Todos os dias, milhares de pessoas gastam horas e horas em frente à televisão para uma verdadeira roleta de emoções, que nenhum filme construiria tão fielmente quanto a vida real. São estes os programas conhecidos como reality shows. Atire a primeira pedra quem nunca acompanhou um ou outro por aí.

E quando se fala em reality show, um dos primeiros que vem à mente é o Big Brother. Desenvolvido pela produtora holandesa Endemol em 1999, ele já foi exibido em 54 países e conta com um total de 448 temporada até o momento.

Agora, por que o programa faz tanto sucesso? A grande sacada do reality foi oferecer uma chance de participação do público, através do voto, no destino dos competidores. Ou seja, é permitir a conexão entre telespectadores e participantes.

Mas o título Big Brother carrega consigo sentidos muito mais profundos do que um simples nome em um produto de entretenimento televisivo. É uma clara referência a “1984”, distopia ambientada no mundo fictício de Oceania, onde a sociedade é governada de maneira totalitária pelo “Big Brother”, uma figura que sintetiza seu poder através de câmeras de vigilância da frase-propaganda “Big Brother is watching you” (“o Grande Irmão está te observando”).

Essas câmeras observam os cidadãos de Oceania 24 horas por dia, até mesmo dentro de suas casas, característica que converge diretamente à teoria do Panóptico, proposta por Foucault, que fala do poder por meio da vigilância total do homem.

Foucault se debruçou sobre o aparecimento e funcionamento de instituições (escola, hospital, exército, família…) e dentre suas conclusões percebeu que todas funcionavam através do modelo panóptico, figura arquitetural idealizada por Jeremy Bentham.

O princípio é conhecido: na periferia uma construção em anel; no centro, uma torre; esta é vazada de largas janelas que se abrem sobre a face interna do anel; a construção periférica é dividida em celas, cada uma atravessando toda a espessura da construção; elas têm duas janelas, uma para o interior, correspondendo às janelas da torre; outra, que dá para o exterior, permite que a luz atravesse a cela de lado a lado.

A arquitetura é pensada para que a luz passe. Tudo deve ser iluminado, tudo deve poder ser visto. Na sociedade da transparência, nada deve ficar de fora. O panóptico é como um zoológico, aqueles que estão à disposição devem estar numa posição de poderem ser observados a qualquer momento.

E o que tudo isso tem a ver com reality shows? Na obra de Orwell, essa supervigilância, diretamente inspirada no panóptico, faz com que as pessoas percam suas identidades, questionem seus princípios e comecem a se comportar de forma mecânica e não-natural - como muitos dos participantes confinados no Big Brother.

Isso porque é notável que diversos comportamentos são condenados ou aplaudidos pelo público, que também detém o poder de definir quem merece ser o vitorioso. Assim, tornando-se necessário cada vez mais se enquadrar em um determinado padrão comportamental. Além disso, vale ressaltar que o confinamento faz com que os participantes não tenham noção do que verdadeiramente se passa no mundo, mas, quem está assistindo, sim.

Logo, não se trata apenas de marketing engenhoso que um dos reality shows que está a mais tempo no ar e o mais popular do mundo seja intitulado Big Brother.

O aceno do programa ao romance invoca o tipo de vigilância benevolente que o “Grande Irmão” pretendia significar: “Estamos observando você e vamos tomar conta de você”.

 

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