Você consegue contar nos dedos quantas vezes contou uma mentira no seu emprego mais recente? Estudos da Universidade de Massachussets sugerem que mentimos uma vez a cada dez minutos de conversa, em média. No trabalho, nossa postura não é muito diferente.

Das 130 pessoas questionadas pela Betway em uma pesquisa quantitativa realizada online, apenas 1 respondeu nunca ter mentido no trabalho. Podemos presumir, portanto, que somos todos mentirosos? A resposta é sim: todos estamos passíveis a mentir em algum momento da vida. Mas que tipo de mentiras contamos no ambiente corporativo? É isso que você vai descobrir na análise exclusiva realizada pela nossa equipe de jogos de cassino online.

As boas relações de trabalho não se resumem a entregas pontuais e satisfatórias. Esses pontos podem, muitas vezes, serem ajustados ao longo do tempo a partir de feedbacks e adaptações à rotina da empresa. Além das soft skills e do respeito coletivo, a base dessas relações, como também das nossas pessoais, é a confiança. “O poder reputacional é muito importante, mas demora a ser construído. É baseado nas nossas entregas, nas nossas experiências… A confiança é o que temos de mais importante. A pessoa que mente no currículo, por exemplo, já está quebrando isso”, explica o psicólogo clínico e organizacional Fredy Figner (CRP 06-160128).

Mas, afinal, por que mentimos?

Por que contamos mentiras mesmo sabendo que, fazendo isso, colocamos em jogo o que temos de mais importante: a confiança? A psicóloga clínica e psicanalista Gabriela Souza (CRP 06/164297) aponta que mentir é um processo psicológico ao qual todos estamos expostos. “Nesse processo, a pessoa deliberadamente tenta convencer outra a aceitar aquilo que o próprio indivíduo sabe que é falso, em benefício próprio ou de outros, para maximizar um ganho ou evitar uma perda” -- no caso, a oportunidade de emprego.

“Podemos associar a insegurança e a ansiedade presentes no medo de contar a verdade, principalmente nos meios de trabalho. Mas é necessário entender a mentira como um fenômeno central nos relacionamentos pessoais, não podendo a mesma ser encarada necessariamente como anormal”, continua.

A análise da Betway concluiu que as principais mentiras contadas no dia a dia das empresas  buscam justificar a ausência em horário comercial, seja no modelo presencial ou home office.  Além disso, dizer que gostou de um trabalho que não agradou tanto também ocupou o pódio das lorotas mais contadas. Confira o infográfico abaixo. Ele te convida a uma reflexão: essas frases têm rolado muito no seu time?

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Atualmente muitas empresas têm adotado políticas de horário mais flexíveis, o que pode colaborar para reduzir, em um futuro próximo, as mentiras que acobertam ausências. Por isso, esse tipo de mentira frequente pode indicar um desalinhamento com a cultura de onde você trabalha, diz o Dr. Figner. “Ao entrar em um novo emprego, é importante se atentar às normas e regras. Se você não se identifica, isso pode levar a essas mentirinhas. Cabe ao candidato ter discernimento de qual empresa escolher”.

Mas nem sempre é possível escolher onde trabalhar. Para a Dra. Andrea Deis, 48, Gestora Empresarial pela FGV, especialista em Neurociências que atua há mais de 30 anos na área de RH, o desemprego pode colaborar para que as pessoas tenham mais impulso de mentir, especialmente na fase de contratação. “Além disso, o mundo está incerto e estamos passando por um momento de mudanças na empregabilidade. A mentira protege”, explica.

Vale tudo para conquistar uma vaga de emprego?

Um levantamento realizado pela empresa de recolocação profissional DNA Outplacement em 2019 mostrou que, no Brasil, 48% dos currículos analisados tinham distorção no tema salário atual ou mais recente. Na análise exclusiva da equipe de Cassino da Betway, 50% das pessoas revelaram já terem mentido no currículo em diferentes momentos da carreira -- algumas tentando entrar no mercado de trabalho pela primeira vez, outras tentando migrar de empresa ou até de área de atuação. Confira:

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Em respostas anônimas, alguns participantes da pesquisa compartilharam os motivos pelos quais mentiram em processos seletivos, e as razões são variados: um participante não queria compartilhar que havia sido demitido no emprego anterior, enquanto outro omitiu a própria religião por conhecer a crença da dona da empresa e ter medo de sofrer algum tipo de preconceito.

