De certo modo, a escalada rumo ao cume do Everest começa anos antes do escalador sequer pisar no Nepal. Ou, pelo menos, este deveria ser o caso.

Os acontecimentos deste ano, com filas enormes de alpinistas esperando sua vez de chegar ao topo da montanha mais alta do mundo, enquanto sofrem os efeitos do frio e da altitude por horas além do ideal, desencadearam uma importante discussão do que pode ser feito para diminuir os riscos para os que desejam se aventurar nas montanhas do Himalaia.

Para entendermos melhor a situação atual e o desafio de tentar subir ao topo do Everest, conversamos com dois experts no assunto: Manoel Morgado, que chegou ao cume em 17 de maio de 2010, aos 53 anos, e Ayesha Zangaro, que atingiu o ponto mais alto do Everest em 20 de maio de 2018, aos 23 anos, tornando-se a mais jovem brasileira a conseguir este feito incrível.

A jornada para o Everest começa em Katmandu, capital do Nepal, de onde saem as expedições de diversos grupos e agências de logística. De lá, um voo até Lukla, cidade que está a 2.860m acima do nível do mar e é o principal ponto de acesso ao Himalaia. A partir daí, de acordo com Ayesha Zangaro, “os primeiros dias são o trekking de aproximação até o campo base. Demora, geralmente, 9 dias, contando com uma aclimatação bem-feita e cuidadosa”. Em média, a experiência toda leva 2 meses, desde o voo à Lukla até o retorno para Katmandu.

Durante todo este período, o escalador está sujeito a uma série de situações adversas, que testarão seus limites físicos e mentais. Para Manoel Morgado, quem se atreve a escalar o Everest deve levar o preparo muito a sério. “Minha escalada foi razoavelmente tranquila, pois estava muitíssimo bem preparado, tanto em termos físicos como em termos de experiência, com mais de 30 anos de montanha. E tive muita sorte com o clima. Mas, mesmo assim, o Everest é uma montanha muito exigente física e psicologicamente. Estar no campo base, um dos lugares mais extremos do planeta, por dois meses é muito difícil. Lidar com a ansiedade de ‘será que vou dar conta? Será que o clima vai ajudar? Será que vou ficar doente?’, tudo isso, por tanto tempo, é muito complicado”.

A subida é longa e demorada. Fazer tudo com pressa pode ser fatal, como relata Manoel: “muita gente morre na descida, já que, muitas vezes por não ter a experiência necessária, não sabem quanta energia ainda têm no corpo, dão tudo para chegar no cume e não sobra para a descida”.

O acampamento base fica a 5.364m acima do nível do mar. Para se ter uma ideia, a cidade mais alta do mundo, La Rinconada, no Peru, está aproximadamente 200 metros abaixo disso. A 5.800m, o acampamento base-avançado oferece uma possibilidade de descanso, após a passagem pela exigente e imprevisível cascata de gelo.

O acampamento 2, que possui melhor estrutura que o anterior, já fica a 6.400m de altura, o que reduz os níveis de oxigênio a condições extremas. Para efeito de comparação, o monte Denali, no Alaska, possui 6.190m.

O próximo acampamento é o 3, que fica a 7.300m. Quer imaginar como é respirar e praticar esporte de alta performance nesta altura? Imagine jogar bola em La Paz, na Bolívia, o que é uma discussão bastante comum no mundo da bola. Agora dobre esta dificuldade de respiração, e você terá uma ideia do que é estar no acampamento 3 do Everest.

 O último acampamento é o 4, que fica a quase 8.000m, e já pode ser classificado como dentro da “zona da morte”, onde a eficiência de oxigênio é de um terço em relação ao nível do mar. De lá, atravessa-se alguns pontos de altíssimo risco, e segue-se o ataque ao cume, que fica a 8.848m.

E onde estão os principais riscos desta escalada? Há algum ponto que mereça ainda mais atenção do que o normal, para um desafio como este? Para Ayesha e Manoel, há duas situações em que o alpinista deve tomar cuidados extras: a cascata de gelo (Khumbu Icefall) e a zona da morte.

