Uma pesquisa feita no Rotten Tomatoes elegeu Dark como a melhor série original Netflix. A produção criada por Baran Bo Odar e Jantje Friese interliga quatro famílias da pequena cidade de Winden por meio de laços temporais e consanguíneos e segredos. 

Fechada em três ciclos, a série alemã mostrou não apenas maturidade e excelência em seu desenvolvimento, mas também nos entregou um dos finais mais esperados, simbólicos e surpreendentes da última década.

Quais são, no entanto, os motivos que destacam Dark das outras séries da Netflix? 

Um roteiro extremamente bem amarrado 

Em suas duas primeiras temporadas, Dark conseguiu montar um enorme quebra-cabeças, de fritar o cérebro até dos telespectadores mais atentos. Tudo isso partindo de uma premissa simples: no interior da Alemanha, o suicídio de um homem e o desaparecimento de um adolescente desencadeiam uma série de acontecimentos misteriosos e põe antigos segredos de quatro famílias em xeque. 

A partir daí, a série caminha para uma trama nebulosa que ultrapassa as barreiras do tempo e, para cada resposta que conseguimos, ganhamos com duas novas perguntas. 

Como a história não se passa em ordem cronológica, é preciso muita atenção para entender os acontecimentos e as motivações dos personagens – e é por isso que a série prende tanto o telespectador. Isso sem falar nos plot twists, que marcam alguns dos melhores momentos das temporadas. Na terceira, vale dizer, não é diferente. 

Visualmente impecável

Dark não nos oferece somente um roteiro impecável, mas também é extremamente bem feita nos quesitos técnicos. Visualmente, todo os cenários são construídos para fazer jus ao nome: as cores são opacas e cinzentas, a atmosfera é sombria e depressiva, e algo sempre parece estar escondendo nas florestas frias de Winden ou na chuva torrencial típica dos episódios. 

A ambientação temporal também é um ponto alto da obra, que tem cenas em três diferentes épocas. Outro fator que se destaca é a edição dos episódios. Os cortes de cenas têm também função didática, especialmente para mostrar os mesmos personagens em diferentes épocas ou para mostrar relações de causa e consequência entre acontecimentos que assistimos. Tudo isso, vale lembrar, sob uma trilha sonora desconfortável. 

Produção de elenco de primeira 

Além dos criadores da série, um outro nome da produção merece um parabéns especial: Simone Bär, responsável pela escolha do elenco. A maioria das atuações não deixam nada a desejar, principalmente nas frequentes cenas dramáticas. Mas o mais impressionante é o fato de que a série conseguiu escalar atores bastante parecidos para interpretar os mesmos personagens em diferentes épocas – não é incomum encontrar pela internet comparações que evidenciam as semelhanças entre atores que interpretam o mesmo personagem. 

Obviamente, maquiagem e figurino ajudam. Certos detalhes, inclusive, recebem atenção redobrada no processo porque também ajudam o telespectador a entender quem é quem  (algo que não é fácil de primeira): alguns personagens tem cicatrizes, pintas ou outras características marcantes para guiar nosso olhar. 

Subtramas envolventes 

O grande trunfo de Dark é, de longe, a história principal, que envolve muita viagem no tempo e ficção científica. É nela que o protagonista Jonas brilha, por exemplo, e é daí também que surgem as maiores plot twists da série.

Mas esse não é – e nem tenta ser – o único ponto alto da série. As tramas secundárias recebem a atenção merecida e não deixam a desejar, com muito drama familiar, traições e segredos envolvidos. 

Os personagens, aliás, são complexos e bem trabalhados. A todo momento, a série nos mostra como o conceito de “bem” e “mal” são meras simplificações que construímos, e é difícil simpatizar 100% com algum personagem, já que a maioria tem alguns podres no currículo. E isso é bom: Dark não é uma história de vilões contra mocinhos, mas de humanos agindo de acordo com seus próprios interesses.

É complicado, mas não te subestima 

Um dos diferenciais que torna Dark tão boa é que a série responde os mistérios que coloca – ou, pelo menos, fornece o necessário para que as pessoas tirem suas próprias conclusões. 

