa, apesar dos oito títulos seguidos do Bayern Munique nas temporadas mais recentes. O Borussia Dortmund, último campeão além dos bávaros, faturou em 2012. Fora os dois, antes quem levantou o título foi o Wofsburg, em 2009. Neste século e desde 2003, quando o Brasil aderiu ao formato atual de disputa, só mais dois tiveram a honra, Stuttgart e Werder Bremen, totalizando cinco.

A França passou a viver essa realidade desde que o Qatar adquiriu o Paris Saint-Germain. O time parisiense foi campeão em sete dos últimos oito anos, incluindo os três mais recentes. Neste século, também foram campeões franceses o Monaco, que interrompeu a série do PSG em 2017; Montpellier, Lille, Oympique de Marselha, Bordeuax e Lyon, que então fechava uma sequência de sete títulos.

Desde 2003, ano da adesão dos pontos corridos no Brasil, a lista é a mesma, o seja, a França tem tantos campeões no período quanto o campeonato brasileiro, sete. No entanto, há um clube disposto a dominar por completo, embora enfrente dificuldades para confirmar o título na atual temporada. Maior campeão do futebol francês, o Saint-Etienne não vence o certame desde 1981, quando o faturou pela décima vez.
Se for o ganhador do campeonato 2020/2021, o PSG irá se igualar, com uma dezena de títulos nacionais.

Na Espanha, que há tempos desperta essa preocupação, daí, claro, o termo espanholização, Barcelona e Real Madrid ganharam nada menos do que 15 dos últimos 16 campeonatos, entre eles os seis mais recentes. No século, os campeões foram os dois gigantes, Atlético de Madrid e Valencia. A lista é a mesma se contarmos desde 2003, ou seja, enquanto o Brasil viu sete campeões, lá foram quatro. Antes deles, o último campeão foi o Deportivo La Coruña, no já distante ano 2000.

A Inglaterra é vista por muitos como exemplo, dada a quantidade de times que venceram a rica e badalada Premier League nas últimas oito temporadas: cinco campeões diferentes nas últimas oito temporadas. O campeonato brasileiro teve quatro neste período. No século foram seis campeões, Arsenal, Manchester United, Chelsea, Manchester City, Leicester City e Liverpool. E desde 2003 os mesmos.

Nos nove últimos anos, dominados pela Juventus na Itália, por exemplo, os ingleses viram cinco campeões, Manchester City, Manchester United, Chelsea, Leicester e Liverpool. No entanto, nos quatro últimos anos, incluindo a temporada que está por se encerrar, apenas Manchester City e Liverpool disputaram para valer e ergueram a taça. A espanholização parece uma tendência. Da Inglaterra ao Brasil. Mais do que nunca dinheiro e gestão decidem o jogo.