Domènec Torrent chegou ao Flamengo em agosto de 2020. Na bagagem da Espanha para cá, o treinador tinha nada mais, nada menos que a missão de substituir Jorge Jesus. Para isso, então, iniciou os trabalhos assim que pousou no Rio de Janeiro. Quis ir logo conhecer as instalações, o grupo de jogadores, a comissão técnica permanente, a diretoria. Tudo. Imergiu no trabalho e nos estudos já nos primeiros dias e hoje fala até um português satisfatório.

Mas a disposição apresentada não foi suficiente para dar sequência à brilhante passagem do português pela Gávea. O início à frente do clube carioca não foi fácil, Dome teve de conviver com as derrotas e uma defesa bem vulnerável -- algo bastante incomum com Jesus, que deixou o Rio com mais títulos que derrotas (ao todo, foram seis taças e apenas quatro jogos perdidos enquanto esteve aqui).

O que houve com o time, praticamente campeão de tudo, e maioral no Brasil, para mudar tão rápido e apresentar problemas, ainda que os jogadores fossem os mesmos?

Dome quis mudar (e muito) logo de cara

Logo que chegou, o ex-auxiliar de Pep Guardiola quis mexer no padrão de jogo do Flamengo. E isso custou caro. Diferentemente de como jogava o time de Jesus, Torrent gosta de ter uma equipe mais posicional. Ou seja, enquanto os jogadores eram instruídos a imprimir velocidade e ser verticais no antigo trabalho, as coisas mudaram com o novo comandante.

Se Bruno Henrique e Gabigol circulavam bastante, com Jesus, e eram livres para buscar espaço e ludibriar as defesas adversárias, eles passaram a cumprir mais suas posições. O mesmo aconteceu no meio-campo, o que dificultou o trabalho de Gerson, Arrascaeta e Everton Ribeiro, acostumados a jogar mais centralizados.

O trio, que era bastante móvel e estava bem entrosado no modelo vertical que terminou nos títulos da Libertadores e do Brasileirão, precisou se adaptar à proposta do catalão, que passou a abrir mais Arrascaeta e E. Ribeiro. 

Houve também algumas improvisações, como a de Rodrigo Caio na lateral direita quando Rafinha deixou o Flamengo -- a situação se resolveu com a contratação do chileno Isla --, e problemas de desfalque. O Rubro-negro conseguiu se superar, apesar das baixas no elenco, e hoje começa a apresentar as primeiras características do espanhol.

Flamengo começa a ter a cara de Dome

Ex-auxiliar de Pep Guardiola, Dome chegou ao Flamengo com expectativa alta. Depois de tentar mudar o padrão de Jesus de forma drástica, se levarmos em conta o momento em que o clube vivia com o português, aos poucos o espanhol vem desenhando o seu time e dando cara ao que acredita ser o melhor no futebol.

Além de pressionar menos na marcação em boa parte do jogo – se pegarmos o trabalho de Jesus, o Fla apertava e empurrava os adversários --, a equipe de Dome, ao estilo Guardiola de ser, aposta em jogadores bem abertos, ocupação de toda a faixa do campo e pontas típicos no ataque.

O sistema, no entanto, demorou a funcionar porque Bruno Henrique, às vezes isolado na ponta esquerda, não rendeu bem. O cenário se repetiu com Vitinho, Pedro Rocha e Michael, quando utilizados na função.

Recentemente, as vitórias começaram a surgir e Dome ganhou “paz” no comando rubro-negro. Elas vieram porque ele passou a explorar meias na função de beirada.

Foi o caso de Everton Ribeiro, na partida contra o Athletico Paranaense, e de Gerson, diante do Sport. O camisa 8 foi inclusive o grande destaque contra os pernambucanos: chamou jogo, regeu seu time, deu passes, armou as jogadas de fora para dentro.

Aqui, vale a ressalva a um movimento tático que mexe com a postura do Flamengo em campo na hora de atacar. Quando escalados mais abertos, Everton Ribeiro, Gerson e até Arrascaeta costumam carregar a bola para o meio. Parece apenas um detalhe, mas com essa movimentação o lateral, no caso Isla, pela direita, fica com o corredor livre para avançar. Isso melhorou o desempenho.

Por outro lado, o ataque deu uma reviravolta e passou a funcionar para valer. Muito graças ao talento de Pedro. Contratado para ser reserva de Gabigol, o atacante aproveitou as oportunidades, já que o camisa 9 perdeu diversos jogos por lesão, e hoje já é cotado inclusive para assumir de vez a titularidade da posição.

São 14 gols pelo Rubro-negro de um atacante que não é fixo de área, demonstra muita inteligência no pivô e em tabelas com os outros homens de frente e encanta até mesmo o treinador.

"A cada dia estamos melhores. Temos de entender o que houve no Equador [derrota para o Del Valle por 5 a 0, na Libertadores]. Esse dia foi chave para todos. Sou novo no Flamengo, mas sei o quão importante é esse time no mundo. O Pedro finaliza muito bem, mas não só isso. Ele traz muitas outras coisas positivas. Quando você tem problemas, pode descarregar a bola nele", afirmou Dome, recentemente.

Como passou a atuar em zona, o Flamengo precisa ter elementos capazes de improvisar em campo. Material humano não falta, principalmente com a fase que vive Pedro. Quando Gabigol retornar à melhor condição física, encaixar os dois atacantes será o próximo desafio de Dome. De qualquer forma, assim como foi muito criticado quando chegou e mexeu em algo que funcionava muito bem, o espanhol vai conseguindo implementar sua proposta de jogo, o time responde em campo e é preciso elogiar.

Ainda que não esteja na forma ideal, o Flamengo vai somando pontos no Brasileirão e já figura entre os primeiros colocados. Com tempo, e corrigindo os problemas que naturalmente existem na Gávea -- como a instabilidade ao longo de 90 minutos e o entrosamento da linha defensiva --, certamente o clube brigará pelos títulos nacionais e sul-americanos. 

O elenco é bom, capaz de jogar em mais de um modelo de jogo, e o técnico promissor. Use seus conhecimentos e faça suas apostas no Campeonato Brasileiro.