Na pesquisa da Betway, 46% das pessoas confessaram já terem exagerado o nível de alguma habilidade no currículo ou durante alguma entrevista de emprego. É uma decisão arriscada: você pode ser pego durante a criteriosa apuração dos departamentos de Recursos Humanos, mas, se passar ileso, pode acabar se enrolando durante a rotina de trabalho do time para o qual foi recrutado.

É importante ter em mente o tamanho do risco que você se dispôs a correr para que você não comprometa as metas da empresa e, mais importante, não crie problemas para si mesmo, como ansiedade ou sentimentos de impotência. “Mentir deliberadamente pode trazer mais angústia do que prazer para pessoas sem nenhum transtorno de personalidade envolvido. Desconsiderar a realidade, a verdade, pode ser a causa de muito sofrimento para si mesmo e para o outro”, afirma a psicóloga Gabriela.

No currículo, os candidatos geralmente omitem a informação que não concluíram um curso e ou faculdade. “Colocam simplesmente o curso de administração, sem mencionar a data de início e

fim, e quando perguntamos durante a entrevista, dizem que o curso está trancado. Além disso, alteram a data do período de experiência, alterando a data de saída do último emprego para não mostrar que ficaram muito tempo desempregados”, afirma Daniel Machado Campos Neto, 42, CEO da Consultoria de RH EDC Group. Os trejeitos dos candidatos na entrevista presencial também denunciam as mentiras contadas no processo seletivo. É recomendado que os currículos recebidos pelas consultorias não sejam passados adiante sem uma triagem com pessoas. “A triagem feita por inteligência artificial não basta”, defende.

Em 11 anos de experiência, a Coordenadora de Aquisição de Talentos Jaqueline Valinhos, 30, aprendeu que a mentira acaba sendo parte natural dos processos seletivos: “É muito frequente. Quando a gente olha o currículo, até no momento da entrevista, a gente percebe que a pessoa aumenta demais. Por que  é natural, né? A gente vai vender o nosso peixe”, diz. Ela lembra que certa vez contratou uma pessoa que mentiu a idade no currículo, mas, nesse caso, a pessoa estava tentando driblar o preconceito. “Eu cheguei a admitir uma pessoa que citou que tinha 41 anos e tinha 55. Existem muitas empresas que existem um preconceito de idade… Aí, [nesses casos] se a pessoa coloca 55 anos no currículo, já é barrada. Eu não perguntei a idade na entrevista porque não achei necessário, mas na hora de verificar a documentação da admissão, acabei vendo lá [a idade real]”.

Você deve estar se perguntando: o que pensa quem mente no processo seletivo e acaba sendo contratado? Nós também fizemos essa pergunta no nosso questionário, além de analisarmos como funciona o processo de apuração dos setores de recrutamento:

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E quando você tem o emprego, mas perde a confiança?

Em suas passagens por quatro startups de diferentes setores do mercado, o gerente de marketing Gustavo Abreu*, 27, lidou com duas situações em que a mentira abalou a sua relação com colegas diretos de trabalho. Em uma situação, com o seu líder. Na outra, com seu liderado. Em nenhuma delas as mentiras foram contadas por Gustavo.

“Uma coisa é o liderado mentir, outra coisa é o líder mentir. Ele impacta mais pessoas ao criar expectativas. Ele está brincando com vidas, com pessoas que depositam expectativas nele”, afirma Gustavo. “A expectativa de um líder sobre um liderado é que ele se desenvolva, atenda as demandas, cresça ali, porque isso é bom pro líder também. Já no oposto, o liderado tem expectativa no líder de que ele vai conseguir crescer, entregar um determinado trabalho, participar de um projeto que ele gosta. Eu acho que fica muito mais pessoal pro liderado quando o líder mente. Eu já passei por isso. É muito ruim quando um líder mente e você não pode confiar nele. Não ter metas realmente claras já é um problema, e mentir em relação a elas é pior ainda.”