“O Everest tem várias partes delicadas. A cascata é a parte mais inclinada do glaciar que desce do cume da montanha até seu campo base e, com isso, o gelo se fragmenta criando um caos de grandes blocos de gelo, alguns com mais de 30 metros de altura, que podem despencar a qualquer momento”, diz Manoel Morgado. Ayesha concorda: “é um lugar muito instável. Dependendo da temperatura ou outros fatores externos, é um lugar que se mexe”.

Entretanto, mesmo com toda a dificuldade que o Everest impõe aos que buscam vencê-lo, montanhistas cada vez menos experientes se propõe a desafiar o monte. A soma de diversos fatores já faz do ano de 2019, um dos mais catastróficos em número de mortes na montanha. Ayesha Zangaro elencou alguns destes fatores que colaboraram para um dos anos mais mortais da história do Everest. “Cada vez mais, o Everest tem chamado a atenção de pessoas com menos experiência. Além disso, há também o lucro do governo do Nepal. Montanhismo é a maior fonte de renda do país. As poucas janelas de bom tempo que tivemos nesta temporada, o uso de permissões antigas, que espiravam este ano e empresas pouco qualificadas vendendo serviços de logística” são alguns dos elementos que ela considera responsáveis pela atual situação do Everest. Para Manoel, as coisas não devem mudar tão cedo. “O Nepal jamais vai limitar o número de escaladores. O país vive de turismo e é muito pobre. A única maneira de fazer algum controle disso seria as empresas aceitarem somente quem tem a experiência necessária para uma montanha como o Everest. Mas, isso nem sempre acontece”.

Mas que experiência é essa? O que qualificaria alguém a subir o Everest? Manoel Morgado compartilha seu ponto de vista: “Acho difícil quantificar experiência, mas creio que, no mínimo a pessoa teria de ter feito um curso de escalada em neve, gelo e rocha básico e um curso avançado. Ter escalado um ou mais montes de 6.000m, como o Denali, para mim uma das mais importantes escolas para o Everest, e ter escalado um monte de 8.000m mais fácil, como o Cho Oyu ou o Manaslu. No Denali, cada um começa a escalada com 50 quilos entre o trenó e a mochila, tem de montar seus acampamentos e construir um muro de blocos de gelo ao redor da barraca por conta do vento. Se der conta disso, está pronto fisicamente para o Everest, onde os sherpas farão a maior parte do trabalho físico”.

No final das contas, o Everest continua sendo o grande objetivo dos mais aventureiros, mas também segue como um dos locais mais mortais da Terra. Entre as montanhas mais altas do mundo, é a única que já tirou mais de 100 vidas, com a contagem atual em 308 mortes. Para se ter uma ideia, se o Everest fosse um jogo de apostas em cassino, ela definitivamente teria uma das menores chances de vitória. Em 2015, o terremoto que devastou o Nepal também fez vítimas no Everest, com uma série de avalanches que atingiram acampamentos e arrastaram tudo pelo caminho. Por conta disso, este se tornou o ano com mais fatalidades na história da montanha, chegando à marca de 19 mortes entre 25 de abril, dia do desastre, e 1º de maio.

Outro ano que ficou famoso por sua alta contagem de vidas perdidas foi 1996, em que uma tempestade inesperada ceifou 15 vidas. Esta história foi retratada no livro “Into Thin Air”, de Jon Krakauer. Em 2015, o filme “Everest”, que foi baseado na história contada por Krakauer, chegou aos cinemas.

A maior montanha do mundo seguirá sendo um dos lugares mais fascinantes e perigosos do planeta por muito tempo. Histórias como as de Ayesha Zangaro e Manoel Morgado se repetirão, ganharão novos protagonistas e continuarão a impactar as vidas de muitos que reconhecem os sacrifícios que quem se propõe a subir, deve realizar.

 

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