Sem reajuste há 12 anos, o prêmio final do maior reality do país, o Big Brother Brasil, perdeu metade do valor de compra; mas não é essa a aquisição mais importante que o vencedor leva de volta para sua casa. O prêmio atual de R$ 1,5 milhões entregue a quem vence o game – com valor ajustado e mantido desde a edição de 2010 – é uma alta quantia em dinheiro, disso não há dúvidas. Contudo, com a crescente e extraordinária capacidade do programa de ‘midiatizar’ os participantes, ativar marcas existentes no mercado dentro da casa e render cenários e experiências 'instagramáveis', um dos grandes feitos do BBB é oferecer visibilidade a quem está lá dentro, interação e repercussão direta nas redes sociais, e, consequentemente, potência de publiposts para patrocinadores e participantes, o que se dá pelo sucesso de recepção do programa pela sociedade brasileira. O mesmo acontece com o reality A Fazenda, segundo maior no país.

É claro que toda essa visibilidade é importante – ou melhor: muito importante. Mas, se fôssemos corrigir os prêmios de acordo com o custo de vida atual, quais deveriam ser os reais valores? Nossa equipe de apostas BBB montou uma série de infográficos para termos essas respostas. Confira!

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Vale dizer que o critério adotado para o cálculo de correção dos prêmios teve como base a inflação (ou o IPCA – Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo, principal medidor da inflação) do ano em que o prêmio transitou de valor.

No ano passado (2021), o real fechou o ano como a 16ª moeda que mais desvalorizou em relação ao dólar em todo o mundo. A alta na inflação brasileira foi a maior desde 2003 – 10,06% –, sendo que a meta do governo era uma inflação (IPCA) de 5,25%, metade do valor. Isso significa que o poder de compra do brasileiro diminuiu e muito, como não acontecia há 19 anos. Por isso, reajustes salariais proporcionais à inflação, bem como acontecem reajustes de produtos e serviços, deveriam ser a regra básica. Mas não é o que acontece.

E o buraco é ainda mais embaixo: a previsão dos economistas para 2022 é de que os preços vão continuar subindo; de forma mais moderada, mas nada que alivie o bolso das famílias.

O vencedor do BBB deste ano (2022), portanto, irá levar para casa um montante muito abaixo do que o vencedor dos anos de 2010, 2011 e 2012, por exemplo; ainda que em valores absolutos o prêmio seja o mesmo. E se você quer saber como apostar no BBB, seja em um vencedor ou em um próximo eliminado, é só clicar acima.

A importância da inflação

Apesar de R$ 1,5 milhões ainda ser um valor alto e que mudaria a vida de muitos brasileiros, o montante não vale o mesmo que anos atrás, como vimos acima. E o motivo disso é a inflação. Conversamos com Jefferson Mariano, economista e analista socioeconômico do IBGE, para entender mais sobre o cenário inflacionário.

“De modo simplificado, a inflação representa o aumento generalizado dos preços na economia; e em termos práticos representa a desvalorização da moeda nacional”, afirma com exclusividade à Betway. Como o índice é medido considerando a média ponderada dos preços, ou seja, alguns produtos adquirem maior peso no cálculo por serem mais consumidos e importantes na subsistência da família brasileira, isso faz com que a sensação no bolso do brasileiro seja diferente do aumento divulgado. “Às vezes, a população tem a sensação de que a inflação foi superior à verificada e divulgada – e na maioria das vezes essa premissa é verdadeira.”, explica Jefferson. A inflação é sempre mais prejudicial aos trabalhadores de menores rendimentos e, quando assume valores muito elevados, como a de 2021 – que fechou em 10,06% – , faz com que se acentue a concentração de renda e o aumento da desigualdade no país. O que acontece é que a maior parte dos trabalhadores não recebem reajustes salariais anuais na mesma intensidade em que aumenta o valor da inflação, o que provoca queda no poder aquisitivo das famílias.

Por isso, é tão importante essa análise de quais deveriam ser os reais valores dos prêmios de reality shows e de tudo mais que seja precificável no mundo em que vivemos.

É pensando nisso, inclusive, que resolvemos fazer uma análise para saber em qual BBB o prêmio foi mais condizente com a realidade socioeconômica brasileira. Qual edição do BBB teve o “maior” prêmio até agora? Ou seja, o prêmio que, de acordo com o contexto e inflação da época, possibilitou maiores ganhos e poder de compra ao vencedor. Essa é uma pergunta um tanto complexa, já que estamos falando de três momentos diferentes da história do programa – três valores diferentes de prêmio e que transitaram sem base em reajuste ou em algum critério específico.

De todo modo, como é possível entender no infográfico abaixo, cada uma das fases do prêmio sugere um ano em que ele valia mais. Vem saber!