Obras que trabalham com conceitos de ficção científica ou sobrenatural muitas vezes podem cair no erro de criar situações enigmáticas e nunca explicá-las de forma satisfatória, ou então propor uma resposta rápida.

Ajuda e muito o fato de que os criadores, Baran bo Odar e Jantje Friese, terem pensado toda a história há 9 anos.  Pois é: as três temporadas já estavam planejadas quando a série estreou, em 2017. Aos poucos, o quebra-cabeça começa a ser completado, e há coisas da primeira temporada que só são completamente compreendidas na terceira, por exemplo. Sem subestimar a inteligência do público, Dark nos oferece um material para que nós mesmos passemos noites sem dormir tentando criar teorias que façam sentido na trama. E essa é a melhor parte. 

Dark diante de três outros sucessos da Netflix

Dark vs Stranger Things

Quando Dark surgiu, houve muitas comparações entre ela e Stranger Things. Há quem considerasse a série alemã uma versão européia do sucesso dos irmãos Duffer. Em ambas, um grupo de adolescentes precisa se unir para solucionar o desaparecimento de um amigo. 

Curiosamente, um dos ciclos em Dark também faz referência aos anos 1980, no entanto, a semelhança entre as duas narrativas para aí. Dark possui uma história mais madura e complexa do que a vista em Hawkins. A produção alemã casa conceitos científicos e filosóficos amplamente discutidos e intrincados, devido a faixa etária mais elevada de seus protagonistas, consegue ir além da ficção científica, projetando uma mistura entre drama familiar, terror e tragédia clássica.

Dark vs Ozark

Um dos principais trunfos em Ozark é a construção dos personagens e, nesse ínterim, a interpretação de seu elenco. A série criada por Bill Dubuque é instigante e tensa. Nenhum dos personagens é bom e isento de culpa, mas somos levados a torcer pelos Byrds e esperar que cada escolha deles os afunde em um espiral maior de problemas ou de soluções que provocarão impasses futuros.

Apesar de Dark se basear em teorias científicas e existenciais, o que fala mais alto na série é a humanidade de seus personagens. O que move as escolhas dos personagens é o amor e a dor causada por suas perdas. Isso torna a tensão e a construção de suas personas muito mais instigante, poética e simbólica.

Dark vs Mindhunter

David Fincher é um dos diretores contemporâneos que mais possuem domínio da linguagem cinematográfica. Isso pode ser visto em cada uma das suas produções, por isso torna-se até fácil identificar quando uma produção possui sua assinatura. Esse é o caso de Mindhunter.

O diretor orquestra a série com personagens complexos que nos causam incômodo, mesmo os considerados mocinhos. No entanto, seu maior trunfo é a atmosfera que permeia os episódios. Fincher e Joe Penhall constroem um ambiente frio e sombrio, que consegue referenciar com cuidado e exímio a época proposta. Além de investir no diálogo e não em ação como comumente é visto nas séries policiais.

Surpreendentemente, um dos maiores acertos na direção de Baran Bo Odar é a atmosfera criada em Dark. É esse ambiente que nos faz temer a presença de Noah no primeiro ciclo ou que nos assusta quando vemos o mundo em 2052. A série possui uma forma que é seguida desde o primeiro episódio até a chegada do Paraíso no final do ciclo.

Conclusão

Séries que ganham muita projeção geralmente têm dificuldades em terminar de forma satisfatórias. Pior, podem cair na armadilha de se estender demais e recorrer à famosa enrolação, ou então perder a essência. Baran bo Odar e Jantje Friese não cometeram esse erro.  

Com um planejamento prévio para três temporadas, Dark fornece tudo o que tinha a oferecer – nem mais, nem menos. Além de tudo, o final da série traz a maioria das respostas que tanto queremos. Dark tem um fim agridoce, sensível e bonito, que fecha com chave de ouro uma obra que, merecidamente, já entrou para a história como uma das melhores dos últimos tempos. 

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