Há alguns anos, um debate aquece o futebol europeu e sul-americano: faz sentido e é justo o critério do gol fora de casa estabelecido nas principais competições mata-mata do mundo? Diante desta discussão, a Uefa acabou com a regra já em 2021/22, em decisão que atinge todos os torneios masculinos e femininos da Champions League, da Liga Europa e da nova Conference League.

A decisão, que afeta também os campeonatos de base da Europa organizados pela Uefa, repercutiu por todo o mundo. Além de o Velho Continente ser o grande centro do futebol mundial e ditar tendências para as outras confederações, o fim do gol fora de casa como critério pela Uefa foi comemorado e endossou o pedido de torcedores de outras regiões que também não concordam com este tipo de desempate.

A regra do “gol fora de casa” consiste em determinar o vencedor de um duelo mata-mata (ida e volta) quando há o empate no número de pontos e saldo de gols no agregado das partidas: o time que faz mais gols como visitante é considerado o vencedor.

Ou seja: se a ‘equipe A’ ganha o jogo em seus domínios por 1 a 0 e, na partida de volta, como visitante, perde por 2 a 1 para a ‘equipe B’, ela avança para a próxima fase por ter feito um gol fora de casa. Apesar de a regra ser antiga e ‘fazer parte’ do futebol, a cada temporada há o questionamento da opinião pública e de torcedores se ela é realmente justa. Na Europa, não cabe mais.

“A regra do gol fora de casa foi parte intrínseca dos torneios da Uefa desde que foi lançada. Porém, a abolição foi debatida em vários encontros nos últimos anos. Apesar de não haver unanimidade, muitos técnicos, torcedores e participantes do futebol questionavam a sua justiça. Hoje em dia a vantagem de se jogar em casa não é tão significativa quanto antes”, disse o presidente da Uefa, Aleksander Čeferin, ao anunciar a mudança no regulamento.

Quando e como surgiu o gol fora de casa?

media Clive Brunskill /Getty Images Sport via Getty Images

A Europa sempre foi o grande centro do futebol pelo mundo, com a América do Sul vindo na sequência principalmente no século passado. Atualmente, a disparidade aumentou e os sul-americanos não conseguem confrontar os europeus.

Nesta conta, diversos fatores influenciam: seja o crescimento do futebol europeu, a globalização, que permite maior intercâmbio de jogadores e enfraquece os times sul-americanos ou outras questões políticas e financeiras referentes aos continentes.

Fato é que, mesmo quando a América do Sul conseguia disputar em alto nível com a Europa, era no Velho Continente que as regras mudavam e novas tendências surgiam. Além da força das nações da região, pesa a influência da Inglaterra na modalidade. Criadores do esporte, os ingleses regem as regras e modernizam o jogo junto à Fifa.

Dentro deste cenário de dominância europeia, surgiu a regra do gol fora de casa em solo europeu. Quando? Na temporada 1964/65, uma vaga à semifinal da Copa da Europa (antigo nome da Champions League) foi definida na moeda (literalmente) e impulsionou a criação do critério de desempate.

Liverpool (ING) e Colonia (ALE) fizeram dois jogos sem gols: 0 a 0 na Inglaterra e na Alemanha. Sem a definição de um vencedor, ocorreu um terceiro duelo, em campo neutro -- Rotterdam (Holanda). O jogo terminou 2 a 2 e, para não ter que fazer uma quarta partida, os dirigentes decidiram que a melhor forma de apontar um classificado seria na moeda. Deu Liverpool no cara ou coroa, algo que deixou os alemães indignados.

Depois daquele episódio em março de 1965, a Uefa mudou o regulamento na temporada seguinte. Em caso de igualdade no número de pontos e saldo de gols, se classificaria a equipe que fizesse mais gols fora de casa.

À época, a regra resolveu o problema e surtiu efeito no jogo de futebol. Com ela, os visitantes não ficavam mais tanto na defesa e buscavam o gol, melhorando o espetáculo. Funcionou por mais de 50 anos, mas, segundo ex-jogadores, treinadores e especialistas da bola, o esporte mudou.

Uefa apresenta números: gol fora de casa influencia?

A Uefa sofria há pelo menos 10 anos uma pressão para acabar com o gol fora de casa. Arsène Wenger, que comandou o Arsenal por 22 anos (entre 1996 e 2018) e é um dos grandes personagens do futebol mundial, criticava bastante a regra antes de ela ser retirada do regulamento.

Na visão do ex-jogador, treinador e economista francês, o futebol mudou e não cabia mais o gol fora de casa. Para ele, a maioria das equipes havia aprendido a jogar no contra-ataque e, com este critério de desempate, o clube mandante ficava retraído, com medo de ser ofensivo demais em casa e levar um gol (que tinha praticamente peso dobrado). Desta forma, isso estava influenciando negativamente o jogo na opinião de Wenger.

Desde 2019, Wenger ocupa o cargo de Diretor de Desenvolvimento da Fifa. Ele tem por função propor mudanças no futebol para que o esporte se torne mais atrativo.

Para justificar a retirada da regra do gol fora, a Uefa disponibilizou algumas estatísticas oficiais de suas competições -- Champions League e Liga Europa. Dados registrados desde os anos 1970 no futebol masculino mostram uma redução na diferença entre vitórias dentro e fora de casa: se a relação triunfo casa/visitante era de 61%-19% quando a regra foi estabelecida, hoje está em 47%-30%.

Outro dado que embasou a decisão da confederação europeia foi o de gols anotados pelas equipes como mandante e visitante. O número médio de bolas na rede por jogo na relação casa/fora diminuiu substancialmente nas competições masculinas, criando também uma noção de igualdade.

Desta forma, na visão da entidade, não fazia mais sentido seguir com o critério do gol fora de casa, já que não influencia tanto no desempenho das equipes. A expectativa agora é para ver como e quando isso irá intervir concretamente no futebol da América do Sul e de outros continentes.

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