Já ouviu falar da fosfina? Ela pode ser um novo capítulo na busca por vida extraterrestre, podendo mudar drasticamente os rumos da ciência. Para se ter uma noção, encontrar vida fora da Terra é uma missão que se consolidou na Guerra Fria, quando a Corrida Espacial estava com tudo. Logo de cara, a Lua foi descartada e o preferido foi Marte, que por sinal continua como candidato mais forte até hoje. Mas talvez esse cenário esteja para mudar e um outro forte - e inesperado - concorrente entre no páreo exatamente por causa da fosfina. Estamos falando de Vênus.

Tudo começou quando dois rádio telescópios, um no Chile e outro no Havaí, estavam testando um modelo de identificação de fosfina, uma substância tóxica, fora da Terra para compará-lo com o modelo terráqueo para a produção dela. Eis que para a surpresa dos cientistas, a molécula foi encontrada em quantidades consideráveis na atmosfera de Vênus.

Desde então, o achado estampou diversos portais de notícias… mas por que? Apesar da sua toxicidade, a fosfina pode ser um forte indício de vida. Em outras palavras, o planeta alaranjado que nem era considerado quando a discussão era vida fora da Terra subiu alguns lugares no ranking. Mas para entender melhor essa história, é importante começar pelo o que é a tal da fosfina.

Fosfina: o que é?

Fosfina é um gás tóxico e incolor altamente inflamável e explosivo e sua inalação pode até causar danos no pulmão. Aqui na Terra geralmente é encontrada em lugares como pântanos, pilhas de fezes de pinguins e intestinos de texugos. Talvez lendo isso você se pergunte como que essa molécula pode ser sinônimo de vida.

Na realidade, pesquisadores já estudaram muito a fosfina e acontece que está mais do que comprovado que essa substância pode ser produzida de duas formas. Uma é em condições extremas, como as que compõem Júpiter e Saturno, dois planetas gasosos com elevada temperatura e pressão. Outra, vista como a única possibilidade para planetas rochosos, como é o caso da Terra e de Vênus, é a produção a partir de bactérias anaeróbicas, ou seja, que não precisam de oxigênio. 

O xis da questão está exatamente em como que a fosfina foi aparecer em Vênus, um planeta que até então era tido como um lugar sem nenhuma forma de vida e sem as tais das condições extremas necessárias para produção dela. É aqui que a discussão se intensifica.

E se a fosfina for prova de vida em Vênus? E se não for?

As discussões acerca do assunto são inúmeras e polêmicas, mas podemos simplificar e dizer que os cientistas estão nos extremos: alguns acreditam que não é possível a fosfina ter sido criada sem alguma forma de vida por trás, outros acham que é. 

A justificativa dos que acreditam que existe vida por trás do aparecimento de fosfina é a ausência das condições necessárias. Isso, porque Vênus não conta com pressão e temperaturas altíssimas, elementos que seriam necessários para a fosfina ser criada quimicamente (ou seja, sem precisar de alguma forma de vida). Como citado, os lugares onde a fosfina é encontrada na Terra, por exemplo, são em ambientes onde habitam bactérias anaeróbicas, como pântanos e intestinos de alguns animais.

Outra hipótese é que a origem da fosfina nada teve que ver com a existência ou não de vida em Vênus. Os cientistas que defendem essa opinião afirmam que o gás teria surgido a partir de vulcões. Basicamente, essa teoria acredita que fosfetos formados dentro dos vulcões de Vênus seriam lançados à atmosfera, onde poderiam reagir com água ou ácido sulfúrico e finalmente chegar à fosfina.

Parece redondinha essa teoria, não é? Mas pelo visto tem mais falhas que um olho leigo possa perceber. Acontece que foram feitos cálculos para entender a quantidade de fosfetos que deveria ser produzida pelos vulcões para a teoria ser válida. Levando em consideração a quantidade total de fosfina encontrada no planeta (por volta de 27 bilhões de kg), chegaram à conclusão que os vulcões venusianos precisariam produzir 93 kg cúbicos de lava por ano para criar fosfetos o suficiente. Para isso, seria pré-requisito que Vênus tivesse muito, mas muito mesmo, magma - algo que ainda é incerto também.

Além dessas duas principais, há ainda a possibilidade de que outros processos químicos que podem não ter sido considerados por causa das condições do planeta estejam gerando a fosfina. Isso pode acontecer tanto pela crença que eles seriam inviáveis na realidade venusiana como pelo fato de poderem ser desconhecidos pelo homem. Se for o caso, entra aqui uma outra possibilidade de revolucionar a ciência e a forma como os processos são estudados.

Já existe um veredicto?

Ainda não e provavelmente vai demorar para ter. O assunto não é um simples capricho, mas é bem sério e, em caso positivo, terá grandes impactos para a ciência. Aqui é importante saber que durante muitos anos as pesquisas partiam do princípio de que se há água e energia, há possibilidade de vida. Se for provado que  a fosfina é um indício de vida, esse cenário muda drasticamente.

Basicamente, se a resposta for positiva e existir microrganismos em Vênus, um novo entendimento do que é preciso para a criação de vida deverá se formar, afetando inclusive a forma com que o Universo é visto e estudado. Afinal, assim como Vênus já tinha sido descartado do páreo de planetas com vida, vários outros não são nem cogitados por não terem as condições de água e energia.

Ao mesmo tempo, para provar que a fosfina não é prova de vida também não será necessariamente uma tarefa simples. Como vimos, muitos cálculos e estudos precisam ser realizados no planeta para entender como que a fosfina apareceu por lá - ou seja, se ele teria tanto magma para comprovar a teoria dos vulcões ou se ele hospeda processos desconhecidos pelo homem.

A descoberta da fosfina é nova, mas ao mesmo tempo velha

Apesar da surpresa para a comunidade científica, a descoberta de fosfina em Vênus poderia ter chegado antes. Mais precisamente, 42 anos atrás. Na época, o instrumento Large Probe Neutral Mass Spectrometer (LNMS) foi enviado ao planeta e coletou amostras da atmosfera, que depois foram analisadas por um laboratório padrão focado em identificar produtos químicos.

Na época, nada foi achado, mas em uma releitura atual dos dados coletados nas áreas que seriam mais habitáveis da atmosfera de Vênus, o cenário mudou. Desta vez, foram identificados traços muito parecidos com fosfina e fortes evidências de átomos de fósforo na atmosfera.

Apesar dos dados terem passado batido, vale lembrar que na missão do LNMS o foco não era achar fosfina ou compostos similares e, por isso, teria muito mais dificuldade de distingui-los.

Mas isso não foi tudo. Nessa releitura, houve outra descoberta que pode contribuir com a teoria de vida no planeta. Nos dados coletados pelo LNMS, substâncias como cloro, oxigênio e peróxido de hidrogênio foram encontrados. Em outras palavras, isso pode significar que há vários outros produtos químicos na atmosfera de Vênus que ainda não foram identificados e que podem ser indícios de vida.

Com todos esses dados e dúvidas levantados, mais explorações serão feitas no planeta para tentar começar a explicar alguns deles. Até lá, não há como chegar a uma conclusão.

O que você acha: fosfina é ou não sinal de vida em Vênus? Não deixe de se divertir com a nossa página de Caça Níquel Online.