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Entre 2002 e 2004, o prêmio final oferecido ao vencedor tinha o valor de R$500 mil. Entre os anos de 2005 e 2009, o valor do prêmio dobrou e passou a ser R$1 milhão. E desde 2010 — até agora (2022), todas as edições do reality entregaram o prêmio final em dinheiro no valor de R$1,5 milhões, não passando por qualquer reajuste ao longo dos anos.

De acordo com Jefferson, apesar de ter acontecido uma redução significativa no poder de compra do prêmio – que, como vimos, caiu pela metade – o quadro de crise econômica em que vivemos ainda faz com que o valor de R$1,5 milhões chame muita atenção. “Mas, além disso, é importante destacar os contextos distintos. Em 2010 [ano em que o prêmio do BBB transitou de R$1 milhão para R$1,5 milhões], vivíamos um clima de otimismo em razão de taxas elevadas de crescimento econômico, baixos níveis de desemprego e desconcentração da renda. O Brasil era referência na economia.”, explica o analista socioeconômico.

Sobre o Big Brother Brasil

O BBB é um jogo que mistura ficção e realidade a todo o tempo. Como disse dentro da casa um dos participantes da edição atual, o surfista Pedro Scooby, “O BBB é um jogo, mas é o jogo da vida”. Na configuração atual do reality show, anônimos e famosos (influenciadores digitais, artistas, atletas, etc) convivem confinados dentro de uma casa, sem contato com o mundo exterior, sendo vigiados por inúmeras câmeras 24h por dia, são convidados a participar de diferentes dinâmicas, competições e jogos, e a traçar estratégias para permanecer dentro do jogo, mostrando, também, seu lado humano ao longo das semanas em que vão permanecendo na disputa. E Scooby não estava errado: no BBB, emoções à flor da pele, novos sentimentos – que só um confinamento intenso pode proporcionar, discussões, amizades e conflitos provocam diferentes emoções todos os dias entre os participantes. Vence quem equilibrar melhor os pratinhos entre agradar o público e ter uma boa convivência para se manter são mentalmente para continuar com o jogo dentro da casa.

Em outros realities pelo Brasil e mundo afora, como na também conhecida “A Fazenda”,  a lógica é parecida: competir seguindo as regras do jogo, mas sem deixar de mostrar seu lado humano, racional, coerente e vulnerável ao público. Já no pioneiro brasileiro “No Limite”, lançado no ano de 2000 e inspirado no reality show estadunidense “Survivor”, o formato do jogo é outro: os participantes devem lutar para sobreviver em condições físicas e mentais extremas. Talvez, por isso, os valores do prêmio dentro e fora do Brasil sejam outros.

Neste infográfico, trouxemos o valor atualizado do prêmio dos três reality shows que melhor pagam no mundo – e, acredite, os três são norte-americanos.

Em primeiro lugar está “Survivor” (Sobrevivente). Reality show criado originalmente no Reino Unido em 1992, mas que ganhou destaque, mesmo, com a versão estadunidense exibida desde os anos 2000. O formato do programa isola os participantes em um local afastado de qualquer civilização, em meio à natureza, e deixa com que eles lutem por sua subsistência – água, alimentos, abrigo, fogo (calor) ao mesmo tempo em que competem entre si em provas que oferecem recompensas, e os participantes votam entre si para eliminarem um deles entre as tribos (grupos) que se formam. É, basicamente, um reality de competição e sobrevivência. Muitos participantes já foram eliminados do jogo por terem sofrido lesões ou adquirido doenças potencialmente graves, o que coloca em risco sua integridade física.

Em segundo lugar, mas com o mesmo valor de premiação (1 milhão de dólares), está o também estadunidense “The Amazing Race” (em tradução convencional, A Corrida Milionária). Um dos realities mais longevos e de sucesso, o programa é formado por doze equipes de duas pessoas que competem em uma corrida ao redor do mundo. As equipes competem por treze fases diferentes, enfrentando os mais variados desafios, e o último a cruzar a linha de chegada de cada estágio é o eliminado da semana. Por conta do seu grande sucesso de público e crítica, o programa que existe desde 2001 tem duas edições por ano.

E, em terceiro, está o “Big Brother” (Grande Irmão). Programa de confinamento e convivência, sendo o reality de maior sucesso no Brasil.

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No entanto, nem sempre a estrutura do BBB foi a que vemos na televisão atualmente. Com estreia em janeiro de 2002, há 20 anos, o programa já passou por muitas organizações e formatos para se manter no ar em TV aberta até hoje. Nas primeiras edições, a premiação de R$ 500 mil era o mais importante a se levar para casa. As redes sociais estavam começando a surgir e o apelo midiático era quase nulo. Ainda existia o sonho de anônimos saírem do programa e virem a ser atores, atrizes, apresentadores(as) e artistas no geral; mas isso só aconteceu, de fato, com a minoria dos participantes.

