Considerado o torneio nacional mais disputado do mundo, o Campeonato Inglês costuma lançar tendências tanto para o futebol europeu, como para o futebol mundial. Uma dessas modas lançadas pelo país que inventou o esporte mais popular do planeta é o box-to-box.

A expressão, que ganhou bastante notoriedade nas décadas de 2000 e 2010, na verdade surgiu em 1960. O técnico inglês Alf Ramsey desenvolveu, à época, o sistema 4-4-2, no qual os meio-campistas têm função dupla no jogo: atacar e defender.

Desta forma, a formação que se tornou o padrão dos anos 2000 consagra a versão moderna do jogador de meio de campo. Ela [a versão] foi, inclusive, parte da evolução natural e progressiva até se chegar ao futebol atual, mais dinâmico, rápido e compactado.

Com este modelo de Ramsey, então, surgiu o box-to-box (de área a área, em tradução livre). Ou seja, é um jogador que ocupa todos os espaços do campo, pisando tanto na região de defesa, para compor a marcação, como na área ofensiva, como elemento surpresa na criação.

Na Inglaterra, às vezes a expressão é abreviada: BBM (box to box midfileder, ou meio-campista de área a área) ou B2B (box “two” box).

Mas, engana-se quem pensa que qualquer meio-campista que participe das duas ações (ataque e defesa) seja o atleta de box-to-box. A expressão deve ser utilizada para quem consegue ser bom nas duas funções.

Expressão box-to-box acompanhou evolução dos meias

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Naturalmente, o futebol passou por transformações desde que a expressão box-to-box foi criada, em 1960. De lá para cá, dá para dizer sem hesitar que o jogo está mais rápido e físico e, desta forma, há cada vez menos espaço para criações ofensivas.

O ‘quebra-cabeça’ que virou o futebol atual desenvolveu sistemas marcantes para a história da modalidade, a exemplo do Tiki-taka do Barcelona de Pep Guardiola, modelo que se opõe ao jogador box-to-box clássico.

No início da década de 2010, o time catalão dominava a posse de bola, trocava muitos passes e se movimentava bastante antes de abrir espaço na defesa adversária. Assim, a infiltração do jogador de meio nas jogadas ofensivas praticamente não existia, já que a equipe se movimentava em bloco.

Recentemente, um sistema mais vertical sucedeu o jogo de paciência e de controle de bola daquele Barcelona. O Real Madrid de Zidane (primeira passagem) e o Liverpool de Jürgen Klopp foram exemplos de sucesso desta nova versão: perde e pressiona muito mais intenso, contra-ataques velozes e mortais e lançamentos longos marcam o modelo.

Antes de os jogadores box-to-box se popularizarem, nos anos 2000, era muito raro ver um jogador com este perfil. Nas décadas de 1980 e 1990, o futebol se modificou, principalmente após os legados da Holanda de Johan Cruyff da Copa de 1974 e do Brasil de Telê Santana, no Mundial em 1982, mas as funções ainda eram muito definidas dentro do campo.

No meio, principal setor de uma equipe, havia o camisa 5, que funcionava apenas como cabeça de área e protetor dos zagueiros, focado na marcação; o camisa 8, que atuava como meia pela direita, mas sem muita obrigação defensiva; e, por último, o camisa 10, mais pela esquerda e responsável por armar as jogadas de ataque e colocar os atacantes em condições de balançar as redes.

Nos anos 2000, quando o 4-4-2 se popularizou e virou a principal tendência do futebol mundial (algo como aconteceu nos últimos anos com o 4-3-3 e o 4-2-3-1), o meio-campista passou a ser mais exigido. Aí a expressão viveu seu auge e consagrou grandes jogadores centrais.

Como joga um verdadeiro box-to-box?

O box-to-box clássico atua no meio, de frente para o jogo, virado para o ataque e para a área adversária. A principal função do jogador é conectar a defesa ao ataque. Como? Esses atletas necessitam ter um passe apurado, capaz de construir as jogadas e quebrar as linhas de marcação. Importante ressalva: este meia não é rápido e de muita movimentação a ponto de tocar e ultrapassar, para receber na frente. Ele passa a bola, não avança e aguarda. Depois, chega como elemento surpresa ao ataque.

“Para mim, ser um ‘box-to-box’ significa ser bom numa área e na outra. Significa defender bem num lado e ter a condição física e a resistência de chegar ao outro, onde deve ser bom marcando ou criando. Quando perde a bola, tem que chegar à outra área”, afirmou José Mourinho, em entrevista ao Daily Mirror.

Exemplos de jogadores box-to-box

Alguns grandes meio-campistas do futebol mundial representam o modelo box-to-box. Na Inglaterra, logo que o assunto vem à tona surge a dupla Frank Lampard e Steven Gerrard. Os ex-médios de Chelsea e Liverpool, respectivamente, dominaram a primeira década do século com um típico estilo de área a área. O mais curioso é que eles não tinham muitas referências sobre como se comportar em campo, e mesmo assim brilharam. Yaya Touré, Schweinsteiger e Arturo Vidal são outros exemplos de jogadores box-to-box que já se aposentaram.

Meias box-to-box do futebol atual

E no futebol atual, existem meias box-to-box? Paul Pogba é o principal nome da nova geração para o tema, mas no Manchester United há outro atleta cumprindo melhor a função: o garoto McTominay, de 24 anos, faz com ainda mais qualidade o serviço na equipe de Solskjaer. Modric, do Real Madrid, que já foi eleito o melhor do mundo, também é considerado um jogador com o perfil, bem como Keita, do Liverpool.

Existe jogador box-to-box no Brasil?

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No futebol brasileiro, a função é menos presente, uma vez que os times prefiram, neste momento, o 4-2-3-1 e o 4-3-3 e o jogo é mais lento. Ainda assim, dá para encontrar as características da expressão inglesa em Gerson, do Flamengo.

O meio-campista, que passou duas temporadas na Itália (Roma e Fiorentina), exerce o papel no time rubro-negro. Ele participa bem na defesa e é o construtor das ações ofensivas, sempre virado para frente e com bom passe. Lento por natureza, Gerson usa a inteligência para aparecer como surpresa no ataque, geralmente com bons chutes de média distância.

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