Nessa empresa, Gustavo conta que tinha que lidar com situações das mais variadas, que desafiavam a relação de confiança entre ele e seu líder. Apesar de responder diretamente para o dono da corporação, era difícil saber como administrar as situações em que era colocado. Ele conta que rotineiramente via projetos próprios serem desmontados em conversas públicas na empresa, sem que ele fosse consultado previamente, e até chegou a viajar a trabalho com garantia de seu líder de que tudo estava pago, e ao chegar no destino, foi barrado na entrada. “Uma situação super chata. Eu não tinha R$ 12 mil de limite para segurar a reserva da viagem. No fim deu tudo certo, mas não podia confiar na empresa mesmo”, conta.

Em um outro emprego, no qual liderava um time de 7 pessoas, Gustavo lembra que se sentiu rendido ao perder a confiança em seu liderado. Ele descobriu que um funcionário do seu time estava utilizando o aplicativo de motorista particular corporativo para fins pessoais. “Descobrir que ele estava fazendo isso pra lazer me deixou numa saia super justa. Era uma pessoa que precisava muito do emprego e eu tive que negociar para que não fosse justa causa, porque não tive como evitar a demissão”, revela. “Pra ele, eu disse que é um recurso da empresa. E que se ele não soube usar, talvez não esteja pronto pra usar outros recursos também. Porque a ascensão profissional exige confiança”.

Os casos vividos por Gustavo destoam das mentiras brandas contadas no ambiente de trabalho e marcam episódios mais graves, que prejudicam a empresa, os times e, no fim, os colaboradores, visto que uma das histórias acabou em demissão. Uma análise feita pela escritora Carol Goman, que por anos contribuiu para a revista Forbes, mostra os tipos de mentirosos que você pode encontrar pelos corredores dos escritórios (ou pelos chats e caixas de e-mail, em tempos de home office):

Os tipos de mentirosos que você vai esbarrar no trabalho

Mentirosos ocasionais

Esses são a maioria de nós. Não gostamos de mentir, mas mesmo assim o fazemos vez ou outra.

Mentirosos frequentes

Mais confortáveis com a mentira, mesmo sabendo que ela é errada na maioria das vezes. Por mentirem com mais frequência, são mais difíceis de detectar.

Mentirosos habituais

Esses contam mentiras automaticamente e sem nenhum esforço. É um comportamento natural.

Mentirosos patológicos

Mentirosos compulsivos, com frequência por nenhuma vantagem aparente, e têm total crença na veracidade das próprias mentiras. São mais raros.

*Fonte: GOMAN, Carol. The Truth About Lies in the Workplace, pg. 9.

Muito provavelmente você convive, em maioria, com Mentirosos Ocasionais, Mentirosos Frequentes e os Habituais -- os mais comuns. Esses podem contar mentiras brandas e também mais graves, mas cada pessoa é uma, difícil colocá-las em caixinhas e definir o que leva cada um a contar uma ou outra mentira no espaço corporativo.

No caso das mentiras brandas, há esperança de remediação, afinal, não são casos inteiramente ligados ao caráter das pessoas. “Quando funcionários mentem com medo de algum tipo de repressão, um medo que não precisaria existir, eu tento entender como posso deixar essa pessoa mais a vontade: abrir o jogo, falar que já fiz a mesma coisa… O líder precisa deixar o liderado a vontade para falar tudo e quebrar a barreira do medo”, defende Gustavo.

Se a mentira é comum e natural do ser humano, será mesmo difícil bani-la das nossas relações pessoais e profissionais, mas é possível aprender a lidar com essa nossa característica a partir de relações mais saudáveis e humanas. Na leitura da psicologia, mostra a Dra Gabriela, o segredo para diminuir o número de mentiras é mesmo estimular a autoconfiança dos colaboradores. “Quanto mais a pessoa sentir-se segura no ambiente de trabalho, menores são as chances da mesma sentir a necessidade de mentir sobre algo”, encerra.

*Nome fictício para preservar a identidade do entrevistado.