A premissa do reality era reunir participantes anônimos de diferentes classes sociais e que não se conhecessem previamente. O montante em dinheiro oferecido pela rede Globo, então, era o principal objetivo de quem entrava na casa. Com o tempo, foram acontecendo flexibilizações na estrutura-base do programa – como familiares que entravam na casa competindo como se fossem uma única pessoa; e ex-participantes convidados a retornar e participarem de outra edição (um deles conquistou até o prêmio final ao participar pela segunda vez – Marcelo Dourado, que entrou no BBB pela primeira vez em 2004, e em 2010 venceu o programa, ao voltar para a casa); até chegar na era dos influenciadores digitais e anônimos com perfis escolhidos a dedo, formando os grupos chamados de “pipoca” (anônimos) e “camarote” (famosos).

Tendo em vista um comparativo entre os prêmios de R$500 mil, R$1 milhão e R$1,5 milhões, a potência e capacidade de rendimento de cada valor oferecido atravessa uma série de subjetividades – quem foram os vencedores e suas prioridades no momento em que ganharam o prêmio; ter investido ou não em um negócio com potencial de rendimento; saber investir e buscar ferramentas de conhecimento para entender o mercado; o contexto socioeconômico de cada época; o poder de compra e força da moeda em cada ano; e, por fim, a capacidade de pensar a longo prazo.

O vencedor da segunda edição do programa (2003), Rodrigo Leonel Fraga, que ficou conhecido como Rodrigo Cowboy, conta que na época investiu o dinheiro que recebeu da forma como pensava ser a melhor, mas que, por fim, não conseguiu ter lucros. “Investi na pecuária, mas não consegui manter o investimento a longo prazo”, afirma o ex-BBB à Betway. Além disso, Rodrigo também ajudou familiares com a compra de apartamentos, mas seus investimentos acabaram não vingando.

É interessante observar, também, como as estratégias de jogo dos participantes mudam de acordo com as mudanças de comportamento e valores da sociedade. Para Rodrigo Cowboy, o que o fez chegar até a etapa final, encarando 71 dias de confinamento e levando pra casa o prêmio de R$ 500 mil, foram sua simplicidade e alegria; seu jeito de viver sem ter ‘frescuras’ e gostar de fazer amizades. “Mas acredito que no começo fiquei muito assustado; fiquei até meio quieto. Hoje iriam me chamar de planta. Depois comecei a aparecer e mostrar realmente a sensibilidade que a gente tem.”, diz Rodrigo.

Ao longo desses 20 anos, desde a estreia do programa em 2002, as possibilidades de ganho monetário evoluíram e se diversificaram de forma estrondosa. Não é mais necessário ser o vencedor para conquistar seu primeiro milhão (1 milhão de reais). Gil do Vigor, ex-participante da edição de 2021, não foi campeão e nem mesmo ficou entre os três finalistas, mas chamou tanto a atenção do público e da rede Globo, que acumulou a quantia de R$ 15 milhões desde que saiu do BBB 21, informação revelada por ele em entrevista à Forbes. Sua simpatia, espontaneidade e originalidade foram os principais fatores que fizeram de Gil um sucesso avassalador, mas não o vencedor do programa.

O que fica para os famosos que entram no programa, é uma oportunidade incomparável de alavancar suas carreiras e aumentar ainda mais seu patrimônio financeiro — já que muitas vezes os participantes do grupo “camarote” possuem marcas de produtos aqui fora; como é o caso de Jade Picon — com sua marca de roupas femininas e masculinas “Jade²”; e Pedro Scooby, um dos sócios da marca de acessórios masculinos e femininos “Sal, Água e Alma”, sendo ambos participantes do BBB 22. Ao mesmo tempo, é também muito possível ter suas vulnerabilidades, traumas e defeitos expostos, e, consequentemente sua carreira prejudicada, como aconteceu com a cantora Karol Conká na edição do BBB 21.

Aos anônimos, em contrapartida, é, talvez, uma chance única de mostrarem suas particularidades; chamarem a atenção do público, se destacando pelo jeito de ser e suas habilidades, e, até mesmo, caírem nas graças de artistas ou famosos que estão fora da casa; adentrando, então, o mundo artístico, televisivo e midiático. O caso mais recente e de maior repercussão é, sem dúvidas, o de Juliette Freire. Também participante do BBB 21, a advogada paraibana conquistou 33,5 milhões de seguidores desde que saiu da casa até hoje, e continua ocupando mais e mais espaços, firmando parcerias com marcas gigantes e referências no mercado, e sendo um verdadeiro sucesso, algo nunca antes visto com tamanha força e rapidez em toda a trajetória de participantes anônimos que brilharam após saírem do reality.

A moral da história é que, nos tempos de hoje, o prêmio de R$1,5 milhões nem de longe é o mais importante que se leva após cruzar a porta de saída do Big Brother Brasil. Dinheiro, influência, status, trabalho, parcerias e muito mais se conquistam no mundo “real”.